Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas
Aprisionou-o
irrefletidamente logo após o primeiro gorjeio do anoitecer e lançou para o ar
frio e húmido a linguagem dissuasora de ramos e telhas. Os outros
assustaram-se, confundidos pela razão das penas, sem vontade de brigas e
gritos.
O homem não soube o que dizer, deixou-se ficar, as pernas pendentes, um ligeiro
arrepio, que estupidez, disse, porque é que não vesti uma camisola de gola
alta, agora não adianta, altitude é coisa que não me falta e sentiu-se marear.
O
pássaro ouviu-o e aproximou-se saltitando, telha sim, telha não, numa
equidistância espontânea lança-lhe uma baga encarnada, redonda, brilhante, e
mais outra ainda, desafia-o ao reconhecimento do jogo, não teme, conduz. O
homem deixa-se conduzir, não sabe o que fazer, nunca foi prisioneiro de um
pássaro.
A
negritude das penas confunde-se com o escuro da noite, o bico laranja abre-se
provocador e ensina ao ser sem asas o grito agudo do medo da rapina das aves, o
miar do gato gordo e mimado, o assobio desvairado do ciúme, o agressivo da
guerra.
Criadores
de códigos, partilham as árvores e os telhados, o calor do sol, a água da
chuva, a lama, os ninhos e as penas. O pássaro é fiel, o homem nem sempre.
Os
olhos do pássaro fixam os olhos do homem e ele sente-se bem ali, longe do ruído
dos dias, da solidão do micro ondas, dos talheres de plástico dos centros
comerciais, do som das chávenas quando chocam com as torradas.
A
noite cheira a laranjas desfiadas, a um colar de bagas encarnadas para enfeitar
um pescoço delgado.
E
o homem entende a diferença do pássaro e não ousa perguntar porque me prendeste.
Ou fui eu que me deixei prender. Os melros riram da sua ingenuidade.