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quarta-feira, 10 de abril de 2019

Paulo Intemporal

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sábado, 16 de março de 2019

Lugar de ideias

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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Hora nona, canto primeiro, na sombra da flor do imbondeiro

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sábado, 13 de outubro de 2018

Nas tardes dos frutos sextos e bissextos

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sábado, 11 de agosto de 2018

Silly Season II - North Sentinel Island

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sábado, 4 de agosto de 2018

Mauritius

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quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Sim, já fizemos a folha ao Ricardo Robles, numa velha tradição de fazer a folha a essa corja toda, a que chorava, a Constança Urbano de Sousa, o Relvas, que nem chorar sabia, o Coelho, que acabou em "catedrático" (!), a Portas, "Miss Fardas", que continua a gostar dele grande e grosso, a Carrilha, que gosta do mesmo, o Paulo Pedroso e o Ferro Rodrigues, que querem ser indemnizados só por alguém insinuar que eles gostam de fruta da verde, o Aníbal de Boliqueime, o cancro mor da Democracia, e a sua Maria, modesta e modista, o José Sócrates, o Vigarista de Vilar de Maçada, e a sua mãe Adelaide, a jeová... meu deus, são tantos, que agora se tem mesmo de descansar um pouco, um poucochinho monhé: pois, então, "The Braganza Mothers" entra na "silly season" :-)

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quinta-feira, 28 de junho de 2018

Enorme lua de Verão

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domingo, 27 de maio de 2018

um chapim, dois carvoeiros

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domingo, 20 de maio de 2018

scolopax rusticola

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

Não ficam para o verão. Gostam dos bosques, da densidade das matas. São tímidas e misteriosas, difíceis de observar. Às vezes ao entardecer encontram-se em campo aberto em busca de água. Não sei se cantam.


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domingo, 13 de maio de 2018

provavelmente maio

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Se fosse jarra de barro tosco pintado à mão, as flores seriam lançadas para a direita e a água espalhava-se pelo tapete. Se fosse vaso com terra e húmus, o equilíbrio era um instante apenas a anteceder a queda. Umas vezes somos água, outras vezes somos terra. Quase sempre, luz.
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quarta-feira, 2 de maio de 2018

touchpoints

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domingo, 29 de abril de 2018

premonição

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domingo, 8 de abril de 2018

o urso acordou

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terça-feira, 20 de março de 2018

No lugar do primeiro dia da primavera, e ao som suave de Botticelli

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domingo, 18 de março de 2018

dois anéis de prata

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O primeiro anel, trocou-o por um chá de menta quente num dia de chuva fria. O segundo levou-o consigo para atravessar o deserto e as tempestades de areia
Talvez entre as pedras cresça um dia o tomilho e a hortelã.

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domingo, 4 de março de 2018

Ernesto vai jantar fora ou o ponto de vista do cão

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Vou sair e não esperes por mim para jantar, disse o cão. O homem desviou os olhos do visor e pareceu ligeiramente atónito. Não me levas? perguntou ao cão. Ernesto abanou a cauda, dobrou a orelha direita, espetou mais um pouco os pelos da cabeça e ladrou.
Vadiou pelo parque, marcou o território em três candeeiros de rua, rosnou ao caniche da vizinha do 2º esquerdo e quando sentiu um ronco no estômago, entrou no restaurante e sentou-se. Pediu um bife mal passado e duas águas sem gás. Apesar da frugalidade da refeição, arrotou. Afinal um cão é um cão.

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domingo, 4 de fevereiro de 2018

Cacau

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A loja do senhor Artur tinha muitos armários e prateleiras. Eu gostava de lá ir fazer recados à minha mãe, dois carrinhos de linha âncora, uma agulha fininha de remendar, um quilo de açúcar, duas latas de atum Tenório. Se sobravam uns trocos, comprava um berlinde ou dois dos mais brilhantes que o senhor Artur guardava em frascos grandes de vidro do lado esquerdo do balcão. Eu afundava a mão naquele mar de vidro em busca dos azuis de todos os tons, que me dariam sorte, que me fariam abafar os adversários.

Diziam que era um homem abastado, com a loja, as filhas, a mulher e a criada, frascos repletos de berlindes, caixas de lápis 2B e uma escada de pedra com um corrimão de ferro forjado que dava acesso ao alpendre do andar de cima, onde ele morava com as filhas, a mulher e a criada.

Eu era um rapaz pequenino, umas vezes tímido, outras não. Uma manhã, antes do almoço, fomos brincar para ali, eu e uns quantos da primeira classe, a saltar os degraus dois a dois e num desafio, enfiámos as cabeças nas grades da escada exatamente no espaço em que o ferro forjado formava um losango e ríamos muito a macaquear tontices. De repente senti um frio no estômago, tentei tirar a cabeça das grades e não consegui. Senti-a enorme, as orelhas apertadas naquele losango e entrei em pânico. Os outros rapazes não tiveram dificuldade em libertarem-se e gozavam-me perdidamente. Eu gritava e via o meu futuro estranho, a cabeça agarrada a um corrimão e nunca mais um berlinde sequer e a minha mãe a castigar-me por ser cabeçudo e pateta.

Foi então que ela apareceu. Tinha um vestido azul berlinde e um avental branco, o cabelo castanho preso numa trança que lhe chegava a meio das costas, uns olhos meigos e numa voz calma enxotou-os, aos rapazes que riam de mim. Colocou as duas mãos sobre a minha cabeça, disse, não chores, já vais sair daqui e rodando-a um pouco, soltou-me daquela espécie de guilhotina. Eu soluçava e ela pegou-me pela mão e levou-me para a cozinha. Numa chocolateira de esmalte ferveu cacau e eu sentado num banco, as pernas a balouçar de medo ainda, queria falar e não era capaz. E ela disse-me o seu nome, mas eu não fixei e bebi cacau quente e espesso e comi línguas-de-gato e foi a melhor refeição que comi na minha vida. Fiquei mais um pouco para animar, ajudei-a a fazer as camas de lavado, ela ensinou-me a lengalenga da criada lá de cima que é feita de papelão e quando vai fazer as camas diz assim para o patrão.
No dia seguinte regressei com umas flores do campo e como não me recordava do seu nome, chamei-a do fundo das escadas, Cacau, ó Cacau, abre-me a porta. E ficámos amigos, a Cacau e eu e as línguas-de-gato.

Muitos anos depois encontrei-a a trabalhar numa torrefação. Já não era a criada lá de cima, era a menina Rita, mas eu insisti, és tu Cacau? Era. Ela deu-me um cartucho de papel cheio de grãos de café para a minha mãe e sentámo-nos num caixote de madeira a trincar amendoins torrados. 

Hoje sou um homem, às vezes tímido, outras vezes não. No entanto o meu coração oscila entre o odor do cacau quente e do amendoim torrado.
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domingo, 26 de novembro de 2017

para entardecer gosto do mar mesmo que chova

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Terá sido um acaso, uma mudança brusca na direção do vento, um batimento diferente do coração da mãe, mas o facto é que nascera diferente. À medida que foi ganhando pelo e peso, tornou-se notório que os pelos da cauda não formavam riscas horizontais, mas sim, verticais. Cresceu ágil e trepador, alheio ao sentido dos desenhos do seu corpo e aos comentários hostis dos que possuíam a espécie que afinal não era a sua. A mãe defendia-o com as unhas que tinha e um dia foi ele que se cansou de estar à defesa e foi-se ao mundo. Encontrei-o ontem na praia, ao entardecer.
Para escrever, eu gosto do entardecer. Para chegar a casa e atirar os sapatos para o lado, também. Para beber chá quente, para ouvir a gritaria das aves, ainda mais. Para soltar o gato, abrir a janela, cheirar a folhagem seca dos pessegueiros, o vazio dos ramos.
Para entardecer, gosto do mar mesmo que chova. Às vezes um pargo, um caranguejo, baleias nem tanto, por isso não me surpreendi de o ver ali, embora peludo. Andava pela beira da água, as patas dianteiras esfregavam as pedras à procura de qualquer coisa. Talvez seja um rato-lavadeiro a quem pintaram a cauda de branco.
Vê lá, não te cortes nos ouriços, disse-lhe eu, assim como quem verdadeiramente diz, vê lá, pareces-me longe de casa.
E olhei em volta, não fossem os cães tardios como nós ladrar-lhe às canelas. Ele saiu da água, sacudiu o pelo e sentou-se ao meu lado. Eu tirei do bolso um punhado de amêndoas que ele comeu levando-as à boca com os dedos. Depois contou-me o que já vos contei e seguiu-me até casa.


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domingo, 5 de novembro de 2017

conto antigo

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Os mais velhos dos muito velhos recordavam-se ainda do grande fogo, não porque tivesse sido maior do que os outros que tinham sofrido, mas porque trouxera consigo um sinal de mudança.
A trovoada rebentara, súbita, forte, seca, desapiedada dos homens, vingativa para com as bestas. Sobre as cabeças há pouco ainda adormecidas, inquietas agora, o intervalo entre o trovão e o relâmpago era nulo e num presságio de desgraça, a eletricidade dos elementos colou-se-lhes à pele e da pele ao medo e do medo ao choro dos recém-nascidos e nos palheiros de pedra cobertos de colmo o fogo ateou, inflamou o que estava apenas entorpecido. A palha dos colchões e das almofadas, as arcas da roupa branca, a mesa da cozinha, o armário dos pratos. O azeite das candeias, as velas de todos os santos. A água dos poços fervia, os cães uivaram três noites, porque o fumo e a cinza não lhes permitiu que se apercebessem do dia e na face esquerda de todos os meninos apareceu uma marca desenhada a quente, a cicatriz da desolação e perguntaram-se, porque é que nos aconteceu isto?
Muitos de entre eles morreram para salvarem quase nada, um livro, um berço, um tambor, um coelho branco, uma ave, um poema de amor.
Na manhã do quinto dia, o desenho das lágrimas vincado nas maçãs do rosto, uma mulher que embalava um sonho, cantou, os homens disseram, endoidou, e a cicatriz na face das crianças começou a desvanecer-se, a purificar-se.
E foram elas que iniciaram a reconstrução. Procuraram as pedras mais leves, inseriram-nas no intervalo dos blocos maiores, taparam os buracos, ergueram paredes e construíram uma pequena torre no cimo da qual hastearam troncos de árvore queimados porque panos não havia.
Foi o princípio da cidadela, da fortaleza que os protegeria das agressões exteriores, porque das que surgem de dentro nunca as saberiam explicar.
A partir dos vértices de um triângulo equilátero, dois virados para o mar o terceiro apontando a terra, construíram pesados muros de pedra ligados por baluartes em forma de estrela. Preservaram as cisternas com tetos abobadados para que a água fosse pura, ergueram celeiros e armazéns e reconstruiram o castelo. Os campos voltaram a ser cultivados, a cinza fertilizou os pessegueiros e as amendoeiras e nas figueiras eram doces os figos lampos.
À volta da cidadela e em todo o seu limite escavaram um fosso, na inutilidade perfeita de um ato que impedindo a entrada de quem agride, reduz a possibilidade de se poder sair.
Pagaram pesados tributos aos senhores de outros reinos, mas não se deixaram abater na inocente intuição de que não existem castigos divinos, mas uma conjugação de elementos com os quais se escreve o destino. Fundiram o ouro e as joias, desnecessários perante o brilho nos olhos das raparigas, nos fios de luar pousados na cabeça dos velhos, nos anelados cabelos das crianças brincos de princesa quando adormecem ao colo do pai.
Foram prósperos os tempos que se seguiram, duas gerações nasceram e outras duas morreram e o dia do grande fogo era sempre celebrado. Hasteavam as bandeiras nas janelas do paço relembrando os meninos da pequena torre, abriam os pesados portões e davam brilho às fechaduras. Vinham malabaristas, saltimbancos e outros artistas, serpentes, águias e cavalos amestrados que depois fugiam num anseio de liberdade e vento.
E os mais velhos dos mais velhos não dormiam e vigilantes ao som das tempestades, continuavam a ouvir a voz da mulher que cantava a noite ardida, parada no tempo à espera do jovem que ela amava antes de o fogo consumir a sua vida.
Muitos outros homens e mulheres se revezaram na construção desta história singular e coletiva, porque uma cidadela é apenas tão somente um coração que pulsa, lançando ou apanhando pedras, vermelho como os vermelhos panos que enfeitam as janelas de um paço, dois passos. 
Esta é a crónica do livro das crónicas que me foi dado ler e recontar. 
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