domingo, 13 de março de 2016

Francisco

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

Entre os dois existia um poço, fundo, escuro, onde o eco brincava e brincando assustava. Ela dizia, bom dia e ele saltava, ágil, feliz, os olhos brilhantes antecipando guloseimas e atenção. Uma pausa, em que se olhavam reconhecendo o cheiro um do outro, as nuvens que pairavam na voz, o calor sufocante da manhã de setembro, o trotar de uma velha carroça, desarticulada, barulhenta, arrastando o odor forte de estrume e mosto.
Depois sentavam-se, um de cada lado do poço. Ela metia a mão no bolso, devagarinho, para que o instante não fosse apenas um segundo mas tivesse a consistência de uma casca, de uma semente, de uma pele castanha avermelhada, de uma eternidade reencontrada.
Ele entrava no jogo, porque era de um jogo que se tratava, de sedução, de encantamento. Ambos sabiam como terminava, mas que importância tem o fim se existe tanto pelo meio. Ela chamava-o, Chiquinho e num golpe certeiro atirava-lhe um amendoim e ele apanhava-o sem mudar de posição, a mão aberta, a linha invisível que une o objeto ao seu apanhador, caçador de frutos quentes, trepador de ramos e de muros.
Chiquinho tinha um dono viajante, ladrão de animais raros, exibia-os como um troféu mas abandonava-os por aí ao sabor de casas de férias e outras, enjoado da vida, ansiando a próxima partida, desligado de quem capturava sem piedade. O macaquinho era pequenino como a rapariga dos bolsos e tinha saudades de ser pequenino e gritar livre atrás da mãe, morder os irmãos numa algazarra doida, ser aquilo que nunca mais lhe permitiram que fosse. Tinha frio no inverno naquela terra rural longe do mar e a rapariga sentia saudades da praia e não queria saber de uvas e de vindimas, nem de carroças chiadeiras, nem do sufoco de um dia de verão. Por isso eram tão amigos e os olhos tristes de Chiquinho apenas se incendiavam com a sua presença e a sua voz fininha de criança com tantos bolsos e em cada um qualquer coisa de espantar. E ela inventava-lhe uma história de fugas, em que sonhava enviá-lo de volta aos lugares onde ele retomaria a sua vida interrompida de trepador de ramos, de chuvas intensas e de eterno e húmido calor. Nunca se tocaram. Entre os dois existia um poço e aquela amendoeira que brilhava ao luar.

2 Responses so far.

  1. Teus textos são admiráveis
    incomentáveis

  2. Também não vou comentar. A imagem é extraordinária

 
 

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