sábado, 21 de maio de 2016

Eu queria ser o Charles Bukowski





        Em qualquer país do mundo, mesmo países que leem muitos livros, como EUA e França, a minoria das pessoas lê livros. No Brasil, a minoria é menor ainda. Editoras, no Brasil, fecham as portas, porque não vendem livros.
        Por algum motivo, eu me tornei leitor. Não sei o que torna alguém leitor. Meus pais não tinham livros. Meu pai me dava livros sobre extraterrestres e minha mãe só tinha “O Mestre e Margarida”, de Mikail Bulgacov, não sei por qual motivo.
        A escola onde eu estudava começou adotando livros muito chatos, do século 19, como “A Escrava Isaura” e “O Guarani”. Só quando eu tinha uns 12 anos, começaram a adotar livros da série “Vaga-lume” e eu fiquei viciado em leituras. Porém, o primeiro livro que li numa única noite não foi da “Vaga-lume”: “O gênio do crime”, de João Carlos Marinho. Ler livros em 24 horas ou menos se tornou um hábito. Porém, nunca me interessei por livros chatos. Quando vejo que o livro é chato, abandono já na primeira página. Já abandonei livro no primeiro parágrafo.
        O livro que me fez ter vontade de escrever foi “Feliz ano velho”, de Marcelo Rubens Paiva, o primeiro livro que li que não era escolar ou não era o “Mestre e Margarida” da minha mãe. Eu achei o livro numa estante de livros numa casa que minha mãe alugou em Peruíbe, numas férias. Li em dois dias e pensei: vou escrever a própria história de minha vida.
        Eu não sabia naquele momento, mas existiam outros livros no mundo com um estilo parecido e que se chamava “realismo sujo”. Ninguém nunca disse que “Feliz ano velho” é realismo sujo, eu estou falando isso pela primeira vez.
        Em 1992, fomos morar ao lado da biblioteca Dinah Silveira de Queiroz, no Tucuruvi. Sem saber o que emprestar, resolvi pegar qualquer livro que estivesse lá na ponta, no meio da letra “A”. Não me lembro o que tinha na “A”, mas na “B” achei Charles Bukowski e William Burroughs. Do Charles, tinha “Cartas na Rua” e do Burroughs, “Junkie”. Enlouqueci com os dois livros e parei imediatamente de achar que “Feliz no velho” era o melhor livro que eu já tinha lido na minha vida. (Na verdade, eu já pensava isso desde que havia lido os livros de Stephen King). Mas eu havia enfim encontrado autores clássicos num gênero de literatura espontânea (o termo literatura espontânea originalmente tem outro significado) e que também estavam relacionados ao movimento beatnik, embora nem todo beatnik seja realismo sujo, embora todos sejam literatura espontânea e embora Charles Bukowski não fosse beatnik, apesar de muita gente dizer até hoje que ele era beatnik. Ele mesmo afirmava categoricamente que não apenas não era beatnik como não gostava de nenhum beatnik. É clássica sua história do dia em que o William Burroughs quis se encontrar com ele, que recusou. Ele conheceu pessoalmente apenas o Neal Cassidy.
        Antes de querer ser o Charles Bukowski, eu queria ser o Jack Kerouac. Aos 27 anos, eu havia lido pela primeira de muitas vezes o “On the road”. Jack fez sua viagem aos 27 anos, após ser casado e ter publicado um livro. Pensei: tenho 27 anos, já fui casado e publiquei um livro. Eu sou Jack Kerouac. Peguei a estrada e fiquei quatro meses longe de São Paulo, vagando sem dinheiro pelo Brasil, experiência que eu teria contado num diário de viagem, que ficou no Tocantins, de onde saí fugido de um cara que queria me matar, mas essa é outra história que conto depois.
        Minha inspiração maior em Charles Bukowski começou no ano passado. Resolvi ler todos os seus livros, algo que estava enrolando para fazer desde os anos 90, não lembro exatamente por qual motivo, talvez porque tivesse ficado tão impactado pelo “Cartas na rua” que não consegui ler outro livro do mesmo autor.
        Desta vez, eu estava mais parecido com Bukowski do que com Kerouac. Bukowski trabalhou 12 anos no correio e escreveu um livro, que publicou aos 50, 51 anos. Eu trabalhei na noite paulista 13 anos e escrevi um livro e aos 45 anos ainda não publiquei. Bukowski já tinha publicado livros de poemas e contos, sem sucesso financeiro. Tinha só sucesso literário. Nesse ponto, éramos parecidos, porque eu também publiquei livros e fiz algum sucesso com meu primeiro livro de poemas, mas nunca ganhei nenhum centavo até hoje com isso. Tudo o que ganhei até hoje foi um aparelho de dvd, num concurso literário, com um conto que eu nunca dei a menor bola, nem sei por que mandei para o concurso. A maior diferença entre mim e Bukowski é que ele faz sexo e eu não. Tem uma história engraçadíssima de Bukowski em que ele traçou a namorada e duas amigas dela ao mesmo tempo, todas gordas e horrorosas (em suas palavras) e bêbadas.
        (Outro autor que me inspira muito é o cubano Pedro Juan Gutierrez, uma espécie de Charles Bukowski da ilha, que publicou o primeiro livro – autobiográfico - aos 48 anos, mais ou menos, com muito sucesso. Falarei dele em outra crônica).
        Não vou nem considerar a quantidade de sexo que Bukowski fez após fazer sucesso com seu livro “Cartas na rua”, porque as mulheres começaram a telefonar para ele se oferecendo para ir à sua casa. É claro que todo escritor, quando fala de suas conquistas amorosas, dá uma exagerada. Talvez Bukowski não tenha feito tanto sucesso sexual quando descreve, nem as mulheres fossem tão lindas quanto descreve. Mas não tenho motivos para duvidar que um escritor famoso nos EUA dos anos 70 tenha feito muito sexo com mulheres lindas. Ele publicou um livro só sobre o assunto, “Mulheres”, que acho que é seu melhor livro.
        Agora vou falar um pouquinho sobre os livros de Charles Bukowski que estão publicados no Brasil. Há muitos contos e poemas inéditos de Charles que nunca foram publicados nem nos EUA.
       
- “Notas de um velho safado” (1969) – coletânea de crônicas escritas para um jornal alternativo da Califórnia, que lhe causaram problemas com o FBI e com os correios. Aqui começa uma parte da obra do Bukowski que nunca me interessei: as descrições detalhadas de corridas de cavalos, que eram sua obsessão e razão de viver e fonte de inspiração.

- “Cartas na rua” (1971) – memórias do tempo em que trabalhou no correio. Muitas bebedeiras clássicas. Bukowski era fã incondicional de música clássica, principalmente Mahler, desprezando qualquer outro gênero.

- “Crônica de um amor louco” (1972) – publicado nos EUA como “Ereções, ejaculações, exibicionismos e fabulário geral do delírio cotidiano”. Mais sexo, álcool e corrida de cavalos. E música clássica.

- “Fabulário geral do delírio cotidiano” (1972) – segunda parte do livro.

- “Ao sul de lugar nenhum” (1973) – título original, “South of no north”. Crônicas.

- “Factótum” (1975) – romance em que se lembra do tempo anterior ao ingresso no correio e quando começou a mandar seus contos para revistas literárias, sendo desprezado por quase todas. Não me lembro de ter lido nenhum texto de Bukowski em que conta como foi que perdeu a virgindade. Bukowski, após sair da casa dos pais e abandonar a faculdade de jornalismo, vira um semi-vagabundo, trabalhando em qualquer emprego só o tempo suficiente para pagar o aluguel e comprar bebidas. Diz que não sabe por que começou a escrever, muito menos porque começou a escrever poesia. Nos EUA, é mais conhecido como poeta do que como proseador, diferente do Brasil. Também ficou rodando pelos EUA, morando em hotéis vagabundos. É um os melhores livros de Bukowski.

- “Mulheres” (1978) – como o próprio nome sugere, memórias de suas mulheres, após ficar famoso. Como ficou famoso em 1971, as histórias eram bem recentes. É o livro dele que mais gosto.

- “Misto quente” (1982) – título original é “Ram on Rye”, ou “presunto no centeio”. Achei esse título brasileiro meio nada a ver. Memórias da infância e adolescência. Nenhum relação sexual na juventude, pelo menos não que tenha resolvido compartilhar. Apanhava muito do pai, com o apoio da mãe, fato que considera determinante para a definição de seu caráter. Um dia não aguentou e encheu o pai de porrada.

- “A mulher mais linda da cidade” (1983) – antologia.

- “Numa fria” (1983) – título original, “Hot water music”, crônicas.

- “Hollywood” (1989) – crônica de sua participação em Hollywood, quando escreveu um roteiro para Barbet Schoroder, dando origem ao filme autobiográfico “Barfly”, com Mickey Rourke, a quem Bukowski descreve como idiota estrelinha.

- “Pulp” (1994) – último livro escrito por Charles Bukowski, que teve dificuldade em escrevê-lo. Estava quase com 70 anos, tendo falecido de leucemia logo depois. É uma história de detetives, no estilo pulp fiction.

- “O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio” (1998) – único livro de crônicas que Bukowski escreveu no computador. Na verdade, são trechos de seu diário tardio.

- “O amor é um cão dos diabos” (2007) – coletânea de poemas da L&PM.

- “Pedaços de um caderno manchado de vinho” (2008) – antologia de crônicas inéditas e alguns ensaios e prefácios. Através de Charles Bukowski, eu descobri John Fante, L.F. Céline e Knut Hansum. Tenho aqui também outro favorito dele, que é o Turgeniev, mas ainda não comecei a ler. Há alguns outros livros de Bukowski publicados no Brasil, especialmente de poesia. Recentemente, eu comecei a ler os livros do autor em inglês. Faltou falar sobre o posicionamento político de Charles Bukowski. Ele era de direita? Era racista, preconceituoso? Acho que Bukowski era uma mistura de anarquista com misantrópico. Ele odiava a humanidade. Só gostava das mulheres porque fazia sexo com elas, mas não parecia amar a companhia de nenhuma. Nos EUA, há mais 13 livros não lançados no Brasil e de poesia são 33.





       
 
 

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