domingo, 12 de novembro de 2017

o rapaz, o cavalo branco e os negros como breu também

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

Quando nasceu, o céu coloriu-se de azul-marinho e por uns momentos dir-se-ia que a linha do horizonte se desvanecera e os habitantes da terra seriam peixes e que acabara de chegar alguém marcado com um sinal.
É um bom presságio, disseram os homens que cultivavam os campos levantando a cabeça e logo continuaram a cavar e a semear. Não se interrompeu o curso dos ribeiros nem tão pouco se alterou o sentido do vento.
O pai prometeu-lhe um cavalo branco e enquanto a mãe dormia, as mulheres da casa riram-se e troçaram, imaginando-o tão pequeno montado num potente corcel.
Cresceu manso e pacífico sem ter de enfrentar perigo algum, mas inquietava-se o pai que sabia a fortaleza frágil, temia a cedência dos baluartes em forma de estrela e as colheitas pouco abundantes.
Aos oito anos o cavalo era de sela, baixo como ele, que assim aprendeu a trotar e a galopar.
Aos dez, o cavalo era alazão e montava-o sem sela nem freio, sussurrando-lhe palavras doces, como doces os rebuçados de melaço que lhe enchiam os bolsos, recompensando aquele que se deixava cativar. O desejo que as pernas lhe crescessem fortes e saudáveis era tão grande, que todas as manhãs se levantava ainda todos dormiam. Nem servos, nem senhor davam por isso e o rapaz corria como um potro selvagem pelos carreiros, os campos de centeio, à volta das árvores do pomar, subia aos torreões onde uma eterna bruma lhe fazia companhia.
Das armas defensivas preferia o arco. Ágil e o olhar certeiro, mas incapaz de atirar a uma gazela ou sequer um urso e o pai lançava-lhe um grito.
- Como poderás defender esta cidadela e a paz que nela reina, se alguém nos atacar?
O rapaz não sabia responder. Contudo, não se inquietava e na manhã em que completou dezasseis anos o pai deu-lhe um cavalo branco, porque aquilo que se promete deve ser cumprido, sob pena de descrédito e mágoa.
Foi tanto o brilho que lhe sobejou nos olhos, que as lamparinas se apagaram nos corredores e nos salões, nas cozinhas e nos quartos, claro como se fosse dia. Assaram dois bois, o vinho correu nos jarros e nos copos e de todos os cantos da fortaleza chegaram os convidados, dançaram e cantaram e pasmaram perante a beleza de um cavalo assim.
O rapaz cresceu ainda mais do que as suas pernas, enfeitiçou o cavalo branco e os dois eram a mesma voz que sussurrava desígnios na aurora dos dias. Ousaram até sair das muralhas protetoras, chegaram ao mar e aos portos de pesca e num campo onde pousavam já as folhas vermelhas de um fim de tarde, encontraram os bandos de cavalos negros como breu, que se diziam valentes e com fama de invencíveis.
Depois vieram tempos duros. Por mais que os homens trabalhassem, os celeiros permaneciam quase vazios, cada pão dividia-se por dois e cada dois, por quatro e alguns murmuravam:
- Se vierem os nossos inimigos, de que nos vale um cavaleiro e um cavalo, se o cavaleiro é tão manso que não ousa atirar a matar e o cavalo é apenas belo e branco?
O rapaz fechava-se a estas vozes vãs e todos os dias patrulhava a muralha para cá e para lá e os campos de centeio, os pomares e as hortas, certo de que um dia teria de enfrentar o medo.
Quando os viu muito ao longe, não se sobressaltou, não gritou, não acendeu fogueiras, não deixou cair um lamento. Segredou longamente ao ouvido do cavalo branco, que ouvindo batia com o casco dianteiro no chão em sinal de assentimento e partiu à desfilada, virando apenas uma vez a cabeça para trás, as crinas espantadas ao vento.
Eram milhares e armados, de espadas, arcos, setas, facas dentadas, lanças e venenos. O ruído que faziam assemelhava-se a uma tempestade seca, à fúria cruel dos deuses. Mas quanto mais se aproximavam, menos viam e no lugar onde pensavam existir a cidadela, vislumbravam apenas uma escuridão cerrada como breu, onde nem um simples malmequer se abriria.
- Fomos enganados. Aqui existem poços fundos e negros e do nada, nada se pode roubar. E retiraram-se, acabrunhados, sujos e feios. 
E só quando os pressentiram muito longe, desarmados e derrotados, os cavalos negros como breu relincharam e gritou de alegria o rapaz e empinou-se o cavalo branco, deixando a descoberto a cidadela que protegiam.
 
 

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