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sábado, 23 de dezembro de 2017

o sonho da raposa

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

Habitava uma caixa de madeira antiga, juntamente com um soldado, um anjo, um boneco de neve, um tambor, dez bolas douradas e uma estrela. Embrulhada em papel de seda, apenas saía uns dias pelo Natal. Sacudiam-lhe o pelo, ajeitavam-lhe as orelhas, rodeavam-lhe o pescoço com um fio de nylon e penduravam-na numa agulha de pinheiro. A casa cheirava a sonhos e a rabanadas e ela nauseada, a baloiçar, a andar à roda cada vez que alguém passava e fazia estremecer o chão, o pinheiro, a agulha. Uma noite o fio quebrou-se e ela caiu. Desequilibrou-se um pouco mas logo esticou as patas, abanou a cauda e levantando o focinho sentiu a liberdade lá fora. 
Fugiu pela porta da cozinha, um sonho no céu-da-boca, a neve, o gelo e as estrelas a galopar-lhe na cabeça. 




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quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Hiver - Solstice

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domingo, 17 de dezembro de 2017

um casaco com asas e muitos bolsos

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

Era uma vez um rapaz que gostava de bolsos. Grandes, pequenos, médios e assim-assim. Nos primeiros arrumava os cadernos da escola, nos segundos, as pedras redondas e as moedas, nos médios, os pacotes de leite com chocolate e nos assim-assim, tudo o que sendo invisível para os olhos da maioria das pessoas era importante para ele. Os pensamentos e os projetos por exemplo. Não se veem, mas são reais e o rapaz guardava-os para nunca se esquecer deles. Também era um rapaz com sorte. A mãe sabia costurar e ele acreditava que os seus dedos eram mágicos e que, se ela desejasse, poderia fazer-lhe um casaco com asas que lhe permitisse voar.
À noite o rapaz sentava-se num banco baixo junto dela e as agulhas iam e vinham e as linhas de cor e lá fora na rua gelada o ruído dos elétricos sobressaltava-os sempre um pouco, apesar de ali habitarem há uma eternidade. Para ele a eternidade tinha dez anos, exatamente a sua idade acrescida dos três anos que o separavam do irmão mais velho.
Se tivesse um casaco com asas e muitos bolsos, dizia o rapaz, levaria comigo tudo o que preciso e poderia voar até ao cimo das árvores mais altas ou dos cumes das serras ou dos mastros dos navios. Ou chegar às estrelas.
E o peso dos bolsos? Prendia-te ao chão, respondia-lhe a mãe.
O rapaz mordia o lábio inferior, hesitava um segundo mas não desistia.
E todas as noites, quando cansado, finalmente adormecia, a mãe costurava-lhe um casaco com asas e escondia-lhe nos bolsos assim-assim, estrelas, pingentes e cogumelos encarnados que recortava em feltro tosco, para que ele se surpreendesse nesse natal e fincasse um pé na terra, porque o outro, precisa de ar.
Nas traseiras do prédio onde moravam, protegida do barulho e da agitação da cidade, existia uma árvore grande despida de folhas que quase tocava nas varandas antigas de ferro forjado. Na primavera surgiriam os rebentos e encher-se-ia de pássaros e folhas, mas por ora, não.
Uma madrugada, uma luz estranha acordou-o. Aos pés da cama o casaco novo que a mãe lhe fizera e o rapaz pegou-lhe, contemplou-o, revirou-o, confirmou a existência das asas e por fim vestiu-o. Era tão lindo e sentia-se tão excitado que abriu a portada e saiu para varanda. Colocou um pé em cada grade, abriu os braços e gritou. À sua frente a árvore grande e despida e junto ao tronco caída na terra estava uma estrela e nunca tal facto fora antes visto e o coração do rapaz saltou-lhe no peito e um arrepio fê-lo tremer. Num impulso desceu as escadas a correr, saiu para a rua, pegou na estrela e ela brilhava na palma da sua mão.
Ninguém poderia afirmar se ele voara, se trepara um a um os ramos nus, ou se apenas sonhara. Mas leve, tão leve era o rapaz, que colocou a estrela no cimo da árvore e o seu brilho redobrou. Depois imobilizou-se um segundo a ganhar forças para a descida e porque era glacial a madrugada, meteu as mãos nos bolsos assim-assim para se aquecer e sorriu. A cada ramo prendeu um pingente ou um cogumelo encarnado ou uma estrela de feltro tosco. E porque dormiam, ninguém poderia afirmar se ele voara, saltara ou simplesmente sonhara.


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sábado, 16 de dezembro de 2017

A pedido da assessoria de imprensa do Gabinete do Sacramento, publica-se o seguinte esclarecimento sobre os estado de saúde do ex professor..., perdão, ex presidente da república, professor Cavaco Silva (natural de Boliqueime, nas berças)





























































































































Dada a atual associação do nome da família Cavaco Silva à associação "Raríssimas", a qual se tem verificado, sobretudo na última semana, através dos órgãos de comunicação social, entende o Gabinete do Sacramento dever esclarecer que o Professor Cavaco Silva nunca teve, ou manteve, qualquer relação com a associação, muito menos, de âmbito terapêutico, ou mesmo de diagnóstico.

Salienta-se que as imagens, em domínio público, de incidentes no seu estado de saúde, se devem especificamente a episódios correntes, derivados do seu quadro clínico específico e das afeções neurológicas, que se entendem ao foro privado do cidadão Cavaco Silva, e, como tal, protegidas pelo dever clínico de sigilo.

Mais se acrescenta que tais afeções nem, em abstrato, poderiam ser consideradas raríssimas, já que os portugueses votaram sucessivamente nelas, ao longo de 30 anos, a começar em 1985 e a acabar em 2005 e 2011
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sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Publicamos, ao abrigo do Direito de Resposta, contemplado no artigo 37.º|4 da Constituição da República Portuguesa (CRP), os artigos 24.º a 27.º da Lei de Imprensa (LI), os artigos 65.º a 69.º da Lei da Televisão e dos Serviços Audiovisuais a Pedido (LTV), os artigos 59.º a 63.º da Lei da Rádio (LR) e os artigos 24.º|1 j), 59.º e 60.º dos Estatutos da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (Est.ERC), o seguinte texto que nos foi enviado pelo serviço de imprensa do Gabinete do Sacramento a pedido da Dr.ª Maria Cavaco Siva, relativamente ao nosso post do dia 12/12/17, intitulado "Diário do fim das doenças raríssimas - Sim, o gajo que era ministro da Casa Pia, quando se tratou de abafar o Casa Pia, e que se dizia que tinha um olho em frente, para mentir, e um outro em baixo, para ver o estado das braguilhas dos órfãos, pois, afinal, ele era raríssimo, ele e a Paula Brito e Costa, por amor da santa, qual raríssimo, raríssimos são os doentes, o resto é a fina flor do entulho, o estrume do costume, e todo junto, a Maria Cavaca, a Amostra Clínica, Maria de Belém, a Leonor Beleza, o Ulrich, e só não apareceu o Carlos Cruz, por que estava em período de defeso, fica para as assembleias gerais de 2018, se deus quiser :-)"

"A notícia publicada na vossa edição online de dia 12/12/17, intitulada "Diário do fim das doenças raríssimas - Sim, o gajo que era ministro da Casa Pia, quando se tratou de abafar o Casa Pia, e que se dizia que tinha um olho em frente, para mentir, e um outro em baixo, para ver o estado das braguilhas dos órfãos, pois, afinal, ele era raríssimo, ele e a Paula Brito e Costa, por amor da santa, qual raríssimo, raríssimos são os doentes, o resto é a fina flor do entulho, o estrume do costume, e todo junto, a Maria Cavaca, a Amostra Clínica, Maria de Belém, a Leonor Beleza, o Ulrich, e só não apareceu o Carlos Cruz, por que estava em período de defeso, fica para as assembleias gerais de 2018, se deus quiser :-)", pretende informar os leitores de que, na lista de políticos e entidades associadas à Associação "Raríssimas" e à "Casa dos Marcos" se pretende incluir a Dr.ª Maria Cavaco Silva, de algum modo colocando no mesmo plano os dirigentes agora sob suspeita e a esposa do ex Presidente Anibal Cavaco Silva.

Tal afirmação não corresponde à realidade, pelo que induz em erro os leitores, prejudicando assim a imagem pessoal da Dr.ª Maria Cavaco Silva, e a sua longa relação institucional com a organização, durante os anos em que, a partir da Presidência da República a acompanhou e patrocinou. Considerando que o seu nome foi indevidamente associado a uma extensa lista de gastos sumptuários, que tem vindo a ser divulgada pela Comunicação Social, entendeu vir por este meio, e para os devidos efeitos, reafirmar que, em todos os eventos em que participou, a convite da Dr.ª Paula Brito e Costa, e de quaisquer outros membros da Associação "Raríssimas", a sua indumentária foi exclusivamente assegurada a partir dos seus rendimentos pessoais, e por encomendas à sua modista de longos anos, cuja contabilidade organizada se encontra disponível no Portal das Finanças, podendo ser facultada para consulta, quer ao blogue "The Braganza Mothers", quer a outra comunidade de intervenção e perfil afim" .
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quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Publicamos, ao abrigo do Direito de Resposta, contemplado no artigo 37.º|4 da Constituição da República Portuguesa (CRP), os artigos 24.º a 27.º da Lei de Imprensa (LI), os artigos 65.º a 69.º da Lei da Televisão e dos Serviços Audiovisuais a Pedido (LTV), os artigos 59.º a 63.º da Lei da Rádio (LR) e os artigos 24.º|1 j), 59.º e 60.º dos Estatutos da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (Est.ERC), o seguinte texto que nos foi enviado pelo gabinete do Ministro da Segurança Social, relativamente ao nosso post do dia 12/12/17, intitulado "Diário do fim das doenças raríssimas - Sim, o gajo que era ministro da Casa Pia, quando se tratou de abafar o Casa Pia, e que se dizia que tinha um olho em frente, para mentir, e um outro em baixo, para ver o estado das braguilhas dos órfãos, pois, afinal, ele era raríssimo, ele e a Paula Brito e Costa, por amor da santa, qual raríssimo, raríssimos são os doentes, o resto é a fina flor do entulho, o estrume do costume, e todo junto, a Maria Cavaca, a Amostra Clínica, Maria de Belém, a Leonor Beleza, o Ulrich, e só não apareceu o Carlos Cruz, por que estava em período de defeso, fica para as assembleias gerais de 2018, se deus quiser :-)"

"A notícia publicada na vossa edição online de dia 12/12/17, intitulada "Diário do fim das doenças raríssimas - Sim, o gajo que era ministro da Casa Pia, quando se tratou de abafar o Casa Pia, e que se dizia que tinha um olho em frente, para mentir, e um outro em baixo, para ver o estado das braguilhas dos órfãos, pois, afinal, ele era raríssimo, ele e a Paula Brito e Costa, por amor da santa, qual raríssimo, raríssimos são os doentes, o resto é a fina flor do entulho, o estrume do costume, e todo junto, a Maria Cavaca, a Amostra Clínica, Maria de Belém, a Leonor Beleza, o Ulrich, e só não apareceu o Carlos Cruz, por que estava em período de defeso, fica para as assembleias gerais de 2018, se deus quiser :-)", pretende informar os leitores de que o desvio do eixo ocular do ministro Vieira da Silva advém do tempo em que tutelava a Casa Pia de Lisboa, e citamos, "o gajo que era ministro da Casa Pia, quando se tratou de abafar o Casa Pia, e que se dizia que tinha um olho em frente, para mentir, e um outro em baixo, para ver o estado das braguilhas dos órfãos".

Tal afirmação não corresponde à realidade, pelo que induz em erro os leitores, prejudicando assim a imagem institucional do ministro e dos organismos que tutela, Casa Pia inclusive. Durante o período em que tutelou tal instituição, quer enquanto Secretário de Estado da Segurança Social do XIV Governo Constitucional, chefiado por António Guterres (1999-2001), quer enquanto Ministro do Trabalho e da Segurança Social, do XVII Governo Constitucional, chefiado por José Sócrates (2005-2009), sempre defendeu que as crianças e jovens da Casa Pia têm necessidades particulares e, por isso, a instituição tem meios e uma estrutura mais forte.

Dado isso, sempre expressou a confiança em ter a Casa [Pia] "a capacidade de prevenir a existência de práticas que devem, de todo, estar afastadas de qualquer instituição e, em particular, de uma instituição com tal responsabilidade". Por tal, se deve entender que o referido desvio dos seus eixos oculares deriva de um quadro tradicional de estrabismo. O estrabismo corresponde ao desvio de um dos olhos, que se pode dar numa direção horizontal, convergente ou divergente, numa direção vertical, podendo um dos olhos desviar-se para cima ou para baixo, ou ainda segundo um eixo torsional, neste caso de diagnóstico mais difícil. Na prática, muitas vezes estes desvios são mistos, ou seja, os eixos visuais encontram-se desalinhados em mais que uma direção.

Sendo desconhecido o número de estrábicos em Portugal, mas sabendo-se que a prevalência do estrabismo para populações com características demográficas idênticas à nossa é de cerca de 3%, poderemos estimar que em Portugal existam cerca de 320.000 estrábicos e que entre estes, 50.000 sejam crianças com idade inferior a 14 anos, nem todas internadas na Casa Pia.

Dado o anterior, deve entender-se que o desvio ocular do ministro Vieira da Silva faz dele apenas um destes 320 000 estrábicos portugueses, e nenhuma outra coisa, para além disso, nada havendo que indique que um dos seus olhos olhe em frente, "para mentir", nem que o outro se dirija para baixo, para, e cita-se, "ver o estado das braguilhas dos órfãos".



(Lisboa, 13 de dezembro de 2017)
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terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Diário do fim das doenças raríssimas - Sim, o gajo que era ministro da Casa Pia, quando se tratou de abafar o Casa Pia, e que se dizia que tinha um olho em frente, para mentir, e um outro em baixo, para ver o estado das braguilhas dos órfãos, pois, afinal, ele era raríssimo, ele e a Paula Brito e Costa, por amor da santa, qual raríssimo, raríssimos são os doentes, o resto é a fina flor do entulho, o estrume do costume, e todo junto, a Maria Cavaca, a Amostra Clínica, Maria de Belém, a Leonor Beleza, o Ulrich, e só não apareceu o Carlos Cruz, por que estava em período de defeso, fica para as assembleias gerais de 2018, se deus quiser :-)

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domingo, 10 de dezembro de 2017

advento

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

Pode ser uma romãzeira. Decoramo-la com bolas vermelhas, fitas amarelas, cavalos de pau e tambores. Depois numa desordem organizada, descascamos as romãs e ficamos ali a trincá-las e a conversar até de madrugada.
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sábado, 9 de dezembro de 2017

"Passos Coelho ama-te!..."

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terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Lua longa de dezembro

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domingo, 26 de novembro de 2017

para entardecer gosto do mar mesmo que chova

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Terá sido um acaso, uma mudança brusca na direção do vento, um batimento diferente do coração da mãe, mas o facto é que nascera diferente. À medida que foi ganhando pelo e peso, tornou-se notório que os pelos da cauda não formavam riscas horizontais, mas sim, verticais. Cresceu ágil e trepador, alheio ao sentido dos desenhos do seu corpo e aos comentários hostis dos que possuíam a espécie que afinal não era a sua. A mãe defendia-o com as unhas que tinha e um dia foi ele que se cansou de estar à defesa e foi-se ao mundo. Encontrei-o ontem na praia, ao entardecer.
Para escrever, eu gosto do entardecer. Para chegar a casa e atirar os sapatos para o lado, também. Para beber chá quente, para ouvir a gritaria das aves, ainda mais. Para soltar o gato, abrir a janela, cheirar a folhagem seca dos pessegueiros, o vazio dos ramos.
Para entardecer, gosto do mar mesmo que chova. Às vezes um pargo, um caranguejo, baleias nem tanto, por isso não me surpreendi de o ver ali, embora peludo. Andava pela beira da água, as patas dianteiras esfregavam as pedras à procura de qualquer coisa. Talvez seja um rato-lavadeiro a quem pintaram a cauda de branco.
Vê lá, não te cortes nos ouriços, disse-lhe eu, assim como quem verdadeiramente diz, vê lá, pareces-me longe de casa.
E olhei em volta, não fossem os cães tardios como nós ladrar-lhe às canelas. Ele saiu da água, sacudiu o pelo e sentou-se ao meu lado. Eu tirei do bolso um punhado de amêndoas que ele comeu levando-as à boca com os dedos. Depois contou-me o que já vos contei e seguiu-me até casa.


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domingo, 19 de novembro de 2017

a rã a cantar num bote verde-folha

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Este inverno não hiberno, coaxou a rã. Não durmo, não tenho sono, tornou a coaxar a rã. As canas de água dançaram com o vento e ao longe, um rapaz assobiou. A rã apanhou duas folhas soltas e, num impulso, foi viajar.
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sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Bom dia, João Lourenço. "The Braganza Mothers" agradece-te que continues :-)

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quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Diário do fim do Mário Nogueira - Em nome da saúde física e mental deste país, este blogue apoia a imediata saída de palco dos badochas Mário Nogueira e Arménio Carlos

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quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Olha, prenderam o Mugabe!... A que tratador é que o gorila mais velho do Zoo terá deixado de servir, hein?... :-)

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domingo, 12 de novembro de 2017

o rapaz, o cavalo branco e os negros como breu também

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Quando nasceu, o céu coloriu-se de azul-marinho e por uns momentos dir-se-ia que a linha do horizonte se desvanecera e os habitantes da terra seriam peixes e que acabara de chegar alguém marcado com um sinal.
É um bom presságio, disseram os homens que cultivavam os campos levantando a cabeça e logo continuaram a cavar e a semear. Não se interrompeu o curso dos ribeiros nem tão pouco se alterou o sentido do vento.
O pai prometeu-lhe um cavalo branco e enquanto a mãe dormia, as mulheres da casa riram-se e troçaram, imaginando-o tão pequeno montado num potente corcel.
Cresceu manso e pacífico sem ter de enfrentar perigo algum, mas inquietava-se o pai que sabia a fortaleza frágil, temia a cedência dos baluartes em forma de estrela e as colheitas pouco abundantes.
Aos oito anos o cavalo era de sela, baixo como ele, que assim aprendeu a trotar e a galopar.
Aos dez, o cavalo era alazão e montava-o sem sela nem freio, sussurrando-lhe palavras doces, como doces os rebuçados de melaço que lhe enchiam os bolsos, recompensando aquele que se deixava cativar. O desejo que as pernas lhe crescessem fortes e saudáveis era tão grande, que todas as manhãs se levantava ainda todos dormiam. Nem servos, nem senhor davam por isso e o rapaz corria como um potro selvagem pelos carreiros, os campos de centeio, à volta das árvores do pomar, subia aos torreões onde uma eterna bruma lhe fazia companhia.
Das armas defensivas preferia o arco. Ágil e o olhar certeiro, mas incapaz de atirar a uma gazela ou sequer um urso e o pai lançava-lhe um grito.
- Como poderás defender esta cidadela e a paz que nela reina, se alguém nos atacar?
O rapaz não sabia responder. Contudo, não se inquietava e na manhã em que completou dezasseis anos o pai deu-lhe um cavalo branco, porque aquilo que se promete deve ser cumprido, sob pena de descrédito e mágoa.
Foi tanto o brilho que lhe sobejou nos olhos, que as lamparinas se apagaram nos corredores e nos salões, nas cozinhas e nos quartos, claro como se fosse dia. Assaram dois bois, o vinho correu nos jarros e nos copos e de todos os cantos da fortaleza chegaram os convidados, dançaram e cantaram e pasmaram perante a beleza de um cavalo assim.
O rapaz cresceu ainda mais do que as suas pernas, enfeitiçou o cavalo branco e os dois eram a mesma voz que sussurrava desígnios na aurora dos dias. Ousaram até sair das muralhas protetoras, chegaram ao mar e aos portos de pesca e num campo onde pousavam já as folhas vermelhas de um fim de tarde, encontraram os bandos de cavalos negros como breu, que se diziam valentes e com fama de invencíveis.
Depois vieram tempos duros. Por mais que os homens trabalhassem, os celeiros permaneciam quase vazios, cada pão dividia-se por dois e cada dois, por quatro e alguns murmuravam:
- Se vierem os nossos inimigos, de que nos vale um cavaleiro e um cavalo, se o cavaleiro é tão manso que não ousa atirar a matar e o cavalo é apenas belo e branco?
O rapaz fechava-se a estas vozes vãs e todos os dias patrulhava a muralha para cá e para lá e os campos de centeio, os pomares e as hortas, certo de que um dia teria de enfrentar o medo.
Quando os viu muito ao longe, não se sobressaltou, não gritou, não acendeu fogueiras, não deixou cair um lamento. Segredou longamente ao ouvido do cavalo branco, que ouvindo batia com o casco dianteiro no chão em sinal de assentimento e partiu à desfilada, virando apenas uma vez a cabeça para trás, as crinas espantadas ao vento.
Eram milhares e armados, de espadas, arcos, setas, facas dentadas, lanças e venenos. O ruído que faziam assemelhava-se a uma tempestade seca, à fúria cruel dos deuses. Mas quanto mais se aproximavam, menos viam e no lugar onde pensavam existir a cidadela, vislumbravam apenas uma escuridão cerrada como breu, onde nem um simples malmequer se abriria.
- Fomos enganados. Aqui existem poços fundos e negros e do nada, nada se pode roubar. E retiraram-se, acabrunhados, sujos e feios. 
E só quando os pressentiram muito longe, desarmados e derrotados, os cavalos negros como breu relincharam e gritou de alegria o rapaz e empinou-se o cavalo branco, deixando a descoberto a cidadela que protegiam.
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sábado, 11 de novembro de 2017

Diário do verdadeiro estado de coisas, durante o pântano mal assumido da "Geringonça" - Sim, o Proença de Carvalho é um dos que está sempre metido em tudo, e, quando se espreme bem a coisa, vem também sempre o Balsemão atrás, Porca miséria :-)


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Apesar de tudo, o grande empenho das órgãos de intoxicação social tem sido mesmo reabilitar o Galamba, mas vai ser muito difícil: de entre os 199 escutados da "Operação Marquês", era mesmo  ele que enviava os sms ao Sócrates, para se prevenir, quando saía das tertúlias do bem bom com o João, filho do outro, o Vítor Constâncio, e ia escrever textos mano a mano, no blogue "Jugular", da Fernanda Câncio, e essa é que é essa :-)
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terça-feira, 7 de novembro de 2017

7 de novembro de 2017 (Calendário Gregoriano) - competam-se 100 anos sobre a data juliana da Insurreição Bolchevique de 25 de outubro de 1917. Longa paz aos milhões de vítimas desse genocídio

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domingo, 5 de novembro de 2017

conto antigo

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

Os mais velhos dos muito velhos recordavam-se ainda do grande fogo, não porque tivesse sido maior do que os outros que tinham sofrido, mas porque trouxera consigo um sinal de mudança.
A trovoada rebentara, súbita, forte, seca, desapiedada dos homens, vingativa para com as bestas. Sobre as cabeças há pouco ainda adormecidas, inquietas agora, o intervalo entre o trovão e o relâmpago era nulo e num presságio de desgraça, a eletricidade dos elementos colou-se-lhes à pele e da pele ao medo e do medo ao choro dos recém-nascidos e nos palheiros de pedra cobertos de colmo o fogo ateou, inflamou o que estava apenas entorpecido. A palha dos colchões e das almofadas, as arcas da roupa branca, a mesa da cozinha, o armário dos pratos. O azeite das candeias, as velas de todos os santos. A água dos poços fervia, os cães uivaram três noites, porque o fumo e a cinza não lhes permitiu que se apercebessem do dia e na face esquerda de todos os meninos apareceu uma marca desenhada a quente, a cicatriz da desolação e perguntaram-se, porque é que nos aconteceu isto?
Muitos de entre eles morreram para salvarem quase nada, um livro, um berço, um tambor, um coelho branco, uma ave, um poema de amor.
Na manhã do quinto dia, o desenho das lágrimas vincado nas maçãs do rosto, uma mulher que embalava um sonho, cantou, os homens disseram, endoidou, e a cicatriz na face das crianças começou a desvanecer-se, a purificar-se.
E foram elas que iniciaram a reconstrução. Procuraram as pedras mais leves, inseriram-nas no intervalo dos blocos maiores, taparam os buracos, ergueram paredes e construíram uma pequena torre no cimo da qual hastearam troncos de árvore queimados porque panos não havia.
Foi o princípio da cidadela, da fortaleza que os protegeria das agressões exteriores, porque das que surgem de dentro nunca as saberiam explicar.
A partir dos vértices de um triângulo equilátero, dois virados para o mar o terceiro apontando a terra, construíram pesados muros de pedra ligados por baluartes em forma de estrela. Preservaram as cisternas com tetos abobadados para que a água fosse pura, ergueram celeiros e armazéns e reconstruiram o castelo. Os campos voltaram a ser cultivados, a cinza fertilizou os pessegueiros e as amendoeiras e nas figueiras eram doces os figos lampos.
À volta da cidadela e em todo o seu limite escavaram um fosso, na inutilidade perfeita de um ato que impedindo a entrada de quem agride, reduz a possibilidade de se poder sair.
Pagaram pesados tributos aos senhores de outros reinos, mas não se deixaram abater na inocente intuição de que não existem castigos divinos, mas uma conjugação de elementos com os quais se escreve o destino. Fundiram o ouro e as joias, desnecessários perante o brilho nos olhos das raparigas, nos fios de luar pousados na cabeça dos velhos, nos anelados cabelos das crianças brincos de princesa quando adormecem ao colo do pai.
Foram prósperos os tempos que se seguiram, duas gerações nasceram e outras duas morreram e o dia do grande fogo era sempre celebrado. Hasteavam as bandeiras nas janelas do paço relembrando os meninos da pequena torre, abriam os pesados portões e davam brilho às fechaduras. Vinham malabaristas, saltimbancos e outros artistas, serpentes, águias e cavalos amestrados que depois fugiam num anseio de liberdade e vento.
E os mais velhos dos mais velhos não dormiam e vigilantes ao som das tempestades, continuavam a ouvir a voz da mulher que cantava a noite ardida, parada no tempo à espera do jovem que ela amava antes de o fogo consumir a sua vida.
Muitos outros homens e mulheres se revezaram na construção desta história singular e coletiva, porque uma cidadela é apenas tão somente um coração que pulsa, lançando ou apanhando pedras, vermelho como os vermelhos panos que enfeitam as janelas de um paço, dois passos. 
Esta é a crónica do livro das crónicas que me foi dado ler e recontar. 
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Lua antiga

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