domingo, 29 de junho de 2014

conto de um entardecer antigo

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas


Nas árvores do pátio cantavam pássaros mas aquele não. A mulher juntava as linhas e as agulhas, desdobrava linhos e a ave por ali a saltitar e ela estendeu um pano branco e ele ficou, a cabeça de lado, o bico entreaberto e ela imaginou-o em ponto a cheio com linha de seda ou pé de flor.
Nessa madrugada cozinhou um pão de sementes de sésamo com umas gramas de outras, de papoila, para cativar o pássaro. Foram muitos os que sonharam com manteiga derretida tal o cheiro bom que o vento fez entrar pelas frestas das portas e das janelas. O pássaro não se cativou. Esvoaçou duas ou três vezes sobre o pano branco e as migalhas de pão e foi catar insetos nos ramos do castanheiro.
Ela não desistiu e enquanto enfiava as agulhas e cortava as linhas assobiava-lhe notas do fá ao si e terminava em sol. Respondia-lhe o silêncio do pássaro e este não se deixava cativar.
Então ela pegou no pano branco de linho fino e sem desenho nem papel foi bordando o pássaro. Separava e juntava as cores e as linhas de seda macia ganhavam movimento e quando terminou, parecia tão vivo aquele ser alinhado que alguns o cobiçaram e quiseram comprar. Ela recusou.
Ao entardecer, desdobrava o pano onde voava o pássaro de seda e estendia-o no pátio. O pássaro silencioso chegava, volteava, saltitava à sua volta.
Uma noite voaram os dois. 

3 Responses so far.

  1. ao entardecer,

    como se fosse uma linha de seda que se solta

  2. .

    .

    . ou . como se fora . :) . e desde que não fora renda . :) .

    .

    .

  3. Um lindíssimo conto, num dia aziago

 
 

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