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sexta-feira, 2 de março de 2018

Plena lua

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domingo, 22 de outubro de 2017

paisagem sem árvores

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domingo, 16 de outubro de 2016

Lua Cheia do primeiro outono: solenes mudanças em Ariès

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domingo, 25 de setembro de 2016

clarificar

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

Tomam-se cinco frascos de vidro transparente, escaldam-se em água a ferver, secam-se com um pano de algodão e colocam-se de cabeça para baixo para escoar qualquer ideia triste. Nas folhas amarelecidas pelo tempo, seguimos a caligrafia antiga, desenhada, a explicar ponto por ponto de caramelo, de estrada ou de cabelo, como se guarda a luz do sol para termos sempre à mão. No primeiro frasco a compota de tomate com um pau de canela. No segundo, a geleia de marmelo. No terceiro, o doce de melão com amêndoa torrada. No quarto, as malaguetas em alho e azeite e no quinto frasco, as ginjas afogadas em aguardente da melhor.
Requerem-se prateleiras arejadas, mas resguardadas, enquanto lá fora tudo parece igual, os ramos, os pássaros, os cães a ladrar, talvez não, aquele arrepio das manhãs.
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domingo, 3 de abril de 2016

ilustração

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Pelos meus olhos,
                                  
o forte da Cruz em noite estrelada



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quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Ana Hatherly

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quarta-feira, 3 de junho de 2015

Pleine Lune

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domingo, 16 de março de 2014

das mesas de domingo

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Falo-te dos jarros das mesas de domingo. Desfazíamos com as mãos as laranjas doces e o sumo escorria pelo antebraço, braço e uma pitada de açúcar e três quartos de vinho tinto, muito gelo e um limão.
Depois matávamos a sede de conversas vadias, de sonhar viagens aos países escaldantes como a febre que nos faz delirar. 
Por cima das nossas cabeças a sombra da árvore e o zumbido dos besouros e o cão grande a pedir afagos.
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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Soleníssima Lua Cheia

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quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Lua Plena

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sexta-feira, 20 de setembro de 2013

A última lua de verão

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quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Luar de agosto

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segunda-feira, 22 de julho de 2013

Casta Diva

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domingo, 23 de junho de 2013

o trema do homem-pássaro

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Construo os poemas no ponto mais alto da minha cabeça, como o cantor coloca a voz esquecendo a garganta e o peito. Depois vou cortando palavras, raramente acrescento, a frugalidade imperfeita.
O homem viaja de pé na carruagem apinhada de gente. Ninguém o ouviu, mas ele não parece importar-se grande coisa. E continua: às vezes desejaria mudar tudo em mim, a roupa, o cabelo, como um pássaro que muda de penas, alterar a rota desta carruagem, desarticulá-la, desmembrá-la. Escrever o impossível.
Foi neste momento que sentiu qualquer coisa na parte detrás da boca, entre a língua e o palato, salivou, engasgou-se, deixou cair uma vogal na palma da mão. Sentiu-se outro.
Quando saiu do comboio era pássaro e tinha um trema no alto da cabeça.
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domingo, 16 de junho de 2013

pernaltas

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A decisão foi delas. Vieram das serras, das lezírias, dos sapais. Dos rochedos junto ao mar, dos promontórios, das ilhas desertas. Dos beirais dos telhados. Grasnaram na periferia da cidade quase deserta, prenhe de farrapos, de escarros à beira dos passeios. Os contentores do lixo ardiam e as paredes pingavam palavras que já ninguém lia.
Juntaram-se na praça mais bonita, ainda verde ainda pardais nos ramos, estorninhos-malhados, gaios, carriças e melros. Uma tapada onde habita a fuinha-dos-juncos, quem sabe.
As aves pisaram a calçada como quem mergulha tarsos no rio e despertaram os habitantes meio adormecidos. Do lado acordado soprou um vento sul e do outro lado soprou-lhes uma vontade de mudar de cor.
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domingo, 12 de maio de 2013

rodando

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Maria é tímida, silenciosa, gosta de pássaros, de poemas serenos e tem um vestido branco de algodão.
Teresa é cruel, insensível, corajosa, os animais deixam-na indiferente, desinquieta os homens e não ama nenhum. Usa um vestido vermelho de seda pura.
Joana é alegre, carinhosa, determinada, o seu vestido é de linho azul e canta ao amanhecer.
As três são fisicamente tão parecidas que apenas se distinguem pela cor dos vestidos e pela tonalidade da voz. Como o voo suave de um pássaro, como cristais de gelo, como a água de um rio.
As pessoas dizem:
-Passou um pássaro.
É Maria.
-Que frio.
É Teresa.
-Bonito este canto.
É Joana.
Nenhuma delas se pode ver ao espelho porque se assusta com o reflexo das outras. Nenhuma delas caminha ao entardecer porque tem medo da própria sombra.
Moram numa casa térrea virada para o mar, com sete portas, sete janelas e um pátio onde em noites de muito calor se deitam no chão a conversar e a olhar as estrelas.
Nesses instantes as suas vozes confundem-se e os cristais de gelo derretem-se, o pássaro voa mais alto e a água do rio galga as margens ou desce suave pelas encostas. O riso abandona o seu esconderijo e dobra-se e desdobra-se a desinquietar.
No roupeiro, os vestidos brancos, os vermelhos e os de linho azul saltam dos cabides, ganham vida, percorrem a casa, sentam-se nas cadeiras, abrem as janelas, fazem bater as portas.
Pela madrugada adormecem as três e de manhã desperta apenas uma.
E veste um vestido preto.
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domingo, 10 de março de 2013

flores da ameixoeira

Nesse dia posou uma ave no mastro mais alto da embarcação, aquele que suportava a vela branca, a do meio, entre a vela cor de salmão e a da cor da areia fina.
Trazia no bico um ramo tenro impercetíveis os rebentos e as folhas delicadas.
E ficou ali calada enquanto as marés obedeceram às luas e os peixes trouxeram espadas, escamas brilhantes, lisas, prateadas e as gaivotas guincharam a ousadia da outra, frágil, leve, habitante da terra desconhecedora de correntes quentes ou frias.
O homem que amava o barco como se fosse a sua casa, a cama, a janela e a mesa da cozinha, olhou a ave, a nuca colada aos ombros, a mão direita sobre os olhos porque o sol ardia e estendeu o braço esquerdo e disse-lhe, se tens sede desce até aqui, se é fome o que sentes, reparto contigo os grãos que guardo no porão, centeio, milho, trigo-sarraceno. Ele dizia sempre, trigo- sarraceno, gostava da palavra, da ideia da palavra. Sabia que não era um grão mas a semente de um fruto, triangular, como o sinal da cruz.
E continuou, os olhos postos na ave, os olhos da ave postos no homem,
eu às vezes também fico assim suspenso como tu, com um objetivo preciso e sem que os outros entendam qual é ou imaginem sequer o que possa ser. Há muita forma de estar calado tendo tanto para dizer e eu tenho mais anos do que este meu barco e no instante em que percebi que a velhice é um sobejo da vida e reservada está apenas uma cadeira, sempre a mesma, para quem é velho e triste, fiz-me ao largo e jamais me arrependi.
Porque encantatória é a voz de um homem bom, a ave cedeu. Deixou o mastro, completou três voltas à roda do barco e o homem rodou com ela e disse, princesa! Ela cerrou as patas e as unhas e equilibrou-se no seu ombro, o ramo bem preso no bico anilado.
Ele lançou uma rede e pescou alguns peixes, dividiu-os entre si e as gaivotas enciumadas. Varreu e lavou o convés, estudou os mapas e as rotas e por fim descansou. No horizonte, vénus a estrela da manhã que é também a estrela da tarde e a ave ao ombro.
Então ela largou o ramo tenro impercetíveis os rebentos e as folhas delicadas. Ele colocou-o num copo com água fresca e ambas beberam, a ave e a planta e esta cobriu-se de pequenas flores brancas.
O homem sentiu saudades do cheiro dos pátios de uma cidade e disse,
amanhã procuro-te terra firme nesse lugar do sul onde dormem as princesas, mouras, sarracenas, presos os cabelos com ramos tenros e flores de ameixoeira.
Junto da quilha seguiam agora dois golfinhos e um cardume de peixes lua e anilado o bico da ave e esta piou.
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domingo, 24 de fevereiro de 2013

pele de urso

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Não fora o vermelho vivo das papoilas, ficaria por aqui a hibernar resmungos. Um chá preto com um farrapo de leite e uma margarida para molhar. As madalenas não me pertencem. Os livros seriam sete e quando terminasse, recomeçaria outra vez. É uma busca que gosto de fazer, íntima, silenciosa, afetiva. Como os habitantes dos velhos hotéis de praia, o mar gelado, o riso das raparigas, as intrigas. Vestiam-se a rigor para o jantar. Eu também, disse o urso e emprestou-me a pele para eu me esconder. Escondi-me.
Leio-lhe em voz alta para ele entender a raridade de alguns humanos.
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sábado, 26 de janeiro de 2013

Último esplendor da lua cheia de janeiro

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domingo, 20 de janeiro de 2013

um pouco mais claro apenas

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Do outro lado da cidade morava um rapaz sozinho. Como a cidade era redonda ninguém sabia exatamente onde morava o rapaz.
Todos os dias atravessava a ponte, a estrada, o jardim, a rua ensolarada. Abria as portas do café onde trabalhava, enfiava pela cabeça um avental preto com um arranha-céus ao peito e sentia as pernas leves e a cabeça no lugar e na cozinha batia farinha, ovos, açúcar e chocolate, uma noz de manteiga. Depois a massa do bolo crescia em grandes tabuleiros e do forno fugia um cheiro bom que acordava nas pessoas uma vontade de beber três chávenas de café e entrelaçar cinco dedos de conversa. Apressava-se de mesa em mesa e os guardanapos de papel eram verdes alface que ia bem com o castanho chocolate e as chávenas pretas café e de cada cliente sabia o nome próprio, que é aquele nome que umas vezes vai bem connosco e a maior parte das outras, não.
Às oito horas em ponto ela atravessava a praça e a calçada ziguezagueava, as pedras assentes irregularmente sabiam da regularidade do andamento acelerado, uniforme era a cor do céu e os pássaros cantavam. O coração do rapaz batia mais forte e o equilíbrio entre o tabuleiro e as chávenas, perigosamente instável. Ela, não via nada. A saia esvoaçava, o cabelo de fogo a arder ao sol da manhã, as leggings pretas e pretos os sapatos e o casaco tal e qual o café. A rapariga da bicicleta azul atravessava a praça e o tempo parava.
No peitilho do avental o arranha-céus inclinava-se para a direita e na curva apertada virava à esquerda e metia água. As pessoas perguntavam, o que foi?
O rapaz entrelaçava cinco dedos de esperança e respondia, não foi nada.
Mas numa manhã azul ela travou, encostou a bicicleta a uma cadeira da esplanada e pediu, por favor quero um pão de sementes de sésamo com geleia e um sumo de maçã.
O rapaz sentiu a cabeça fora do lugar, respondeu, faça o favor de se sentar e correu para a cozinha, tremeu, chorou, deitou chocolate pelos olhos, pesou o fermento e a farinha, um pouco de água e sal, amassou, gritou, abre-te sésamo! e no forno o pão cresceu e estalou.
Na praça não existia mais ninguém, apenas o rapaz, a rapariga a trincar pão fresco e reineta era a maçã. Ele disse, com licença, tenho vinte anos e sentou-se ao pé dela. O arranha-céus aguentou firme. Eu também não tenho tempo para pessoas cinzentas, respondeu a rapariga e deram uma gargalhada. Os guardanapos verdes levantaram voo, abriram-se, fecharam-se, pousaram feitos folha nos ramos das árvores e pela calçada.
A rapariga da bicicleta azul morava no centro da cidade e tudo ia bem com ela.
  
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