domingo, 14 de maio de 2017

conto antigo da filha do rei

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

Sobre a calçada pisavam os pés descalços da filha de um rei. Não vos corteis princesa nas agulhas dos pinheiros, não vos piqueis senhora nas formigas dos carreiros.
Se me cortar que importa, se me picar que faz, eu sou a filha de um rei. Falaram-lhe de uma outra, delicada como um junco, que acordada ficava toda a noite a juntar ervilhas debaixo do colchão. De manhã escalfava ovos e molhava pedacinhos de pão torrado na gema quase líquida e todos confirmavam, esta sim é uma princesa real.
E ria-se a filha do rei.
Ofereceram-lhe sapatos forrados a ouro e prata, bordados a linhas de seda, de salto, sem salto, com laços, sem laços e até de papel. Ela dobrava o riso e prendia nas orelhas uma flor azul.
De cada canto do reino enviaram-lhe brincos de pérolas e de diamantes e escreviam, princesa, aceite este destino que deus não lhe deu.
Por decreto ordenaram que as princesas de todos os reinos tinham este dever de se calçarem, de sorrirem em silêncio, de se abrilhantarem e de juntarem ervilhas verdes debaixo do colchão. Ela não.
E riu-se a filha do rei.


 
 

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