quarta-feira, 13 de maio de 2015

A Parábola dos Rastejantes de Fátima, como Quinta Essência do incontornável Egoísmo Lusitano


Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas



Fátima insere-se no meu profundo desprezo, e não frequência, dos Três Éfes. Devo ser dos raros portugueses que não foram, nem nunca irão, à Cova da Iria, nunca porão os cotos num estádio de futebol, ou irão ouvir Fado, exceto a Amália, que cantava até que a garganta lhe doesse... Bom, vá lá..., até vou ser generoso, e tiro a Amália deste meu desprezo absoluto pelos pilares da insignificância nacional, por que acho que a mulher tinha, e tem, algo na voz de imortal, só é pena já estar morta.

Contudo, não frequentar os espaços da menoridade nacional não implica que não tenha opinião sobre eles, desde o gentílico ao metafísico: ter uma mãe chamada Maria do Amparo, Maria das Dores, Maria do Rosário, Maria de Fátima ou Maria de Jesus, entre outros, é toda uma epopeia negativa, e condicionante de um percurso existencial. Eu, que sou todo das genéticas, e acho que um defeito num terminal cromossomático de há 5 000 000 de anos atrás pode ter condicionado, e condicionou mesmo, um gestor das empresas falidas do terminal lusitano, mais acho que, um pouco à Lamarck, isso de ter certos nomes pela família determinantemente condiciona os nossos horizontes de sucesso. Com mor evidência, nem todos se podem chamar de Valois, mas Perneta, Vaicomdeus, ou Vaisemdeus é uma coisa que marca, e empurra a vida para um limbo entre o errante e o errado, e aqui fica o convite à reflexão.

Como a noite é santa, todavia, vamos passar adiante, e pensar um pouco sobre aquele fenómeno a que é associada uma carga posicionada entre o místico, o fervor e a comunhão. Na realidade, essas coisas estão todas mal descritas, pecam por vícios de forma, e só não encaixam nos mitos urbanos por que apenas se inserem no patamar dos mitos das aldeias de onde nunca logramos (novo acordo ortográfico) passar. Analisado enquanto fenómeno étnico, fratura sociológica ou epifenómeno da iliteracia, o Rastejante de Fátima, entrada que Diderot e D'Alembert dificilmente poderiam colocar na Encyclopédie, mas sobre o qual o destino, e a inspiração, me fadaram escrever o texto de hoje é uma categoria com algumas singularidades, por acaso, todas elas negativas.

A máquina publicitária das televisões, jornais e afins, que situam o evento anual em patamares entre os fototropismos e o puro escândalo está, como quase tudo nesta contemporaneidade, a que passei um atestado sumário de imbecilidade, nos antípodas da minha reflexão: enquanto pagão, não posso entender o ateísmo que subjaz ao rastejamento de Fátima; enquanto livre pensador, não posso compreender a publicidade dada a manifestações que deveriam ser tratadas como subprodutos de um povo profunda, e atavicamente, iletrado. Cientificamente falando, a cobertura de Fátima são meros gastos de luz, de tempo de trabalho e, numa ótica marxista, ou neoliberal, o que vem a dar no mesmo, puros tempos de quebra de produtividade, em cujas "gorduras" se deveria imediatamente cortar.

A esta altura já estarão a perguntar o que é que este gajo quer destruir hoje, com o pretexto de vir falar de Fátima, e eu explico já, posto que a morte de uns quantos peregrinos, o que lamento, na generalidade, por ter tido como protagonista um gajo bastante mais interessante do que o impotente Cristiano Ronaldo, o que, na especialidade, lamento, me levou a pôr em questão todo o problema, e a remetê-lo para os níveis de reflexão de Anselmo de Cantuária, um aristocrata que, há milénios, conseguiu pôr gerações a sonhar e a meditar. Aquilo que eu chamaria o Argumento Anti Ontológico enuncia-se assim: se aqueles que vão a Fátima procuram uma consubstanciação com a Senhora, ao lá chegarem, lá estão mesmo, assim como a Senhora, ao tê-los (novo acordo ortográfico) ali chegados, pela própria natureza da consubstanciação, com eles passa a partilhar a essência, miraculosamente tornada em presença, o que é uma prova evidente da sua existência (dela, a Senhora).

Esta é a versão boazinha, posto que, tal como no Concílio de Calcedónia (451), se nem todos os peregrinos que iam a caminho de Fátima lá chegaram, a consubstanciação ficou, ainda que em partes limitadas e remotas, comprometida, sendo que a Aparição e a Procissão do Adeus, será, desta vez, processada em redor de um ídolo ferido de incompletude, pela morte das partes humanas que com ela buscavam a comunhão espiritual e a partilha das evidências em presença, e ficaram atropelados pelo caminho. Ontologicamente, a Santa apenas poderia ser considerada completa se todos os que buscavam o acolhimento no seu seio lograssem ter alcançado a sede mundana da sua veneração terrestre. Esperemos que a parte que lhe falte não seja a virgindade, o que destruiria 2000 anos de empenhados esforços, e é esta a versão que nos deixa em dor e dúvida, penando para que sobre nós o anátema se não abata.

Depois da versão boazinha e de a do Limbo, vem a Má, já mais Portuguesa, e que motiva este meu texto: se a Santa realmente existisse, nunca permitiria que pelo caminho morressem aqueles que iam em sua demanda, qual doméstica Taprobana, e isto seria uma prova da inexistência da Senhora. Contudo, como a versão má, de profundis, ainda clama pela solução péssima, fui eu que fiquei a pensar no que estariam a pensar os rastejantes de Fátima sobre a inoperância da Santa, num ato simples como ter permitido que aqueles que iam em sua busca, de peito feito e coração aberto, acabassem esmagados numa berma da estrada. Não sei o que pensaram, mas prosseguiram, pelo que, depois da versão péssima, achei que nos estavamos (novo acordo ortográfico) a abalançar a um patamar ainda inferior, o da típica versão portuguesa, que eu passo a enunciar: sendo o fenómeno de Fátima um típico exibicionismo de matilha, que, à cabeça, segrega os que vão dos que não vão, ou mais pragmaticamente falando, os que podem ir dos que não podem ir, ou, citando a última palavra do último verso do Canto X de "Os Lusíadas", ali estamos no puro exercício da "enveja" (ortografia do séc. XVI, posteriormente convertida em "inveja", por uso e construção).

Torna-se hermeneuticamente complexo -- agora que, com a descoberta de que o cabrão do Heidegger era mesmo nazi e antisemita, a hermenêutica deixou de ser monopolar -- de que o rastejar de Fátima -- e vamos passar da versão portuguesa para o meu epitáfio da situação, substancialmente ainda pior -- de que o rastejar de Fátima é mais uma manifestação de egoísmo nacional, ou daquela célebre frase do José Gil, de que o português gosta, não de liberdade, mas, sim, de igualdade, ou trocado por miúdos, o Português realmente gosta de eventos em que possa exibir a sua situação de desigualdade, perante os pares. Isto, pela minha ótica (novo acordo ortográfico) resulta numa leitura fria e literal: de entre a imensa multidão de Rastejantes de Fátima, já que só morreram cinco, que até, se calhar, eram peregrinos e não rastejantes, desde que os restantes rastejantes não tenham morrido, a coisa até se safa, muito à rasquinha, mas safa, já que quem morreu foram eles, não nós (sendo que aqui o "nós" é um plural desses rastejantes, que, obviamente, não me inclui).

Topologicamente (acordo ortográfico dos anos quarenta) estendido, o raciocínio vai mais longe, já que separa os que lá conseguiram mesmo chegar dos que nunca chegarão, e, uma vez chegados, ainda exercerá diferenças entre os que se conseguem aguentar mais dias daqueles que se não conseguem aguentar todos, e serão muitos, o que alimentará a "enveja", e fará com que os iguais se sintam mais iguais e silenciosamente sintam pelos outros -- paciência -- a pena de que não tenham conseguido ser iguais..., à justinha.

Conclui-se que os que lá estão, em momento nenhum das suas preces conseguem sair do seu atávico solipsismo e onanismo, mas apenas estão ali para pedir por si, e os outros... que se lixem.

Este ano, parece que o grande mote é a Senhora da Apodrecida. Mas não se enganem, quando, no final, virem um  mar de gente a acenar lencinhos, não se trata de uma massa unida, mas de uma multidão de egoístas que lá foi fruir o seu milagrezinho pessoal, e, como diriam as estatísticas, lá conseguiu, ou... não conseguiu. A Claque do País da "Enveja", em bloco.

Dada a minha formação científica, ainda me permito uma derradeira versão, porventura mais motivadora e adrenalizante: o encontro entre os pacatos peregrinos de Mortágua e Levani Moseshvili, o alucinado, cheio de álcool e de drogas, que os atropelou, é algo equivalente à colisão que, milhões de anos atrás, deve ter ocorrido entre os pequenos répteis, sobreviventes do extermínio dos sáurios, e a nova classe dos mamíferos, sendo que os segundos, muito alafontaineanamente, devem ter pensado,"o que fazem estes gajos aqui?...", e o primeiros, "que gajos serão agora estes"?...

Objetivando (novo acordo ortográfico) a coisa, o acidente de Mortágua deve ser relido como uma colisão entre dois paradigmas, que, cronologicamente, deveriam estar feridos de disjunção, já que eram o equivalente a uma impossível máquina do tempo: uma era de peregrinos é incompatível com um mundo de aceleras dopados com químicos, e vice versa, embora nós saibamos que, numa perspetiva (novo acordo ortográfico)  cobordista, muito à René Thom, essas coisas acabam sempre por se entropizar, e, tal qual os maiores lagartos acabaram a comer os pequenos mamíferos, e os grandes mamários a comer os pequenos répteis, também um dia haverá rastejantes aceleras, que quererão chegar primeiro a Fátima, nem que para isso tenham de atropelar uns quantos georgianos embriagados que estejam a dançar a dança do ventre na berma da estrada.

Eu sei que este texto é mau, mas, acreditem, sobretudo os crentes, que é uma singela homenagem ao ignóbil evento do 13 de maio, uma coisa indigna de uma sociedade civilizada, e incompatível com um mundo religioso, já que a religiosidade do Mundo foi definitivamente enterrada por um dos maiores facínoras do século XX, Karol Woytila, que, numa cega competição com IURDs, Igrejas de Cientiologia e outras merdas afins, resolveu transformar o Grande Dogma Cristão numa manifestação de massas embrutecidas e alucinadas, em redor de cadáveres de pastores iletrados. A coisa era barata, dava milhões, não pagava impostos, e destruiu, ou conseguiu destruir, em duas curtas décadas, a fronteira intelectual (aqui leva "c", por que o "c" se pronuncia - novo acordo ortográfico) do Dogma, remetendo-a para o chiqueiro das opiniões e dos fundamentalismos, que tão caros estamos agora a pagar. Creio ter sido este o grande milagre de João Paulo II, atirar-nos para os valores e práticas da pior Idade Média.

Para acabar com um pouco de esperança, percebo que se rasteje até Fátima, para venerar uma Santa com Cara de Saloia, que incarna aquelas moçoilas de 13 anos, na altura certa em que o padrasto as estreia, antes de se tornarem nos hipopótamos de hipermercado, que à frente arrastam a tralha dentro de um carrinho de bebé, com o seu ídolo narcísico, teresaguilhermado, ao lado. Brevemente, creio, com a crise que aí anda, eu próprio, que afirmei, no início, nunca ir a Fátima, lá terei de fazer o esforço, por extinção dos genuínos, e já me vejo, nos beirais de terras que nem sei que existem, com a Aura Miguel, um pouco mais à frente -- dizem que ela vai a Fátima, por que, todas as noites, há a alma de um papa defunto que incarna em súcubo e lhe possui as partes ressequidas, pelo que, quanto mais noites demorar pelo caminho, mais vezes o palmier será recheado com beato creme... Pela minha parte, irei com uma caçadeira, e, com o jeito que tenho para o tiro, em vez de decapitar a Santa com Cara de Saloia com um só tiro certeiro, acabarei por a desfazer, com uma série de rajadas míopes e mal amanhadas.

P.S. -Deverão estar a interrogar-se por que, de quando em vez, referi, em nota, o Novo Acordo Ortográfico: por uma razão simples, a de que a Língua é construída pelos escritores, pelo que, utilizando eu o Acordo, desde 2009, bem se podem espremer por o tentarem impugnar os que nisso andam. A minha decisão é a de que, mesmo revogado, o continuarei a utilizar sempre, pelo que, de aqui a 100 anos, o Acordo Ortográfico se impôs mesmo, pela única mão com autoridade para o fazer, a do Escritor. Que a Santa esteja convosco e vos dê o vosso pedido egoísta, que vos arrastou até à Cova da Iria :-)




(Quarteto do a Trêuze de Maio na Cova d'Iria, no "Arrebenta-SOL", no "Democracia em Portugal", no "Klandestino" e em "The Braganza Mothers")

3 Responses so far.

  1. A única coisa boa em Fátima são os chichis, mas deviam deixar os hipopótamos em casa, com as crias :-)

  2. 13 de maio deve ser o dia mais repugnante do calendário português. Se fosse viva, a minha avó, um caráter execrável, faria 114 anos. Felizmente já deve estar na zona quente do Inferno

  3. Uma das maiores pragas portuguesas

 
 

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