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domingo, 15 de maio de 2016

abriam as janelas aos domingos e nos outros dias também

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

I'm grown up now de Maggie Taylor


Faz-nos falta a infância. A janela do outro lado, a caixa escondida no degrau da escada, os gafanhotos ao sol. Às vezes quebravam as asas, vá-se lá saber.
Cativo é um lugar perdido ou achado na memória e tínhamos tanto a certeza de quê?
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domingo, 28 de fevereiro de 2016

o afinador de pianos

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

Twilight Swim de Maggie Taylor


Era uma vez uma velha senhora que morava numa casa grande junto ao marA casa tinha dois andares, sete portas, vinte janelas, cinco varandas e seis torreões. Rodeada por um estranho e desorganizado jardim onde cresciam plantas de nomes exóticos tais como metrosidero, pitosporum e tamarix, possuía junto ao portão de entrada um enorme pinheiro e uma placa onde se podia ler, Boa Esperança. Era o nome da casa.
Quando tinha seis anos e toda a gente dizia, que linda menina mora nesta casa, o mar ficava a quinhentos metros de distância e pelas largas janelas sempre abertas entrava o cheiro a maresia e as gaivotas mais ousadas pousavam nos torreões. Aos dezoito anos, acrescentaram, que linda rapariga mora naquela casa e o mar tinha subido vinte metros. Aos quarenta anos era uma mulher bonita e as pessoas já não diziam nada. O mar tinha subido outros cinquenta metros e no presente, estava ali mesmo a uns escassos cem metros das escadas que conduziam aos rochedos.
Na casa existia um piano de cauda tão antigo como a própria casa e nele três gerações aprenderam a tocar. Os dedos da velha senhora já não tinham a agilidade de outrora e como os filhos e os netos apenas regressavam nas férias de Verão, o piano também se sentia um pouco enferrujado e solitário com algumas notas fora do tom.
Na verdade tratava-se de um piano especial, temperamental, louco. Nas noites de lua cheia e maré vaza ouvia-se pela casa o som das suas notas em escalas trabalhadas, em exercícios rítmicos, em suaves melodias que subindo de tom terminavam na madrugada em apaixonadas sonatas.
A velha senhora dizia, este piano está a ficar desafinado, deve ser do sal do mar e das correntes de ar, talvez fosse bom fechar a janela.
Mas quando fechavam a janela da sala, o piano aparecia na sala de jantar e se nessa noite fechavam a janela da sala de jantar, o piano aparecia na copa ou no quarto de hóspedes. Por fim desistiram de lhe fechar as janelas e ele permaneceu quieto e desafinado na sua própria sala. A velha senhora decidiu deixá-lo em paz e chamar um afinador de pianos.
Na manhã seguinte chegou um jovem e belo afinador de pianos e com a sua voz de afinador afinada, saudou-a, bom dia minha senhora, eu sou o afinador de pianos.
Ela sentou-se junto dele e do seu velho piano e começaram a conversar e ela contou-lhe que há muitos, muitos anos, conhecera um afinador de pianos, tão jovem e tão belo como ele. E o rapaz disse-lhe, talvez fosse o meu avô. Talvez, respondeu ela e recordou-se daquelas outras mãos sensíveis, dos diapasões e de como se temperam pianos e corações.
Naquela noite estalou uma violenta tempestade, a casa oscilou e pelas janelas abertas entraram o vento e a chuva forte. O piano, afinado, vibrou uma escala em dó maior e arrancou imediatamente para uma sonata. Eliminada a distância entre a casa e as ondas, navega agora no mar alto um grande navio com dois andares, sete portas, vinte vigias, cinco convés e seis chaminés. Junto à proa pode ler-se o seu nome, Boa Esperança.
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domingo, 14 de fevereiro de 2016

Victor e a laranjeira

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

Oh, happy day! de Maggie Taylor


Tinha uma marca, uma diferença, uma letra a mais no seu nome. Muda, inútil. Quando pensava nisso ficava zangado, com os pais, os padrinhos, o funcionário do registo civil, com a professora que o obrigava a escrever o cê antes do tê e ele queria trocar o cê pelo quê de porquê. Outras vezes inventava nomes para si e perguntavam-lhe, como te chamas e ele respondia, Juno, ou Oceano e corava feliz da ousadia ou da mentira, tanto faz.
Depois cresceu e fez silêncio sobre este assunto. Dir-se-ia conformado, mas era apenas uma aceitação, um desvio que fazia, uma trégua.
Um dia o pai deu-lhe um laranjal e ele aceitou. Um terreno quadrado, solarengo, abrigado. E as laranjas cresciam doces nos dias de sol e sumarentas depois da chuva. Mesmo no centro, uma laranjeira amarga. Mas era bela e o pai dizia, com esta tem cuidados redobrados, porque é única e se troçarem dela, defende-a. Se compreenderes a sua resistência à frutose, crescerás mais dez centímetros na escala da vida.
O pai falava assim, na escala da vida. Na escala da morte. Na escala dos homens. Era a sua dimensão, o cais onde o seu barco aportava. Victor aprendeu a tratar das laranjeiras, a podá-las, a limpar o terreno à sua volta. Depois deitava-se no chão a cabeça encostada ao tronco de uma delas, os olhos abertos em direção ao verde das folhas.
Outras vezes abria um livro e ficava horas a ler, costas com costas, as suas e as da árvore. Quando alcançava a página trinta e cinco, se o livro era pequeno ou a página cento e vinte e sete, se o livro era volumoso, Victor dava um salto na escala do tempo e entrava na história. Da primeira vez que isso lhe aconteceu ficou sem fala, a tremer e lá estava ele e a fada azul, um em frente do outro e ela a dizer, pede um desejo e ele calado, indesejado. Ficou apenas dez minutos e o livro cuspiu-o. Não contou a ninguém, mas imaginou que o cê do seu nome poderia ser a expressão de um benefício.
Nesse dia colheu as laranjas amargas da laranjeira mais bela, a que habitava o centro e pediu à mãe que o ensinasse a arte das compotas. Coisas de rapaz, pensou a mãe e jantaram muito tarde nessa noite, pão acabado de fazer no forno de lenha e doce de laranja amarga com requeijão.
Foi por esta altura que deixou de usar calções e ficou apaixonado pelas ilustrações dos livros, pela magia das imagens que o faziam saltar páginas e alcançar rapidamente a página trinta e cinco, mas isso era batota e não funcionava assim. Quando estava irritado entrava numa história de tempestades e medos, de poderes ocultos e estranhos, de seres terríficos e assustadores. Apaziguado, permanecia cavalo branco asas de luar e nunca mais foi cuspido de uma história. 
O cê do seu nome tornou-se uma necessidade premente. Oceano desapareceu num mar de vida e Juno era o rapaz de quem ele teria saudades um dia.
Passaram já muitos ciclos e estações, tantas as flores de laranjeira. Mas há um momento, em que longe do laranjal que o pai lhe deu e ele aceitou, Victor sente as costas sem o apoio de outras costas e chegado à página cento e vinte e sete, deseja do mais profundo da sua raiz de laranja amarga, entrar numa história bonita e viver lá para sempre. 
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domingo, 8 de novembro de 2015

lanceolada

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Cloud Sisters de Maggie Taylor



Alice era a mais velha. Acordava antes dos pássaros e deitava-se quando já todos dormiam. Era sólida como os carvalhos e tinha a beleza antiga dos rios antes do degelo. Prendia os cabelos em duas longas tranças e quando se ria a casa abanava e o cão escondia-se debaixo da mesa. Era corajosa, curava os galos da testa e as feridas nos joelhos e sabia ouvir os segredos que lhe contávamos e queríamos guardar. Pegava na faca e barrava de manteiga as fatias de pão e dizia, se tu quiseres. Assim, se tu quiseres e nós já sabíamos que era ela que queria, que precisava, que nos estava a pedir. Ninguém resistia, porque querer, é todo um caminho que nos leva e na volta a estrada é outra e à primeira trincadela estávamos já rendidos a dizer sim. Quando o sabor salgado da manteiga atingia o céu da boca, ela punha-nos a dobrar os lençóis, a regar o canteiro das túlipas, a separar as gemas das claras.
Não tolerava a mentira e apanhava-nos na mais inocente delas, mas espantosa era a sua capacidade para resolver equações. Do primeiro e do segundo grau. E somava, multiplicava e dividia sem precisar de lápis ou papel. Poderia ter ido longe, diziam. Mas não fora, ficara ali junto de nós e quando todos partimos ela permaneceu. As florestas de carvalho não mudam de casa e é dela que eu me lembro quando sinto uma necessidade absoluta de confiar.
Tantas foram as voltas e as contravoltas da minha vida, mas quando procuro as minhas raízes, encontro-as. Nos dedos finos de Laura, no rapaz lua que Deolinda me bordou e que sou eu, na coragem de Alice.
Regressamos então os quatro, eu e as minhas irmãs à casa da infância e alguém diz, se tu quiseres e soltamos os segredos guardados, dobramos e desdobramos os nossos sonhos e até o cão que é porventura outro e não o mesmo, perde o medo e sai debaixo da mesa. Alinhamos pequenos frascos cheios da terra dos lugares que habitamos, Alice não, a terra dela é esta, lá fora, a das tranças, a da beleza antiga dos rios antes do degelo.
Amanhã talvez chova ou seja apenas inverno e eu insonoro e invisível no meu cavalobranco.

 terceira voz: Alice


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domingo, 1 de fevereiro de 2015

o homem que se faz passar por coelho

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Man Pretending to be a Rabbit de Maggie Taylor

Criámos dois coelhos brancos e pretos. Seguiam-nos pela casa, esperavam por nós à entrada da porta, roíam-nos as meias e os sapatos, eram mansos e felizes num mundo de cenouras e livros espalhados pelo chão. Um dia veio a cozinheira, matou-os. Ao jantar, serviu-os à caçadora com batatas fritas aos palitos. Nós não sabíamos identificar coelhos no prato e quando percebemos, era tarde demais. Vomitamos até hoje, por esta e muitas outras razões. Este conto existe, é cínico, maldoso e intolerável.


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