domingo, 3 de dezembro de 2017

três bagas de zimbro e um salto de coelho

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas
Gosta do silêncio da floresta, dos atapetados carreiros de folhas, um verde seco a acastanhar-se em nervuras, pecíolos e limbos, do musgo a crescer na casca das árvores. Os raios de sol obliquam-se ao entardecer e ele ganha coragem, solta-se do bloco de notas onde plasmava há alguns dias à espera de bigodes. Tardava.
Estica as patas traseiras e num salto sai pela janela aberta, ou pela porta, ou pelos buracos não identificados que todas as casas possuem sem o saberem e por onde deslizam os pensamentos noturnos, os suspiros e as interjeições.
Eu não dou por nada. A minha cabeça pousa no braço esquerdo e este na mesa e a mesa no chão e eu adormeço cansada a largar riscos de tinta e a desejar um conto que alguém me contasse que não eu, era uma vez um coelho muito pequeno e tão manso em busca de bagas vermelhas e de fios de seda.
Ele depressa decifra os códigos de linguagem dos outros seres de quatro patas, pelo macio e cauda curta, acostuma-se às tocas e aos trevos de quatro folhas, estica e encolhe as orelhas quatro vezes, a escutar o vento e os peixes do rio a gorgolejar.
Pela madrugada esfria sempre um pouco e a minha mão direita cobre-se de frieiras e um floco de neve. O coelho regressa pelo caminho secreto dos adventos, a boca e o nariz com um pingo de rosa e três bagas de zimbro ou azevinho ou pimenta do reino para aquecer. Atrás dele um outro coelho, ainda mais pequeno, dócil e é quase natal.

2 Responses so far.

  1. Não sei a quantos natais resiste um coelho pequeno
    nem esse que é mais velho
    ou até, se ambos se vão quedar
    antes do Natal chegar

    Desculpa a ignorância
    zimbro é enfeite ou tempero?

    Talvez o peso
    pese mais que a idade

  2. Esse primeiro musgo, como muitos dos trevos e da erva outonal, anunciam que a estação passou e uma nova fronteira se anuncia. Alguns, chamam-lhe inverno