domingo, 18 de junho de 2017

acidular

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

O café deve ser forte, arábica para aguentar. O açúcar, mascavado e o limão acabado de apanhar. Debaixo de um jacto de água da torneira, lava-se bem para tirar a caca dos pássaros e as teias de aranha, pega-se numa faca afiada e na tábua da cozinha e cortam-se rodelas finas e milimetricamente semelhantes. O gelo laminado. Não interessa como. Pode sair de um frigorífico moderno que nos entrega a água já gelada, capaz de catalogar as caixas de congelação, de as identificar sem misturar a base da sopa de cenoura com a carne à bolonhesa. Alguns também são ecológicos, poupam energia e possuem várias memórias de conversação consoante sejam invadidos pelas crianças em busca de sumos ou pelo avô que guarda a garrafa do whisky de malte escondida na gaveta dos legumes. Os mais educados são caríssimos, mas agradecem sempre que fechamos a porta com o pé e esta bate sem que o consigamos controlar. Na falta deste modelo, serve um martelo e um saco de plástico resistente. Neste caso o gelo não sairá laminado, mas lascado, que é aquela forma como às vezes nos sentimos ainda o verão mal começou.
O gesto de bater no gelo não é isento de perigos e os dedos mais frágeis são o anelar e o mindinho seu vizinho, com quem gostamos de partilhar o limoeiro.
O segredo está na proporção talentosa dos elementos, o café, a água gelada, o açúcar, o gelo, as rodelas de limão. Mistura-se com uma vareta num jarro de vidro azulado translúcido para brigar com o amarelo branco preto limão.
Bebe-se pausadamente ou só de um trago e o sabor será igual. 
Entre o factual e o imaginado a luz refrata-se no jarro de vidro azulado e o pássaro da tarde já cantou. Coloco então o limoeiro debaixo do braço e vou por aí acidular.
 
 

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