domingo, 17 de abril de 2016

qualquer dia pego no balde e na pá e vou à praia

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas
Low Tide de Maggie Taylor


Coloca o pé direito, avaliando o equilíbrio instável de cada rocha, das verdes cobertas de limo não foge, pois gosta de sentir a água que escorre entre o pé descalço e o macio da alga, aveludada, fresca, escorregadia. De uma assentada ganha coragem e o esquerdo junta-se ao direito e assim, a par, descansam o tempo de um suspiro ou de um caranguejo pequenino avançar cheio de pressa e atravessar-lhe a ponta dos dedos fazendo cócegas e um arrepio.
Na mão, o balde cor do sol, na cabeça o chapéu de pano, bordado com barcos à vela, nuvens brancas e leves de algodão. Dos calções, grandes demais para as suas pernas, pesam os bolsos cheios de conchas.
Gostava sim, de encontrar o peixe palhaço e perguntar-lhe como são as palhaçadas sem respirar, como quando mergulha e permanece muito quieto a pensar que o ar do mar é tão secreto que os homens não lhe podem tocar, só os peixes e as anémonas, belas mas enganadoras. Paralisam as presas com o seu veneno, como o avô fez um dia aos ratos do campo que comiam as cenouras tenras e eles comeram e ele chorou a agonia dos ratos do campo e não quis nunca mais o campo.
Se encontrar mexilhões tem de ser forte mas não é, há quem goste deles de cebolada e depois ouve-se um chupão e as pessoas sujam guardanapos de papel e as camisolas novas com três botões e uma gola, as lapas e os ouriços vivem nas poças menos fundas e não gostam da maré baixa com medo de se afogarem na areia.
Às vezes cai e os calções ficam vergonhosamente marcados de verde como se tivesse escorregado em puré de espinafres. A areia é uma espécie de superfície lunar e de cada bolso solta-se uma concha e uma pedra cinzenta para fazer dançar à tona de água, três vezes ou quatro ou mais e quando for maior vai ganhar ao miúdo feio que lhe bate quando ninguém olha, que lhe chama palito magriço. 
Na maré-baixa há sempre um cheiro forte a maresia e não sabemos onde começa o céu e termina o mar.
 
 

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