segunda-feira, 6 de abril de 2015

O Nada - VI

Quando 1988 começou, eu estava decidido a voltar a fazer um curso técnico. Achava-me velho para terminar o segundo grau sem profissão, porque até terminar a faculdade, iria levar uma eternidade. Nem arrisquei a procurar emprego, porque aos 17 anos, os empregadores temeriam que eu pudesse ser convocado para o serviço militar. E a ideia de servir ao exército me apavorava a ponto de não me deixar dormir. Imaginei uma estratégia: dizer que eu tinha os joelhos estourados. De fato, durante a maior parte da minha juventude, senti fortes dores nos joelhos provocadas por torções em aulas de educação física e também por um motorista de ônibus ignorante que bateu a marcha no meu joelho, pois eu tinha dormido no primeiro banco e meu joelho acabou servindo de obstáculo para o cidadão trocar as marchas. Ao invés de simplesmente me acordar, ele preferiu bater com o câmbio no meu joelho e eu quase morri de dor. Como resultado, passei anos freqüentando ortopedistas e fisioterapeutas. Não seria motivo para deixar de servir ao exército, muito pelo contrário, mas eu seria capaz de aparecer no quartel até mancando. Quem sabe até com uma bengala. Tentei estudar violão. Entrei no Conservatório Tucuruvi, num dia de mau humor. A recepcionista perguntou do que eu era descendente e eu falei “Sei lá”, de tanto que eu odiava – e odeio – que me façam essa pergunta. O professor prático passou a aula inteirinha afinando meu violão e falando coisas que eu não consegui entender, enquanto o professor teórico não me deu a menor atenção. Só fui na escola um dia. Depois, arrependi-me de tentar aprender violão e não guitarra. Mas iria sair daquela merda de escola do mesmo jeito. Fui estudar na puta que pariu de novo. Entrei no Colégio Comercial Álvares Penteado, que ficava no mesmo prédio que a FECAP. Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado. Bairro da Liberdade. Dei uma olhada no folheto de cursos e verifiquei que se fizesse curso técnico de publicidade, poderia trabalhar em cinema. Assim estava escrito no folheto. Difícil era acordar às 5h da manhã. Justo eu que às 5h da manhã estava indo dormir. Mas fui. Não gostei dos alunos logo de cara. Nem dos professores. Achei os alunos um bando de playboyzinhos metidos. Nunca vi tanta gente blasé junta na mesma escola. Achei que não iria fazer nenhum amigo nunca. E os professores me pareciam aquele tipo de profissionais que não conseguem arranjar emprego em nada, então vão dar aulas. Para piorar a situação, eu estava vivendo um grande período oscilante entre anarquismo e comunismo e comecei a achar que a ideia de fazer propaganda para filhos da puta capitalistas não era lá muito interessante. Mas o que me desagradou mais na publicidade foi o fato de não ser uma arte. Havia uma tal quantidade de regras a ser seguidas que eu me perguntava por que raios uma pessoa resolvia se tornar publicitária. Então apareceu um demente em minha vida. Um cara metido a diretor de cinema, que também estava fazendo publicidade pelo mesmo motivo que eu. O cara grudou no meu pé e me convidou para fazer um filme com ele. Cheguei a ir à casa dele para começar a escrever o roteiro, mas ele queria fazer uma imitação de college movie americano, inclusive criando uma cena que era um jogo de basquete em que haveria cheerleaders. Um babaca completo. Ele detestou o roteiro que escrevi. Disse que era uma bobagem. Porque só ele era gênio, mais ninguém. Ele também fez questão de dizer que não tinha gostado do filme que aluguei para assistirmos no dia em que fui à casa dele para tentar escrever o roteiro de seu college movie, “Uma Noite Alucinante”, de Sam Raimi. Achou o filme “parado”. Como é que um cara que quer ser diretor de cinema fala que “Uma Noite Alucinante” seja um filme ruim? Mas senti que ele não estava querendo dar o braço a torcer em admitir que o filme era bom, tanto que assistiu de novo. É que o filme era muito chocante para seus padrões, afinal ele gostava de college movies. Quando falei para ele que estávamos deixando a zona norte para morar na zona leste, ele protestou, porque detestava ambas as zonas, considerando que era habitável apenas a zona sul. Isso aconteceu em meados de abril. Meu tio Nelson e família foram morar conosco, no Jaçanã, mas como a casa era muito pequena, cogitou-se mudarmo-nos todos juntos para uma casa maior. Eu sugeri o Tatuapé, influenciado pelo fato de que costumava ir lá visitar meu amigo Álvaro. No dia da mudança, pedi ajuda a meus primos para destruirmos a casa toda. Quebrei vidros e telhas, porque não poderia demolir aquela pocilga de baratas. Só não poderia imaginar que aquela casa iria viver nos meus pesadelos para o resto da vida, tendo até sido a personagem principal de minha sessão de hipnose, aos 39 anos. Já minha avó entrou em franca decadência, babando, cuspindo, urinando e cagando pela casa. Iniciaria-se um triste momento em nossa vida, que iria durar vários anos. Também não gostei do Tatuapé. Achei os moradores muito metidos. Tipo gente que comia ovo frito e arrotava caviar. Largamos as baratas do Jaçanã e achamos os ratos do Tatuapé. A casa da Rua Guaraciaba era infestada de ratos. Um milhão de ratos. Eu ficava totalmente desgostoso quando ia pegar uma roupa no guarda-roupa e tinha um rato lá dentro. Minha vizinha de 12 anos se interessou por mim. Parecia ter uns 15. O nome dela era Glória. No primeiro dia em que conversamos, eu usando um chapéu e óculos escuros por culpa da timidez, sob protestos dos adultos, ela me contou que um primo dela “a tinha agarrado por trás e não teve jeito”. O que ela queria dizer com aquilo? Que tinha dado o cu? Começou uma torcida dos adultos para que eu comesse Glória, o que me deixava enlouquecido de vergonha. Mas antes que acontecesse qualquer coisa, recebi uma carta. Antes de falar da carta, vou falar de outra coisa. Nosso aparelho de som estava quebrado, sem perspectivas de ser consertado. Eu estava desesperado de vontade de comprar o disco do Morrissey, que tinha a sensacional música “Suedehead”. Decidi juntar dinheiro para comprar uma fita cassete. Toda vez que os adultos me davam dinheiro para comprar alguma coisa na padaria, ou algo assim, eu guardava uma parte do troco. Logo, eu tinha dinheiro suficiente para comprar a fita. E fiquei feliz porque não apenas a “Suedehead” era sensacional, como todo o álbum. Resolvi novamente juntar dinheiro para comprar outro álbum. “Music for the masses”, do Depeche Mode. Fiquei puto que, por culpa da inflação, o valor da fita estivesse mais alto que a do Morrissey. O funcionário da loja nem sabia que tinha esse álbum na loja. O dono da loja me disse que antigamente não chegavam “essas bandas” em lojas de discos e eu não entendi o que ele quis dizer com aquilo. Também achei o álbum do Depeche Mode sensacional. Lembro-me bem que minha mãe achou um absurdo eu ficar tão feliz em juntar moedas para comprar um álbum, assim como um mendigo fica feliz em juntar moedas para comprar uma pinga. Minha mãe queria que, aos 17 anos, eu fosse um pouco mais ambicioso. Por falar em ambição, fui, feliz da vida, contar a meu pai que eu estava estudando publicidade. Meu pai me disse que eu não teria capacidade para ser publicitário e pediu para eu abandonar o curso e arranjar emprego numa loja de sapatos. Com relação à carta, foi uma carta enviada por Andréia, a menina por quem eu havia sido apaixonado. Dizia que enfim havia descoberto que me amava e queria voltar a São Paulo para ficar comigo. Terminava a carta com um poema. Foi o único poema que uma garota escreveu para mim em minha vida. Se bobear, foi a única carta de amor também. Passei um mês sem saber o que responder. Estava com medo de dizer “Pode vir” e sofrer de novo por ela. Por outro lado, não queria dizer “Não venha”. Então mandei uma carta dizendo que não a amava mais, mas deixando subentendido que queria continuar conversando. Ingenuamente, esperei uma réplica, que nunca veio. Nem sei se ela recebeu minha carta, tamanha a mania dela de ficar mudando de casa o tempo todo. Na ocasião, ela estava morando em Uberlândia. Durante minha vida inteira, fantasiei estar mandando para ela uma carta dizendo “Pode vir” e ela viria e nós iríamos viver juntos e ter filhos. O tal diretor de cinema gostava tanto de mim e era tão desprovido de amigos que quando teve que sair de uma locadora de vídeo em que estava trabalhando, me indicou para ficar em seu lugar. Quando recebi o recado, telefonei para ele, que atendeu fazendo voz de locutor de trailers de cinema. Eu tinha vontade de matar aquele cara. A locadora ficava na Praça da Árvore, longe pra cacete. Teve um dia em que eu esqueci de pegar dinheiro para ir embora para casa e tive que pedir para o funcionário do metrô liberar minha passagem. Achei que iria ficar perdido durante a noite ali naquele local desolado. Aos 17 anos, eu ainda não sabia o que era isso. Cheguei a desconfiar que o amor que o diretor de cinema tinha por mim ia além da amizade, especialmente depois de um dia em que ele ficou desfilando de cueca na minha frente, em seu quarto, o que me deixou tremendamente constrangido. Mas a verdade é que o cara era carente demais por não ter nenhum amigo. Um dia ele me levou ao teatro. Disse que queria ter idéias para seu filme que ainda teimava em fazer. Fomos assistir ao Grupo Ornitorrinco do Cacá Rosset, que havia montado a sensacional peça “Teledeum”. Não tiro essa peça da cabeça até hoje. Quando saímos da peça, o diretor de cinema me disse que uma das cenas ele iria utilizar em seu filme. Tive vontade de jogá-lo em baixo de um caminhão. Quando começou o segundo semestre, não agüentei mais o diretor de cinema ficar falando que iria ser comparado ao Steven Spielberg, entre outras barbaridades que ele falava, e também pelo fato de que por ele viver colado a mim, todo o resto da escola não se aproximou de mim ao longo do ano, e pedi para estudar à noite. Senti-me aliviado por ficar longe do diretor de cinema, mas tomei um pau feio. O clima de desolação no curso noturno de publicidade era completo. Eu só pensava em sexo. Não sabia que dia iria conseguir ter alguma coisa com a Glória. A oportunidade surgiu num dia em que ela apareceu em casa procurando os outros moradores. Eu estava sozinho e menti que eles já estavam chegando. Já contei essa história em “As gatas”. Não comi a Glória por pura incompetência, puro medo. Eu tinha um verdadeiro bloqueio. Chegaríamos a estar pelados na cama, eu com o pau encostado na boceta dela e mesmo assim não iria fazer nada. Eu poderia ter perdido a virgindade aos 17 anos e não perdi. Sofri um choque poético nesse ano. Ou no ano seguinte? Não me lembro ao certo. Mostrei meus poemas a um poeta independente amigo de minha mãe e ele disse, cautelosamente, que meus poemas eram bons, mas eu deveria “apurá-los ainda mais”. Na minha cabeça aquilo soou como “Seus poemas são uma merda”. Fiquei um tempão sem escrever e, quando voltei a escrever, vagarosamente, estava bem mudado. Os poemas pareciam mais profundos, brincando muito com as palavras. Lembro-me de um gigantesco poema chamado “Estupidez” que eu escrevi num dia em que acordei ouvindo vozes de adolescentes felizes conversando na rua. Aquilo me soava como a morte. Eu sempre fui infeliz no meio de adolescentes felizes. Por isso, eu escrevia poesia. Lá fui eu escrever um poema de cinco páginas. Mas, infelizmente, não incluí no meu livro. Falo do livro já já. Meus tios se mudaram para a Penha e ficamos sozinhos na casa da Rua Guaraciaba. Mas era preciso fugir dos ratos. Mudamos para um apartamento na rua de trás. Rua Diamante Preto. Fui reprovado na escola. Tomei pau completo em publicidade, português, direito e contabilidade. Normalmente, poderia fazer as aulas em que havia sido reprovado juntamente com o ano seguinte, no que eles chamavam de “dependência”. Mas o professor de matemática, que também era secretário da escola, e era chato pra caramba, havia dito que não iria mais permitir nenhuma dependência. Fora isso, havia um problema maior: meus pais deviam seis meses de mensalidade. Eu terminei 1988 já sabendo que não iria estudar em 1989. Minha vida escolar indo para o brejo. No exército, fiz exatamente o planejado. Falei para o médico que meu joelho estava em frangalhos e ele acreditou. Encontrei esse diretor de cinema várias décadas depois. Ele havia estudado um pouco nos Estados Unidos, mas continuava um babaca. É difícil para uma pessoa babaca de natureza deixar de ser babaca. Era um cara realmente determinado, capaz de realizar um antigo sonho de ir para os Estados Unidos estudar cinema, o que para mim soava como utopia, mas lhe faltavam duas coisas: talento e humildade. Mais duas coisas aconteceram: minha mãe, sempre ela, me arranjou o telefone de um publicitário que conhecia uma agência que estava precisando de estagiário. Minha mãe conhecia esse povo todo na loja de roupas em que trabalhava, A Bruxa. Telefonei para o cara e antes que ele falasse qualquer coisa, perguntei se ele não achava melhor eu ir até lá e pegar os telefones das agências. Uma falha de comunicação entre nós, naturalmente. Ele respondeu que iria me emprestar a agenda para eu copiar os telefones. Mas isso nunca aconteceu e eu não arranjei estágio nenhum, nem estava interessado em arranjar. E outra do diretor de cinema. Me disse que um amigo seu iria ser candidato a vereador pelo PL e precisava de gente para fazer seu jornal. Sem qualquer empolgação em trabalhar para um candidato do PL, fui lá conhecer o cara e achei que era o maior pilantra do mundo. Recusei o convite. Imagine minha decepção quando o Lula aliou-se ao PL para ser candidato a presidente em 2002.

2 Responses so far.

  1. Nada é quase tudo o que temos para oferecer.
    E por falar em oferta,
    gostei desta

  2. Não fosse eu entrevada das pernas, e gostaria de fazer parte da sua biografia :-*

 
 

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