domingo, 26 de março de 2017

I - a andorinha

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

Foi a primeira a chegar, não que tivesse pressa, talvez porque ouvisse melhor. O gelo estalou no cabeço dos montes, os lobos gemeram fomes de galinheiros, as sementes de papoila desenrolaram-se dois centímetros a imitar os dias a crescer. O inverno é apenas um pulo que damos de mãos frias, batemos as asas e já está.
Voa silenciosa, calma, deixa-se ir com as correntes de ar. Planar é isto, um desprendimento impensado e voluptuoso.
Rasou as praças, as avenidas, as casas de janelas abertas, os telhados, os beirais não são para ela, são das outras mais pequenas, barulhentas, as que rasgam em bando o azul da cidade.
Volteou duas vezes e pousou no segundo pilar da ponte. Quase chocou com uma gaivota gorda.
- Ai - disse a gaivota gorda
- Não te vi – disse a andorinha E ficaram as duas lado a lado a olhar o estuário do rio.
- Pareces magra, estás com fome? Mergulho ali e volto com uma tainha – disse a gaivota.
- Não como peixe – respondeu a andorinha.
A gaivota gorda virou ligeiramente a cabeça e observou-a desconfiada, não lhe parecia correto uma ave não gostar de peixe. E continuaram a olhar o rio. Um vento ligeiro agitava a água, um pouco mais longe o farol começou a piscar.
- É bonita a tua cidade – disse a andorinha – mas agora vou-me embora, procuro um palácio em ruínas onde à noite se ouve cantar. É aí que quero construir a minha casa.
- És estranha – disse a gaivota. E pareceu ligeiramente mais magra.
A gaivota não conhecia nenhum palácio em ruínas e muito menos uma ruína cantante. Mas era viajada e sabia do canto das marés e do ruído das caldeiras dos navios e do marulhar das ondas. E assim guiou a andorinha para além da ponte e do rio, alguns quilómetros terra adentro. No seu entendimento de ave marinha supôs que uma ruína apalaçada estaria mais para o interior e decerto possuiria uma torre. Não saberia explicar porquê, nem era necessário, a andorinha reconheceria o que buscava.
- Se te perderes, chama pela coruja das torres – disse a gaivota. E deu meia volta de regresso ao rio, à cidade, às casas.
A andorinha articulou um pequeno guincho de agradecimento e engoliu dois insetos que voavam por ali. Pareceu ligeiramente mais gorda. Balsâmica era a lua e a noite um cheiro adocicado a primavera.
 
 

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