Joe Berardo é uma típica neoplasia portuguesa. Esta criatura é uma espécie de rapsódia do Regime: condecorada pelo Eanes, foi recondecorada pelo Sampaio, e fortemente elogiada pelo Marcelo. Para ser completamente má, só lhe faltaram o Soares e o Cavaco. Tem uma espécie de sótão de artefactos culturais, aos quais se usa chamar "Coleção Berardo". Pior do que aquilo, só os "mirós" do BPN. É uma verdade que dá algum trabalho, mas já uma vez por lá passei, com o olhar severo e crítico, para selecionar o que estava bem na parede, o que roçava os limites do suportável, e o que devia ser imediatamente retirado. Também havia coisas para queimar, mas dada a generosidade da estação, chegou-me então virá-las de costas para o visitante. Não há ali uma única peça que conheçamos do clube imensamente seleto e restrito das estantes das nossas histórias de arte. Creio que o grande colecionador é sempre sibarita, apenas escolhe o inimitável, e não o tropeço, só pela presença e má digestão da presença de uma assinatura. Em Arte, a assinatura é uma invenção tardia. Antes da assinatura, já a Humanidade fervilhava de obras-primas. Depois da assinatura, nem por isso. Faz falta ao Berardo a profundidade da reflexão estética, da mediana, pelo menos, ou de, pelo menos, perceber que o bom gosto é uma roupagem que não é concedida a todos, e, sobretudo, não foi talhada para ele. Berardo não passa de uma espécie de "Gulbenkian" da Santa da Ladeira, ou de uma dona branca do culto duvidoso. O ruído sempre foi inimigo dos museus, e o Berardo não passa de um museu cheio de ruído, e do pior ruído, o ruído visual. Tudo o resto não é mais do que a transposição para o nosso paupérrimo quotidiano social e político dos seus muito tristes traços de caráter. Por que outra das formas da impunidade, para além da impunidade do mau gosto do recoletor, é a impunidade do riso alarve na cara dos eleitos da Democracia, uma grave dislexia da cidadania, que já custou muitos milhões ao contribuinte e continua a dever milhões à decência. Se houvesse decência em Portugal, o Berardo teria sido imediatamente preso, à saída da audiência parlamentar. Um dia, acabará “recomendorado” pelo Galamba.
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