sábado, 14 de março de 2015

O Nada - 2

Não tenho como me lembrar de todos os livros que li na vida porque eu não sou o André Barcinski. Mas me lembro mais ou menos dos livros que li quando criança.
            Meu primeiro contato com a literatura foi trágico. Eu tive uma professora idiota de história que conseguiu me fazer ter ódio inicial por história. Só descobri que história era minha matéria favorita depois de grande. Foi a pior professora que tive no primeiro grau. Uma maluca direitista que afirmava ter poderes paranormais. Uma retardada completa. Quando eu tinha 10 anos e estava na quinta-série, ela adotou o livro “A Escrava Isaura”, de Bernardo Guimarães. Me diz em que universo este é o livro que se adota numa quinta série? Eu não passei da primeira página e não creio que ninguém na sala tenha lido o livro. Mas a tortura não acabou aí. No ano seguinte, a louca adota “O Guarani”, de José de Alencar, e apesar de ser um bom livro, não é um livro para crianças. Também ninguém leu. A tortura não acabou. O penúltimo livro estúpido que ela adotou foi “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, cujo autor não me lembro agora nem pretendo lembrar. Lembrei: Joaquim Manuel de Macedo.
            Mas a maluquice acabou quando a escola adotou a série Vagalume, da Editora Ática. Agora sim dava para ler bons livros e eu li vários. O que mais gostei foi o primeiro, “A Ilha Perdida”, de Maria José Dupré, e me coloquei na pele daqueles dois garotos “perdidos” numa ilha no meio de um rio, como se fosse possível alguém se perder numa ilha no meio de um rio. Descobri que eu gostava de ler.
            Outro livro que pirei foi “O Gênio do Crime”, de José Carlos Marinho. Não tive contato com histórias em quadrinhos, infelizmente, à exceção da Turma da Mônica, que eu sempre colecionei. Mas não me pergunte nada sobre universos de super-heróis, porque não entendo nada disto. Não sei dizer por que nunca comprei hqs de super-heróis. Talvez porque eu só tivesse dinheiro suficiente para comprar um gibi. Então eu escolhia algum da Turma da Mônica. Mas essa tese não é satisfatória. Tanto é que eu assistia desenhos animados de super-heróis tranquilamente. Quando criança, assistia aos chamados “desenhos desanimados”, aqueles desenhos da Marvel parados que apareciam na tv e eram praticamente histórias em quadrinhos escaneadas para tv. Também adorava a série clássica do Batman, mas fui comprar meu primeiro Batman (“A Piada Mortal”) depois de adulto.
            Também é interessante lembrar de um livro adulto que tive em mãos: “O Mestre e Margarida”, de Mikail Bulgakhov. Minha mãe estava lendo este livro. Embora não tenha lido o livro todo, os trechos que li me deixaram muito impressionado.
            Minha primeira tentativa de escrever ocorreu lá pelos 12 ou 13 anos. Na época, eu era fã de uma série de tv chamada “Buck Rogers” e comecei a escrever minha própria aventura, sendo eu o Buck Rogers, mas eu tinha outro nome: Aplas Yamel, um nome inventado. Mas não cheguei a concluir qualquer tentativa de escrever esta história, a não ser uma spin off, que concluí aos 19 anos e depois outra parte aos 26. Por sinal, algumas pessoas me dizem que este meu conto dos 26 anos, chamado “Energia”, é meu melhor conto. Eu acho uma maluquice sem pé nem cabeça.
            Outra coisa que eu adorava era música. Quando criança, eu estava bem no meio da febre da discoteca e havia dezenas de discos com este gênero em casa. Havia um pouco de rock também. Da discoteca, passei para música eletrônica. Sem abandonar o rock. Apesar de o primeiro disco que eu ter comprado foi o “Ghost in the machine”, do The Police, eu pirei com o videoclipe da música “Another brick in the wall”, do Pink Floyd, que passava na tv o tempo todo. Mas só vim assistir ao filme “The Wall” anos depois, como também descobri que o álbum não era o Pink Floyd verdadeiro, mas uma espécie de viagem solo do Roger Waters.
            Eu tinha vontade de fazer música. Cheguei a sugerir que os adultos me matriculasse num curso de “órgão” (na verdade, eu queria aprender a tocar sintetizadores), mas eles não se interessaram. Aprender música era uma frescura inadmissível na periferia paulistana de 1980, onde o sonho dos rapazes era aprender a se tornar pedreiros e construir suas próprias casas.

(continua)

(gostou? quer ler mais? escreva-me no papoy3@gmail.com)
 
 

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