domingo, 3 de novembro de 2013

litania para espantar o engano dos dias

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas


Às vezes pensamos, é hoje, com o coração preparado para o hoje que é e sem sabermos como, hoje já é amanhã e não foi hoje e não sabemos quando será. É como encontrar o ninho de um pássaro sem pássaro, esperamos o pássaro todas as tardes, dizemos, como pode haver um ninho sem pássaro, e à terceira tarde do terceiro dia aceitamos que apesar do ninho, anda por aí um pássaro sem ninho ou apenas um ninho que se perdeu de um pássaro.
Se dizemos, um dia, deixamos em aberto todos os dias, sem portas, sem trancas, não há chave que dê a volta, não há armário que os guarde, não há poço onde mergulhem, não há rede onde permaneçam cativos. Estão soltos, lançados à velocidade da luz e até a luz vacila quando os encontra em aberto, vulneráveis, voláteis.
Quando percebemos que um dia não são dias, encontramos o perfeito dos nossos dias e desejaríamos que nunca terminasse, que cada hora fosse uma vida e assim teríamos vinte e quatro vidas e a eternidade seria a dimensão de uma bem-aventurança até ao fim dos nossos dias.
Também há os que recusamos, a quem gritamos não pode ser, não quero, não deixo. E temos uma faca escondida no peito, uma pedra da sorte guardada no bolso, uma folha quadriculada dobrada em quatro e cada quadrícula é uma porta secreta onde escondemos uma parte de nós, tantas partes de nós tão secretas e até pensamos, olha, vai ali uma parte de mim, tão bonita esta parte de mim, como é que eu não vi esta parte de mim.
Com a faca, com a pedra e com a folha, cantamos um canto encoberto, oculto, íntimo, que retira o medo dos corredores profundos e estreitos, daqueles que levam e trazem os dias, onde apenas há espaço para cada um de nós.
E num tempo cavado tão fundo, teremos nos olhos o espanto de um dia em que reencontraremos todos os dias na fragilidade abismada de sermos o pássaro que encontrou o ninho.

5 Responses so far.

  1. Pudesse eu nascer outra vez, como o "Professor" Cavaco Silva, e haveria de adorar ler, mas acho que deve ser bonito, pelo que as minhas colegas me contaram :-)

  2. Quando o fardo do tempo mais nos parece pesar, subitamente se ergue a ave ausente, lembrando a liberdade que se reencontra nas frestas do criador potente

  3. ... e temos aí o Centenário de Britten, com os seus fabulosos "Quatro Interlúdios para o Mar", de "Peter Grimmes"
    , essa estranha "Morte em Veneza" das brumas, profundamente a propósito deste mês de novembro.

    Histórias do mar, com um centenário ao fundo :-)

  4. Litania para espantar as sombras, pela Arte :-)

 
 

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