domingo, 14 de fevereiro de 2016

Victor e a laranjeira

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

Oh, happy day! de Maggie Taylor


Tinha uma marca, uma diferença, uma letra a mais no seu nome. Muda, inútil. Quando pensava nisso ficava zangado, com os pais, os padrinhos, o funcionário do registo civil, com a professora que o obrigava a escrever o cê antes do tê e ele queria trocar o cê pelo quê de porquê. Outras vezes inventava nomes para si e perguntavam-lhe, como te chamas e ele respondia, Juno, ou Oceano e corava feliz da ousadia ou da mentira, tanto faz.
Depois cresceu e fez silêncio sobre este assunto. Dir-se-ia conformado, mas era apenas uma aceitação, um desvio que fazia, uma trégua.
Um dia o pai deu-lhe um laranjal e ele aceitou. Um terreno quadrado, solarengo, abrigado. E as laranjas cresciam doces nos dias de sol e sumarentas depois da chuva. Mesmo no centro, uma laranjeira amarga. Mas era bela e o pai dizia, com esta tem cuidados redobrados, porque é única e se troçarem dela, defende-a. Se compreenderes a sua resistência à frutose, crescerás mais dez centímetros na escala da vida.
O pai falava assim, na escala da vida. Na escala da morte. Na escala dos homens. Era a sua dimensão, o cais onde o seu barco aportava. Victor aprendeu a tratar das laranjeiras, a podá-las, a limpar o terreno à sua volta. Depois deitava-se no chão a cabeça encostada ao tronco de uma delas, os olhos abertos em direção ao verde das folhas.
Outras vezes abria um livro e ficava horas a ler, costas com costas, as suas e as da árvore. Quando alcançava a página trinta e cinco, se o livro era pequeno ou a página cento e vinte e sete, se o livro era volumoso, Victor dava um salto na escala do tempo e entrava na história. Da primeira vez que isso lhe aconteceu ficou sem fala, a tremer e lá estava ele e a fada azul, um em frente do outro e ela a dizer, pede um desejo e ele calado, indesejado. Ficou apenas dez minutos e o livro cuspiu-o. Não contou a ninguém, mas imaginou que o cê do seu nome poderia ser a expressão de um benefício.
Nesse dia colheu as laranjas amargas da laranjeira mais bela, a que habitava o centro e pediu à mãe que o ensinasse a arte das compotas. Coisas de rapaz, pensou a mãe e jantaram muito tarde nessa noite, pão acabado de fazer no forno de lenha e doce de laranja amarga com requeijão.
Foi por esta altura que deixou de usar calções e ficou apaixonado pelas ilustrações dos livros, pela magia das imagens que o faziam saltar páginas e alcançar rapidamente a página trinta e cinco, mas isso era batota e não funcionava assim. Quando estava irritado entrava numa história de tempestades e medos, de poderes ocultos e estranhos, de seres terríficos e assustadores. Apaziguado, permanecia cavalo branco asas de luar e nunca mais foi cuspido de uma história. 
O cê do seu nome tornou-se uma necessidade premente. Oceano desapareceu num mar de vida e Juno era o rapaz de quem ele teria saudades um dia.
Passaram já muitos ciclos e estações, tantas as flores de laranjeira. Mas há um momento, em que longe do laranjal que o pai lhe deu e ele aceitou, Victor sente as costas sem o apoio de outras costas e chegado à página cento e vinte e sete, deseja do mais profundo da sua raiz de laranja amarga, entrar numa história bonita e viver lá para sempre. 

2 Responses so far.

  1. Eu também viveria cá para sempre :)

    Beijos e muitos abraços

    Koh Samui (Thailand)

  2. Koh Samui é uma das muitas razões pela qual, no Carnaval, não devemos ficar por este lugar deprimente, exceto quando o trabalho nos obriga.

    Boa viagem, que nós cá estamos a viajar pela imaginação da Manuela, um dos produtos que nenhuma agência de viagens, felizmente, disponibiliza :-)

 
 

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