terça-feira, 26 de abril de 2016

Grandes êxitos do "The Braganza Mothers" - "No dia da morte da Amélia das Marmitas" (por ocasião da passagem de mais um aniversário sobre o óbito desta grande figura do cenário underground lisboeta)



Hoje foi dia "não": andei atarefadíssimo, preocupado com o clima de roda livre de Portugal, e cheguei tardíssimo a casa, e, ainda por cima, a única coisa -- deus me perdoe... -- que me fez rir foi a morte de uma pessoa.
Não há pior coisa do que nos comunicarem um óbito e nós não nos lembrarmos do nome do defunto, e só nos vir a alcunha, mais célebre do que o Mundo, à cabeça.

Pois estava eu sentado defronte do Represas, vira-se ele para mim, e diz assim, "sabes quem é que morreu ontem?...", e eu, "sei lá...", a mentalmente olhar para o mapa demográfico do Mundo, deve morrer um chinês a cada segundo, e um indiano a sonhar com um derradeiro grão de arroz, quando fecha os olhos, já para não falar de um palestiniano-bomba, que se foi juntar às 100 000 virgens, "pois", dizia ele, "morreu o Zé Manel...", e eu lembrava-me lá de quem era o Zé Manel, até que se me fez luz, do tipo daquela com que Jeová criou o Mundo, e soltei -- deus me perdoe -- o que não devia ter dito, mais um sorriso por acréscimo, "tu não me digas que morreu a "Amélia das Marmitas"?...

Sim, a "Amélia das Marmitas" tinha morrido.

Para quem o conheceu, suponho que tenha a sensibilidade da perda infinita que isso representou, para o submundo barroco lisboeta; para quem a não conheceu, vou tentar descrevê-la, à minha maneira, em três penachadas.
A "Amélia das Marmitas", para a geração dela, era um ícone "gay" incontornável, como a "Coxa" da Rua do Salitre, a "Zarolha", substancialmente mais nova, ou a "Micas", a boneca de cera, para a geração dos trinta/quarenta.
Conhecia-a já na fase terminal, embora me tenha assombrado a adolescência, como a muitos lisboetas bem traçados, e confesso que fugia "dela" a sete-pés, o que agora lamento, porque uma boa parte da crónica subterrânea de Lisboa foi com "ela", ontem, para o túmulo.

A Amélia das Marmitas celebrizou-se em todos os lugares que frequentou, aliás, "ela" tornava célebres todos os seus antros de frequência, e que não eram poucos, já que o Zé Manel, como tantas bichas militantes da capital, gozava do dom da ubiquidade. Suponho que fosse uma espécie de "franchising", acordado entre ela e Deus-Pai, já que nunca vi ninguém tão omnipresente como aquela figura... Sobreviveu a duas "perestroikas", a do encerramento dos chichis subterrâneos do Rossio, onde, diariamente, se rodavam as piores "Nove Semanas e Meia" a que a Ulissipónia "underground" assistiu -- nada disso é do meu tempo, mas tenho relatos fidedignos, uma meia lua, na obscuridade, escavada no chão, bem perto das fontes onde agora vendem flores, mas, outrora, no tempo do Cesariny, se faziam "botões-de-rosa", e de onde os cavalheiros depois emergiam para a luz do dia, como se nada se tivesse passado... -- e acabaram por emparedar aquilo, embora suponha que ainda lá esteja, tipo cripta do Tuthankhamon, e, um dia em que façam arqueologia, decerto lá encontrarão alguma dentadura caída no chão, nalguma aflição das célebres incursões da Polícia, a A.S.A.E. da época, que sempre andou mais preocupada com os broches clandestinos do que com os "off-shores" desta pocilga...

A Amélia sobreviveu à "perestroika" dos chichis do Rossio, e a duas "perestroikas" ainda mais graves: o abate dos sanitários da Estação de Comboios do Cais Sodré, onde a fina flor dos gajos do "Kremlin" acabava, às cinco da matina, para vazar colhões na boca das bichas esfomeadas que por lá zanzavam, e o fim de uma das coisas mais patrimoniais que Portugal já produziu, as retretes do Terminal do Rossio. Aparentemente, o Monhé da Câmara de Lisboa ainda quer dar o derradeiro golpe no último ossário dessa época, o Mamadouro de Santa Apolónia, mas talvez tenha de recuar, com o seu célebre vereador, Sá Fernandes, simultaneamente titular das moitas de Lisboa, e do pelouro dos Enrabadouros, Punhetórios e Brochanários da Cauda da Europa.

A Amélia das Marmitas era ímpar: tinha uma coisa nas pernas que eu nunca percebi muito bem o que era, mas era uma fibro-qualquer-coisa (os comentadores depois ajudam, tá bem?, que eu, para Medecina é como para o Futebol, tou no zero...). Para mim, simplificadamente, tratava-se de uma poliomielite, que lhe tolhia os membros inferiores, e o obrigava a permanentemente usar umas canadianas, que, diga-se de passagem, o celebrizaram, e deram origem à célebre alcunha de "Amélia das Marmitas".

Não pense o comum leitor que estava perante um cidadão de mobilidade reduzida, não, isso são tretas do Politicamente Correcto, e o Zé Manel, que deus tenha, já tinha dado a volta ao politicamente correcto talqualmente ele o merece: com uma muleta bem enterrada no cu... A Amélia das Marmitas era tudo menos mobilidade reduzida: não havia escadaria íngreme, rampa esburacada, ou valeta que não calcorreasse, a uma velocidade muito próxima... bom, vou evitar os exageros... a uma velocidade muito próxima, já que não da luz, do som.

Havia sempre o broche seguinte que tinha de ser despachado, e não havia poliomielite que não pusesse aquela "m'lher" a bater tudo o que havia para bater nessa Lisboa Desaparecida, que aquela canhota -- uma tal de Marina -- que vive disso, seria incapaz de reproduzir nos seus inúmeros álbuns do ganha-pão.

Tinha-lhe dito a médica assistente que não compreendia como é que ele, naquele estado de degenerescência física, ainda não estava na cadeira-de-rodas em que outros, na mesma fase, já estariam. Não sabem as médicas que a voragem do engate deve ser das poucas coisas, para além de Jesus, capaz de pôr os paralíticos a andar, e punha.

A verdade é que a Amélia das Marmitas era uma senhora: chegava defronte das louças de Sacavém, quer fossem no "Olympia", em Santa Apolónia, no "Palladium" ou no Terminal do Rossio, encostava imediatamente as muletas ao lado esquerdo do sanitário -- era vagamente de Esquerda, e cultíssima -- e colocava a anca encostada ao lado direito do mijadouro, tornando assim a deficiência mimética com um colo de cisne, tipo Leda, a que entregava langorosamente a anca. Depois, era só esperar que a presa pousasse no sanitário do lado, e, consoante o tamanho da trombinha, trombeta, ou trombada, ela lá delicadamente deitava a unha: às vezes, o cavalheiro casado, ainda tentava aquele derradeiro sobressalto do toureador, antes de ser encornado, mas depois percebia que aquela mãozinha de branca-de-neve ia operar todas as maravilhas que lhe faltavam em casa.

Da mão à boca, era um passo, aliás, uma muleta, no caso da Amélia das Marmitas.

Nesse tempo, eu, púbere, imberbe e envergonhado, costumava ir-me embora, mas tenho de reconhecer que a arte do contorsionismo era um dos "métiers" da nossa amiga, já que, do ponto de vista da Física pura, uma criatura que não se tinha nas canetas, mas, mesmo assim, conseguia debruçar-se para o urinol do lado, para fazer uma "gulosa", daquelas inesquecíveis, e não cair, era um dos milagres da fé. Creio que Santa Teresinha sempre o apoiou nas lides, e não lhe vão faltar madrinhas para entrar no Céu.

Como todas as grandes paneleiras, a Amélia tinha uma queda pelo Oculto. Na fase final, em que a Sina nos uniu, na reorganização do espólio de uma Biblioteca Pública, vira-se um dia para mim, eu, com o meu ar de puta angélica do costume, e diz-me assim, "sabe, um diz destes fui a uma vidente, e ela olhou para mim, e disse, não quero desiludi-lo, mas você vai ter uma vida muito mais inclinada para o "flirt" do que para o Amor..."

Mal a desgraçada sabia quantos "flirts" de homens das obras já tinham passado por aquela goela, e o amor, realmente com que ela "flirtava", sempre que se tratava de mamar...

Vidas.

Uma vez senhora, todavia, sempre senhora. Lembro-me, naqueles pontos de fuga que davam para ver tudo o que se passava lá dentro, estar eu um dia à espera do comboio de Sintra -- Watchdog, tempos de passagem regular pela Damaia!... -- e ver a Amélia lá no canto, muletas à esquerda, bacia à direita, e entrar um gajo com ar de baixo nível, tipo canalizador, daqueles com barba de três dias, e fato de macaco todo cagado, coisa de fazer subir a adrenalina de qualquer bicha aos zénites com que o badochas do Constâncio fala de centésimas, e, e em trinta segundos, a Amélia ter abocanhado a presa. O seu carácter de princesa, todavia, logo se manifestou, porque -- só depois deu para ver -- havia um típico casado de bigode, no outro extremo, e, depois de ter iniciado o acto, a Amélia fez aquele gesto com que, na Valsa, um parceiro cede o lugar ao outro, e ofereceu a tromba rija, para o que o cavalheiro casado também pudesse fruir da benesse.

Uma "lady".

A Amélia era uma dama do Calvário: morava perto da Super-Esquadra, e tinha a sorte de ser vizinha de um daqueles apartamentos onde se amontoam três ou quatro polícias, com os quais -- dizia ela -- mantinha excelentes relações, e espero bem que sim, em prol da Ordem Pública... Conta-se que descia à paragem do 38, hoje 738, se não me engano, e, sempre que apanhava um cavalheiro das horas tardias, ou um jovem a cambalear das discotecas, lá vinha ela, truca-truca-truca, com as marmitas a matraquear na calçada portuguesa, e abordava-o directamente, perguntando se não queria que o mamasse, ao que -- parece -- a pergunta era: "Você é de confiança?..."

Claro que a Amélia das Marmitas era da mais profunda confiança: levava-o para um vão de escada e nunca ficavam provas, já que engolia, assim evitando aquelas feias queixas e resmungos, sobre as manchas no chão, das pobres lava-escadas do dia seguinte.

Não menos rico do que o seu lado de brochista era a vertente cultural: a Amélia das Marmitas era assídua frequentadora do São Carlos, e os primeiros e mais altos "BRAVOS" de qualquer ópera vinham sempre dessa goela oleada de esperma, para inveja de muitas tias, que desconheciam de onde vinha o inconfundível timbre daquela voz: e aqui fica o segredo, durante tanto tempo guardado. Nem a Callas...

Episódio célebre foi o seu cruzamento com a saudosa Maria Helena de Freitas, passionária e apaixonada de todo o bel-canto, que, uma vez, na coxia central da plateia, com o Zé Manel à frente e ela atrás, o Zé Manel, sempre cortês, no seu truca-truca-truca das marmitas, ao pressentir atrás de si a velha amante de Luís de Freitas-Branco, se virou para ela e lhe disse, "minha querida Maria Helena, faça favor de passar!...", ao que a outra terá respondido, "Ó, Zé Manel, por amor de deus, deixe-se estar, que está à minha frente, e eu sempre respeitei as bichas..."

Coitada, só no segundo seguinte se apercebeu do que tinha dito...

Do Zé Manel, a "Amélia das Marmitas" ficará este testemunho, que, embora humorístico, é sentido: foi mais um mundo que desapareceu, um mundo com graça, por oposição à atmosfera parda em que estamos imersos: parece-me ainda estar a vê-lo, com as muletas, a deslocar-se a uma velocidade impensável para qualquer dos nossos leitores, mas que não era só movimento, já que, como naquela peça... acho que se chama "Shakespeare em 97, ou 79, ou lá como é minutos" (nunca vi, mas parece que é divertida), a Amélia das Marmitas, no seu inimitável colear, era uma espécie de "Lago dos Cisnes em 30 segundos", porque bastava filar a presa e lá começava ela a marchar imediatamente na sua direcção, e aquela jibóia do broche realmente condensava todos os "pas-de-deux", as espargatas, os solos e até os "Tutti" de Tchaikovsky desde que lhe cheirasse a mamar um homem.

Não sei quantos casamentos salvou, sei que era uma criatura de territórios: para o lado do Casal Ventoso, não ia, porque os rapazes eram para a assaltar; do outro lado da rua, dizia -- não me lembro do nome -- os rapazes gostavam dela, e terá tirado muitas virgindades com a boca.

A nota final é ainda mais realista: aparentemente a Alemanha, dominada pela Sinistra Merkel, está-se a preparar para estender a idade de reforma das Forças de Segurança para 67 anos (!), o que quer dizer que vamos ter P.S.P.s e G.N.R.s a correr atrás de gandulos de boné e brinquinho, eventualmente com muletas do mesmo género das do Zé Manel.

Suponho que o Zé Manel odiasse mamar polícias com 67 anos, e a Morte livrou-o de mais esse pesadelo de Bilderberg...

Brevemente, o grito dos guettos talvez já não seja, "OLHA, A BÓFIA VEM AÍ!...", mas, sim, "PESSOAL, TOCA A BAZAR, QUE VEM AÍ A BRIGADA DAS MARMITAS".
Mais não escrevo: é um epitáfio excêntrico para mais uma grande fatia de um mundo exótico que se foi.

Descansa em paz, Zé Manel, levou-te um terrível linfoma, mas deixas cá saudades: o riso com a notícia da tua morte talvez tenha sido a maior prova de simpatia de todos quantos contigo privaram, te conheceram, ou, tão-só te viram, libertaria e anarquicamente, a sabotar, diaria e sistematicamente, a Ordem das pessoas que, cada vez mais, adoram mundos pardos e amordaçados.

One Response so far.

  1. Arrebenta says:

    Sempre que se fala da Amélia das Marmitas há a grande dor da perda.
    Daria motivo para um novo Cervantes.

    Trocava-a por dez saramagos, e ainda ficava a perder...

 
 

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