quinta-feira, 19 de março de 2015

O Nada - 4


            1986 foi um ano complicado.
            Começou com um dos maiores porres de minha vida, no dia do meu aniversário, cuja festa costumava coincidir com o ano-novo. A quantidade de bebidas que havia em casa era imensa. Eu me tranquei no banheiro depois que meus tios tentaram quebrar ovos na minha cabeça e só saí depois de umas três horas. Quando todo mundo foi dormir, comecei minha festa particular e tomei todas as cervejas, vinhos e champanhes. Após soltar o arame farpado que separava nosso quintal do quintal vizinho e ficar completamente enrolado nele, tentei bater punheta no quintal, mas desmaiei. Acordei com minha mãe tentando me dar banho. Depois ela me jogou num lençol sobre o chão, porque não havia mais onde ninguém dormir, já que a casa estava lotada de tios, e fiquei gemendo até dormir de novo. Passei o dia seguinte vomitando.
            Não havia mais curso de mecânica à tarde. Ainda fui um dia à tarde, na esperança que houvesse e vi Eliane, que ao se deparar comigo, fez uma careta. Foi a última vez que a vi.
            Tive que me mudar para o curso noturno, onde havia uns 50 alunos, todos homens velhos. Não havia nenhum adolescente. O pessoal fumava pra caralho, o que me deixava bem angustiado. Fui muito mal nas aulas de desenho técnico e desenho mecânico. Eu não levava o menor jeito.
            Comecei a ter uma obsessão por literatura em janeiro, quando passamos férias em Peruíbe. Na casa havia alguns livros e como choveu muito, fiquei deitado numa rede, lendo. Eu pensava: “Eu também quero escrever um livro”.
            Escrevi enfim três letras trágicas para o Alvaro, que odiou, naturalmente, porque não eram letras de música, mas notícias de jornal, de tão grandes e mal-escritas. Peguei minha máquina de escrever e tentei escrever a história da minha vida, apesar de não ter acontecido nada até então. A grande revolução no meu jeito de escrever veio após ler uma matéria no Estadão sobre uma poetisa “mendiga, drogada, prostituta” que vivia em baixo dos bancos da Praça da Sé. Nunca consegui me lembrar ou descobrir o nome dela, muito embora tenha lido um livro de uma poeta chamada Lena de Jesus Ponte que escrevia como ela. Talvez fosse ela mesma. Até então eu achava que poesia era o que eu tinha aprendido na escola. Mas já que dava para escrever poesia de qualquer jeito esculhambado, comecei a escrever um poema atrás do outro. Que na época eu chamava de “letras de música”. Não tirava da minha cabeça a ideia de ter uma banda. Falei para o Álvaro que eu tinha planos de começar como vocalista mesmo, já que eu não sabia tocar nenhum instrumento. Ele pediu para eu fazer um teste na sua banda cover. Foi uma verdadeira tragédia. Tivesse eu feito um teste numa banda punk, talvez tivessem gostado de minhas letras politizadas, em que eu mandava policiais e políticos se foderem e descrevia as mazelas de hospitais públicos. O engraçado é que eu tinha um violão em casa, da minha mãe, cuja corda eu quebrei no mesmo dia em que ela comprou. Não sei por que não tentei aprender a tocar o violão sozinho. Talvez eu tivesse achado que a única maneira seria através de uma escola. E olha que ainda havia a possibilidade de aprender a tocar violão de graça com o Heraldo Dummont! Porque ele tinha um certo parentesco com a minha tia Marta, esposa de meu tio Ronaldo. Nem assim eu fui. Cheguei a ir na casa dele uma vez.
            Simplesmente parei de ir à escola. Como na época eu estava fazendo musculação, este meu mesmo tio Ronaldo, me vendo dormir o dia inteiro (durante toda minha vida dormi de dia e fiquei acordado à noite), me disse que eu seria carregador de sacos de batatas, em referência aos diversos depósitos de batatas que haviam no bairro.
            A musculação também abandonei. Igualmente não me interessei em começar a lutar kung fu ou boxe, apesar da paixão que eu tinha e tenho pelo esporte, nem fui jogar futebol ou nada mais, mesmo freqüentando dois clubes, a Associação Desportiva da Polícia Militar e o Corinthians, do qual meu pai era sócio mas não me levava nunca.
            Minha mãe resolveu me matricular no Albino César, um famosíssimo colégio estadual que há no Tucuruvi, onde estudavam diversos alunos do Educandário Nossa Senhora do Carmo. O Albino César tinha fama de ser um colégio acima da média. Alunos ricos estudavam lá. O governo do Estado diz que todos os colégios estaduais são iguais. Mas a fama do Albino César durou muito tempo. Eu não posso dizer se o Albino era melhor do que outros colégios estaduais porque não estudei em nenhum outro. Mas levei um fumo tremendo. É impossível sair de um curso técnico e ir para um curso regular. Eu era um dos piores alunos da classe. Também foi a primeira vez na vida em que estudei com gente bem pobre. Era estranho estar comendo e ter que dividir o lanche com gente faminta que não tinha dinheiro nem para pegar ônibus para ir à escola. Não sei como os alunos burgueses resolviam isso. Apesar da fama do Albino César, não davam merenda.

            Uma tragédia aconteceu no meio do ano. Um trombadinha tentou roubar meu relógio e assisti um programa na televisão que mostrava um álbum fotográfico com as piores vítimas de crimes. Fui abatido por uma terrível síndrome de pânico e não saí mais de casa durante seis meses. Pior, eu não tinha coragem de ir ao portão de casa. Queria mesmo era ficar embaixo da cama, sentindo terríveis dores no estômago, como se tivesse sido baleado e tendo sonhos terríveis em que enfrentava bandidos em estações do metrô. De vez em quando os adultos me obrigavam a sair à rua, como para levar minha avó ao médico ou fazer uma entrevista de emprego em outro banco. Mas muitas vezes, eu me apavorava e começava a correr, deixando os outros pedestres assustados, achando que eu estava fugindo de algum assaltante, ou eu era o próprio assaltante. Em meus poemas, eu dizia que não tinha vontade de me matar, porque o céu deveria ser uma bosta igual à Terra. Não acreditava em Deus. 
 
 

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