domingo, 1 de novembro de 2015

a solidão das folhas de papel cavalinho

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

Magnolia Charmer de Maggie Taylor


Atravessava as estradas de olhos fechados no confronto direto com o perigo, no desejo íntimo e doloroso da colisão fatal, o esmagamento de todas as partículas para me sentir senhor da vida ou da morte e afastar-me desta ladroagem que é o tempo. Ter vinte anos é desafiar os monstros, tenham eles a forma que tiverem. A verdade é que nada me tocou e escapei à minha própria loucura.
Foi por esta altura que conheci o rapaz lua. Eu de um lado da estrada, os olhos a fecharem-se-me de ausência e escuridão e naquele pestanejar indeciso vi-o, do lado oposto. Fez-me um aceno e uma careta divertida. Mantive o olho direito aberto e ele, novo sinal com as mãos a dizer-me, fica, não atravesses, eu vou ter contigo. Ziguezagueou por ali fora e eu a olhar e ele a rir. Não foi assim de repente, eu sou o rapaz lua e tu? Não. Ficámos os dois sentados à beira da estrada e contámos os carros pretos que passavam e depois os metálicos e ao vigésimo quinto carro verde ele disse, sei porque é que fechas os olhos para atravessar os caminhos. E as mãos dele eram tão iguais às minhas. Foi aí que nos levantámos e fomos embora.
Eu estava certo de que a maioria das pessoas me acabaria um dia por desiludir, por isso largava-as, soltava-as sem grande consciência nem pudor. Mas aquele homem semelhante a mim não me fez perguntas e aparecia quando era desejado e saía antes da garrafa de vinho se esgotar, dois ou três fios de esparguete no prato e era como se eu me visse ao espelho nos melhores dos dias, a barba impecável, as costas direitas, o nó da gravata no lugar. Às vezes também me seguia sem eu me aperceber e deixava pistas inconfundíveis, copos de água fresca nas esquinas dos móveis, pedras e conchas da praia em cima das mesas.
Depois sem razão aparente, motivo, ordem ou justificação, recordei-me. 
Deolinda era a do meio. Acreditava na sazonalidade das marés e na sua íntima relação com as fases da lua. Amava a terra e as ervilhas de cheiro e bordara a minha toalha de batizado a ponto cruz. E quando me levaram ao colo e eu extasiado com as cúpulas e os zimbórios da minha aldeia, vestido de saias, porque o pecado original decreta os metros de pano que conduzem à inclusão, Deolinda falava-me ao ouvido e eu sem saber que ouvia, ouvi, o rapaz lua que era eu, a ziguezaguear risos nas travessias.

segunda voz: Deolinda

4 Responses so far.

  1. Desafiar os monstros sempre :-)

  2. .

    .

    . ben.dito outono que nos trouxe este regresso aos contos felizes . :) .

    .

    .

  3. says:

    Toma lá ou cãoreta para ti...

  4. Felizes tempos felizes, para afastar o tempo fosco :-*

 
 

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