#Post Title #Post Title #Post Title #Post Title
Mostrar mensagens com a etiqueta Manuela Baptista. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Manuela Baptista. Mostrar todas as mensagens
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Hora nona, canto primeiro, na sombra da flor do imbondeiro

[ Read More ]
domingo, 31 de dezembro de 2017

replicante

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

E então no último dia daquele ano, encontraram a fivela perdida, a que se escondera no fundo da gaveta, no bolso do casaco, na caixa antiga dos botões. Não lhe fizeram perguntas inúteis, não a criticaram pela longa ausência. Prenderam-lhe uma fita de seda e a fivela de jade dançou até ser amanhã. Ao longe as vozes, os altos, contraltos, sopranos e os tenores também. A afastar a escuridão.

...a replicar, "As fivelas de Jade" de Luís Alves da Costa

E então as árvores cobriram-se de vermelho, e o vale das ginko selvagens amareleceu. No Reino de Hongshan era o tempo breve das fivelas de Jade, e logo os cortesãos as cruzaram nas fitas de seda. Ao longe, só eram cítaras e brumas.



Nesta passagem 
e que seja luminosa a outra margem



[ Read More ]
domingo, 12 de novembro de 2017

o rapaz, o cavalo branco e os negros como breu também

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

Quando nasceu, o céu coloriu-se de azul-marinho e por uns momentos dir-se-ia que a linha do horizonte se desvanecera e os habitantes da terra seriam peixes e que acabara de chegar alguém marcado com um sinal.
É um bom presságio, disseram os homens que cultivavam os campos levantando a cabeça e logo continuaram a cavar e a semear. Não se interrompeu o curso dos ribeiros nem tão pouco se alterou o sentido do vento.
O pai prometeu-lhe um cavalo branco e enquanto a mãe dormia, as mulheres da casa riram-se e troçaram, imaginando-o tão pequeno montado num potente corcel.
Cresceu manso e pacífico sem ter de enfrentar perigo algum, mas inquietava-se o pai que sabia a fortaleza frágil, temia a cedência dos baluartes em forma de estrela e as colheitas pouco abundantes.
Aos oito anos o cavalo era de sela, baixo como ele, que assim aprendeu a trotar e a galopar.
Aos dez, o cavalo era alazão e montava-o sem sela nem freio, sussurrando-lhe palavras doces, como doces os rebuçados de melaço que lhe enchiam os bolsos, recompensando aquele que se deixava cativar. O desejo que as pernas lhe crescessem fortes e saudáveis era tão grande, que todas as manhãs se levantava ainda todos dormiam. Nem servos, nem senhor davam por isso e o rapaz corria como um potro selvagem pelos carreiros, os campos de centeio, à volta das árvores do pomar, subia aos torreões onde uma eterna bruma lhe fazia companhia.
Das armas defensivas preferia o arco. Ágil e o olhar certeiro, mas incapaz de atirar a uma gazela ou sequer um urso e o pai lançava-lhe um grito.
- Como poderás defender esta cidadela e a paz que nela reina, se alguém nos atacar?
O rapaz não sabia responder. Contudo, não se inquietava e na manhã em que completou dezasseis anos o pai deu-lhe um cavalo branco, porque aquilo que se promete deve ser cumprido, sob pena de descrédito e mágoa.
Foi tanto o brilho que lhe sobejou nos olhos, que as lamparinas se apagaram nos corredores e nos salões, nas cozinhas e nos quartos, claro como se fosse dia. Assaram dois bois, o vinho correu nos jarros e nos copos e de todos os cantos da fortaleza chegaram os convidados, dançaram e cantaram e pasmaram perante a beleza de um cavalo assim.
O rapaz cresceu ainda mais do que as suas pernas, enfeitiçou o cavalo branco e os dois eram a mesma voz que sussurrava desígnios na aurora dos dias. Ousaram até sair das muralhas protetoras, chegaram ao mar e aos portos de pesca e num campo onde pousavam já as folhas vermelhas de um fim de tarde, encontraram os bandos de cavalos negros como breu, que se diziam valentes e com fama de invencíveis.
Depois vieram tempos duros. Por mais que os homens trabalhassem, os celeiros permaneciam quase vazios, cada pão dividia-se por dois e cada dois, por quatro e alguns murmuravam:
- Se vierem os nossos inimigos, de que nos vale um cavaleiro e um cavalo, se o cavaleiro é tão manso que não ousa atirar a matar e o cavalo é apenas belo e branco?
O rapaz fechava-se a estas vozes vãs e todos os dias patrulhava a muralha para cá e para lá e os campos de centeio, os pomares e as hortas, certo de que um dia teria de enfrentar o medo.
Quando os viu muito ao longe, não se sobressaltou, não gritou, não acendeu fogueiras, não deixou cair um lamento. Segredou longamente ao ouvido do cavalo branco, que ouvindo batia com o casco dianteiro no chão em sinal de assentimento e partiu à desfilada, virando apenas uma vez a cabeça para trás, as crinas espantadas ao vento.
Eram milhares e armados, de espadas, arcos, setas, facas dentadas, lanças e venenos. O ruído que faziam assemelhava-se a uma tempestade seca, à fúria cruel dos deuses. Mas quanto mais se aproximavam, menos viam e no lugar onde pensavam existir a cidadela, vislumbravam apenas uma escuridão cerrada como breu, onde nem um simples malmequer se abriria.
- Fomos enganados. Aqui existem poços fundos e negros e do nada, nada se pode roubar. E retiraram-se, acabrunhados, sujos e feios. 
E só quando os pressentiram muito longe, desarmados e derrotados, os cavalos negros como breu relincharam e gritou de alegria o rapaz e empinou-se o cavalo branco, deixando a descoberto a cidadela que protegiam.
[ Read More ]
domingo, 10 de setembro de 2017

belle époque

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

Dás-me cinco das tuas plumas? Perguntou o chapeleiro à garça branca. Ela encolheu uma perna e a outra não. Emprestas-me quatro das tuas plumas para enfeitar o chapéu de uma rainha? A garça abriu o bico e piou.
O chapeleiro insistiu. E se forem apenas três, para o toucado de uma primeira bailarina? Duas? Uma, somente, para mim? A garça virou-lhe a cauda, atirou a cabeça para trás, alongou as plumas e dançou.
[ Read More ]
domingo, 4 de junho de 2017

pigmento

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

Não usei açafrão, terra, café, couve, casca de limão. Foi o sol de junho a espantar a ventania e a luzroubada do entardecer.

[ Read More ]
domingo, 16 de abril de 2017

retrato de domingo enquanto páscoa

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

Os jarros tingem de vermelho os guardanapos brancos. Os malmequeres soltam um pó amarelo-torrado nos copos de água. As rosas lançam espinhos em dedos incautos e as estrelícias são os galos a cantar de madrugada. 
Este é um retrato de domingo enquanto Páscoa. A toalha estendida sobre a relva, as flores onde quer que cresçam e o coelho a esconder ovos de chocolate no ninho dos pássaros.


ave-do-paraíso
fotografia de mb
[ Read More ]
domingo, 19 de março de 2017

em breve, as cerejas

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

Estava ali numa esquina, apoiada na parede. Era bem mais alta do que ele, o pé escondido num saco de plástico atado com um cordel, alguns ramos despidos de folhas. Ele parou, olhou à sua volta e foi perguntando a quem passava, é sua? A maioria das pessoas nem respondia, outros diziam que não, apressados e cansados nesse fim de dia. E pensou, se não aparecer ninguém que a reclame dentro de quinze minutos, levo-a comigo. O tempo avançou devagar, aos quinze minutos iniciais acrescentou outros quinze. Ainda abordou um polícia e um taxista. O primeiro propôs-lhe redigirem um auto, o que ele recusou. Do taxista recebeu um resmungo, vai chatear outro, pá.
Estava decidido, pegou-lhe pelo tronco e levou-a para casa. Plantou-a no terraço, num vaso três vezes maior e mais profundo que a esfera da sua raiz. Regou-a de manhã bem cedo, falou-lhe baixinho de coisa nenhuma, mas não lhe sabia o nome e ela calou-se no balancear suave do ramo mais fino.
A árvore foi crescendo, dois centímetros apenas. Dos ramos magros brotaram pequenas folhas verdes e tenras e os vizinhos subiam ao terraço para verem a árvore que tinha sido abandonada numa esquina e sentavam-se com ele e conversavam um pouco sobre os segredos da terra que não tinham. Quando o tempo aqueceu surgiram as primeiras flores e mudavam de cor conforme a inclinação solar e o alinhamento dos planetas.
Num sábado de manhã, chegou o pássaro. Pequenino, acinzentado, vivaz. Esvoaçou à roda da árvore e num grito alegre posou num ramo, depois fugiu. O homem gostava de pássaros, no entanto, temendo a fragilidade das folhas novas e dos botões, esfarelou um pedaço de pão e espalhou-o pelo chão. No domingo de manhã o pão tinha desaparecido e o homem substitui-o por sementes e colocou ao lado um prato com água e esperou silencioso e quieto. O pássaro aproximou-se, rasou-lhe a cabeça, brincou com as sementes, comeu-as e equilibrando-se na borda do prato abriu as asas e cantou. E as penas formaram um manto amarelo-torrado e o cinzento da ave era apenas uma ilusória condição. 
O homem desconhecia a identidade do pássaro, mas falou-lhe como se ele fora árvore, de tudo e coisa nenhuma. E numa tarde quente comeram cerejas os dois.
[ Read More ]
domingo, 19 de fevereiro de 2017

domingo pérsico

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

Depois chega aquele tempo dos dias a crescer, dos rebentos de frésias pela relva. Não sei se é a luz ou um fio efémero a baloiçar a primavera.
[ Read More ]
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Lullaby, op. 3


Andantino molto gentile, para o aniversário da artista Manuela Baptista

Vieram os pássaros anunciar-lhe ter nascido outra vez, mas nem o senhor Buda ousaria tanto, e se sentia apenas outro reviver. Todo o amarelo dos campos nos falava da primavera precoce, como se primaveras se pudessem ler no surdo cantabile de giestas. Lembrou-se de que a Senhora da Música teria partido e deixado nas areias do jardim um só rasto de sorriso. E pegou-lhe com as duas mãos, e aceitou essa herança de eternidade.


[ Read More ]
domingo, 22 de janeiro de 2017

um infinito ponto verde

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

Os ventos continuaram a soprar e a terra foi girando e com ela a lua e muitos esqueceram os sonhos que sonhavam com os dragões vermelhos, os verdes e os brancos e as estações sucediam-se como os jovens sucedem aos velhos até ao fim dos tempos. No reino das fivelas de jade o palácio ruíra e as fitas de seda perdiam-se agora na memória das histórias. 
E no entanto, a última das fivelas, a mais bela, era agora um pequeno ponto verde no universo, visível apenas para os habitantes das estrelas.
[ Read More ]
domingo, 4 de dezembro de 2016

Monticola solitarius

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

Sobre a mesa comprida da cozinha estendemos o tecido, preso pelas quatro pontas e desenhámos o pássaro, as asas abertas, as patas esticadas, quase a poisar. Cheirava a maçãs assadas e a canela e lá fora o cão corria e ladrava a pedir para entrar.
Começámos a bordar. A cada um calhou uma pena, o pescoço, a cabeça, a pata direita, a esquerda, a cauda, o bico, os dedos, a quilha do peito e escondido, por baixo do ponto cheio, o coração.
Os rapazes não bordam a linha de seda, mas bordaram. E em cadeia, o pássaro de dezembro cresceu, apenas um pouco tosco por passar de mão em mão.
Antes do Natal chegar, pendurámos o pano bordado na parede da sala e deixámos a janela aberta. Entrou o frio, uma chuva leve, o vento do entardecer. E um ou dois pássaros.

[ Read More ]
domingo, 6 de novembro de 2016

os ausentes

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

O primeiro frio de novembro ainda as aves marulham nos ramos. Entardecer é isto assim simples de contar, o crescente no céu vermelho e cinza, os morcegos a hibernar, aquele voltear cego na luz do candeeiro de rua, por ora não até chegar de novo a primavera.
[ Read More ]
domingo, 14 de agosto de 2016

il était un petit navire

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

Falta-lhe um mastro e uma vela, a proa está desalinhada em relação à ré, o cordame é fraco. Navega a quatro aves marinhas e outras ainda se as houvesse. Em cada porto, embarca. Espantam-se as muitas gentes que povoam o mês de agosto, para que queremos nós um barco assim, tão pequeno, a sonhar acordado com uma ilha deserta.
[ Read More ]
domingo, 31 de julho de 2016

utopia

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas
uge-leopardo e dois peixes comuns

Entre uma bolha de ar e o fundo da areia, mudou de direção e disse, vou-me embora, não há peixe que me faça parar. Não havia, mas seguiram-no mantendo uma distância cautelosa não fosse o espigão venenoso da cauda cravar-se-lhes no lombo e lá se iam as riscas e as barbatanas e os olhos de peixe e o peixe também. A viagem foi longa epacífica. Se sonhassem, seria exatamente igual.
[ Read More ]
domingo, 10 de julho de 2016

domingo voador

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas


Às sete da manhã pôs um olho de fora e contou três chapéus amarelos e cinco encarnados. A maré estava baixa e as rochas cobertas de limo brilhavam ao sol. Será um bom dia, disse em voz alta enquanto sacudia as barbatanas peitorais. Em seguida mergulhou, contornando embalagens de iogurte, sacos de plástico e dois ossos de galinha. Sentiu um arrepio na espinha e num impulso ascendente ganhou asas e voou. Se tivesse olhado para baixo teria contado mil e quinhentas cabeças a escaldar na areia. Mas não olhou.
[ Read More ]
domingo, 12 de junho de 2016

exposição solar

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

Há um mistério qualquer com os apara-lápis. Para os pastéis, de cor, a óleo, a carvão, macios, duros, tanto faz. Troco-os, quebram os bicos, rangem, descascam a madeira, finam-se. Mais vale uma andorinha-do-mar em cada cais.


[ Read More ]
domingo, 22 de maio de 2016

o homem-pássaro

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

E o pássaro regressava nas noites de insónia e acompanhava o homem nas manhãs de trabalho. Pousava nas cúpulas e nos zimbórios, partia uma telha ou duas, trincava o estuque das paredes, entornava as tintas. Mas cantava e o homem assobiava. Ou seria ao contrário, não sei dizer porquê.
[ Read More ]
domingo, 10 de abril de 2016

dez de abril

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

Que ideia esta de te falar de toutinegras neste dia, numa confusão detalhada de cabeças, peitos, asas e sobretudo na certeza de que as aves jamais mantêm as mesmas cores e tudo se altera com o estio, o bico, o ninho, a pena, o voo, tal como nós.


Feliz aniversário Paulo!


[ Read More ]
domingo, 3 de abril de 2016

ilustração

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

Pelos meus olhos,
                                  
o forte da Cruz em noite estrelada



[ Read More ]
domingo, 28 de fevereiro de 2016

o afinador de pianos

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

Twilight Swim de Maggie Taylor


Era uma vez uma velha senhora que morava numa casa grande junto ao mar. A casa tinha dois andares, sete portas, vinte janelas, cinco varandas e seis torreões. Rodeada por um estranho e desorganizado jardim onde cresciam plantas de nomes exóticos tais como metrosidero, pitosporum e tamarix, possuía junto ao portão de entrada um enorme pinheiro e uma placa onde se podia ler, Boa Esperança. Era o nome da casa.
Quando tinha seis anos e toda a gente dizia, que linda menina mora nesta casa, o mar ficava a quinhentos metros de distância e pelas largas janelas sempre abertas entrava o cheiro a maresia e as gaivotas mais ousadas pousavam nos torreões. Aos dezoito anos, acrescentaram, que linda rapariga mora naquela casa e o mar tinha subido vinte metros. Aos quarenta anos era uma mulher bonita e as pessoas já não diziam nada. O mar tinha subido outros cinquenta metros e no presente, estava ali mesmo a uns escassos cem metros das escadas que conduziam aos rochedos.
Na casa existia um piano de cauda tão antigo como a própria casa e nele três gerações aprenderam a tocar. Os dedos da velha senhora já não tinham a agilidade de outrora e como os filhos e os netos apenas regressavam nas férias de Verão, o piano também se sentia um pouco enferrujado e solitário com algumas notas fora do tom.
Na verdade tratava-se de um piano especial, temperamental, louco. Nas noites de lua cheia e maré vaza ouvia-se pela casa o som das suas notas em escalas trabalhadas, em exercícios rítmicos, em suaves melodias que subindo de tom terminavam na madrugada em apaixonadas sonatas.
A velha senhora dizia, este piano está a ficar desafinado, deve ser do sal do mar e das correntes de ar, talvez fosse bom fechar a janela.
Mas quando fechavam a janela da sala, o piano aparecia na sala de jantar e se nessa noite fechavam a janela da sala de jantar, o piano aparecia na copa ou no quarto de hóspedes. Por fim desistiram de lhe fechar as janelas e ele permaneceu quieto e desafinado na sua própria sala. A velha senhora decidiu deixá-lo em paz e chamar um afinador de pianos.
Na manhã seguinte chegou um jovem e belo afinador de pianos e com a sua voz de afinador afinada, saudou-a, bom dia minha senhora, eu sou o afinador de pianos.
Ela sentou-se junto dele e do seu velho piano e começaram a conversar e ela contou-lhe que há muitos, muitos anos, conhecera um afinador de pianos, tão jovem e tão belo como ele. E o rapaz disse-lhe, talvez fosse o meu avô. Talvez, respondeu ela e recordou-se daquelas outras mãos sensíveis, dos diapasões e de como se temperam pianos e corações.
Naquela noite estalou uma violenta tempestade, a casa oscilou e pelas janelas abertas entraram o vento e a chuva forte. O piano, afinado, vibrou uma escala em dó maior e arrancou imediatamente para uma sonata. Eliminada a distância entre a casa e as ondas, navega agora no mar alto um grande navio com dois andares, sete portas, vinte vigias, cinco convés e seis chaminés. Junto à proa pode ler-se o seu nome, Boa Esperança.
[ Read More ]
 
 

Blogger news

Powered By Blogger

Blog Archive