domingo, 21 de maio de 2017

azul

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

Conheci-o entre as páginas cento e doze e cento e treze de um livro de viagens. Gosto de viajar, disse ele. E pousando a bicicleta sentou-se entre o terceiro e o quarto parágrafo. Tinha apenas um centímetro de altura e o sorriso mais aberto que eu alguma vez vira. Lembro-me de gaguejar qualquer coisa como, estás aqui, quem és tu, não estava à espera. Ele olhou-me pelo canto do olho e continuou a falar do quanto gostava de se levantar cedo, pegar na bicicleta e ir por aí a pedalar até ao mar, atravessar os pinhais, os campos, parar à sombra das árvores, descobrir as cidades. De vez em quando metia-se num livro e consultava os mapas, via as fotografias e sonhava sempre ir mais além. Fora num desses momentos que me encontrara e dizendo isto, levantou-se de um salto, sacudiu as letras dos calções, pegou na bicicleta e desapareceu pela janela aberta, um rapaz pequenino numa bicicleta azul.
Nesse instante desejei ter inspiração para escrever um conto grande sobre um rapaz pequenino, uma viagem e uma bicicleta azul. Caracterizá-lo, uma voz de pássaro, a ligeireza de um esquilo, o cabelo liso e comprido a voar quando acelerava, os calções sujos de óleo, a camisola às riscas, os ténis pretos e a magia de estar hoje aqui e amanhã ali, sem dar contas a ninguém. Sei qual é a sua casa, onde ele regressa com saudades do pai, do cão e das vinhas em setembro e os cachos maduros a cheirar a mosto. No entanto este é um conto pequenino sobre um rapaz grande.
Da segunda vez que o vi tinha crescido seis centímetros e pedalava na asa de um avião em direção a leste, disse-lhe adeus, ele riu-se e a rota do avião desviou-se um pouco. Inexplicavelmente a bicicleta cresce com ele, não o larga, é-lhe fiel. E o rapaz guarda no seu livro secreto e invisível todas as impressões das suas viagens, a luz, o movimento, o som, o cheiro.
Há noites em que eu me fixo neste visor branco e vazio e estou certa que não tenho mais a acrescentar, que já imaginei tudo o que era passível de ser imaginado. Peixe, ave, leão, tigre, pescador, bailarina, menina escanzelada, menino triste, princesa, pelicano, cavalo-marinho, homem louco, bruxa, gafanhoto, rã, lago, árvore, flor, rio, montanha, aldeia, cidade, rei, deus e o diabo. 
E é aí que ele regressa, o rapaz da bicicleta azul. Senta-se na estante ao lado do candeeiro, as pernas penduradas, os pés a balançar, o cabelo liso a refletir sombras de anjos. Tira do bolso dois mapas, um dos planetas e o outro dos oceanos e numa voz tranquila e noturna pergunta, queres saber o que eu tenho para te contar?
 
 

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