domingo, 7 de maio de 2017

domingo violeta

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

Morava numa casa de pedra coberta de hera e antiga era a casa e velhos os avós e os bisavós e ela tão pequena ainda. Ouviam-na mal. Ela dizia, bom dia e eles respondiam, parou de chover minha filha. Esqueciam-se de tudo, das horas, da sopa no fogão, das idas ao dentista, de fechar as janelas, de chamar o cão. Perdiam-lhe as meias e os casacos de lã e trocavam-lhe o nome. Maria, Ana, Carlota, Luísa, Margarida. Raramente acertavam e quando o faziam, já ela ia longe.
Liam-lhe os livros das estantes, ensinavam-lhe provérbios, advérbios e as palavras esdrúxulas acentuadas e as outras esquisitas, estranhas como ela. Falavam-lhe da raridade das flores de pessegueiro numa terra prenhe de pedras e escassa em húmus e em vida.
Ela amava os avós e estes gostavam tanto dela.
Às vezes perguntava:
-Onde estão as outras crianças?
E os avós dormiam.
No espelho do quarto escondia-se uma rapariga como ela, mas feia, antipática, agressiva. Invejava-lhe a voz e o brilho dos olhos e se ela dizia, olá, a outra baixava a cabeça, cerrava os punhos como se quisesse bater-lhe e respondia-lhe o silêncio das superfícies desertas. Um dia fartou-se, tapou o espelho com um papel branco e desenhou uma árvore despida. Num impulso, desceu as escadas a correr e gritou aos avós:
- Vou buscar as flores de pessegueiro e encontrar as crianças perdidas.
- Parou de chover minha filha. 
Lá fora a hera dos muros crescia reptante e os pássaros debicavam-lhe os frutos ávidos de alimento e cantoria.

2 Responses so far.

  1. "Parou de chover", e o espelho já não espelha crianças feias. Lá fora, creio que é o choupo a fingir neve :-)

  2. os choupos são uns fingidores :))

 
 

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