domingo, 24 de novembro de 2013

cabelo vermelho coração azul


Era diferente. Na fala, nos gestos discretos, no andar contido, estar ou não estar, quem saberia dizer. A tristeza seguia-a, três passos atrás, por isso não tinha sombra.
Recortava máscaras que imaginava, ou outras que lhe sugeriam, e eram tão reais como as pedras dos muros, como a farinha para o pão, como a quentura das mantas nas noites frias. As crianças gostavam dela no empréstimo dos sonhos que sabia traduzir. Escondidos os rostos, tudo era possível de acontecer e de conquistar. Somos o que encenamos ser.
O teatro onde trabalhava sobrevivia, apenas. E ela construía os objetos de cena de quase nada e um golpe de luz e apesar dos dias escuros, o público acorria. Bater as palmas aquece, rir aquece, chorar faz brilhar os olhos, pano de palco é um vestido novo que se estreia à quarta-feira.
E quando ela própria cobria a face com a sua máscara perfeita, preferida, aquela que não dava nem cedia, o cabelo avermelhava-se e crescia. Nessas noites regougavam gritos pelos cantos da cidade e as velhas acautelavam galinheiros e fechavam as portas das cozinhas.
Era excessiva. E o que não consumia guardava, e possuía vinte esconderijos e não se esquecia do lugar exato de cada um nem do que lá escondia.
Depois o público levantava-se, dizia, bravo! Ela sacudia o coração azul e o pó pousava devagar já era madrugada.
contos de palco, o primeiro

3 Responses so far.

  1. Belíssimo começo de uma nova sequência de domingos :-)

  2. Marcel Proust haveria de ter gostado de conhecer a Manuela

 
 

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