domingo, 2 de abril de 2017

II - o imperador

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

Quando se olhava, via-se outro. Podia ser nas águas paradas do lago dos peixes vermelhos, no olhar das pessoas que o rodeavam, na chapa exterior da fechadura da porta ou tão somente no espelho que o pai lhe tinha deixado como legado.
- Deixo-te esta serra onde cresce o carvalho negral, as aveleiras e os medronheiros, este palácio arruinado e este espelho. Um dia verás como ele é especial – disse-lhe o pai.
E ele olhava-se e via-se pequenino, o manto a roçar o chão, as mangas a sobrarem pano, os sapatos de veludo azul escondidos nos pés quase invisíveis. Sabia-se um homem e o espelho refletia uma criança assustada. Com o passar do tempo habituou-se e desviava o olhar das superfícies lisas e espelhadas.
Na serra coberta de verde existiam muitos e variados reinos e não raras eram as vezes em que se pegavam a discutir e a guerrear. O reino dos seres pacíficos era invejado pelo reino dos seres insuportáveis de rancor. O reino das plantas era aniquilado pelo reino dos destruidores compulsivos. O reino dos homens corajosos vivia em sobressalto temendo a ira dos homens mal falantes. Justificado de uma outra forma, o direito e o avesso de cada reino, tal e qual o imperador e a sua imagem no espelho.
O palácio era composto por sete alas, um pavilhão, uma torre sineira e um jardim onde cresciam desordenadamente ervas aromáticas e abóboras-menina. Na primeira ala viviam as crianças órfãs, na segunda ala, os poetas. Na terceira, os que não possuíam casa. Na quarta os que sabiam um ofício e o ensinavam a quem desejava aprender. Na quinta ala, os pássaros exóticos, na sexta, uma companhia de teatro e por fim a sétima e última ala estava reservada aos passantes e a quem, sem destino, lhe apetecesse ficar. Ele, despojado que era de ambições mas repleto de sonhos, habitava os sótãos, onde pelas telhas quebradas umas vezes entrava a chuva, outras não. Era aí que guardava o espelho do pai e pelas janelas de mansarda olhava o longe e a distância da serra ao mar e à noite cantava com saudade dos dias que ainda não tinha vivido.
E ela ouviu-o. Volteou sobre o loureiro, a torre sineira e por fim pousou no parapeito da janela. Ele não se mexeu.
-Parece-me que cheguei – disse a andorinha.
Ele ficou calado, não lhe parecia nada.
-És tu que cantas? A tua fama é maior do que tu - disse a andorinha e sem esperar pela resposta continuou – gosto destas ruínas, daquela torre, posso fazer aqui a minha casa?
E olhou-o e viu-o pequenino e de boca aberta de espanto.
A andorinha ficou e construiu o seu ninho diferente do das outras andorinhas, um túnel perfeito e depois a casa, da lama dos ribeiros onde crescem os freixos e os sanguinhos.
Todos os dias visitava o sótão das telhas quebradas e conversavam os dois, a andorinha dáurica e o imperador. Ele contou-lhe do rapaz assustado que via no espelho, ela disse-lhe que é preciso coragem para atravessar os oceanos. 
Uma noite, o espelho refletiu a lua. Abandonado o manto e uns sapatos de veludo azul.



O Imperador e a andorinha
conto em dois actos da primavera


 
 

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