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domingo, 21 de dezembro de 2014

Solstício de Inverno de 2014

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domingo, 26 de janeiro de 2014

brilhante

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas


Era o mais belo. As patas traseiras bem assentes no chão, as dianteiras levantadas numa atitude de desafio, coxas firmes e musculadas, as narinas abertas num resfolegar de alegria, os olhos ternos e mansos a pedirem afagos, as crinas esvoaçando mal o vento soprasse.
O pelo era liso e brilhante e nas noites de lua cheia todos sabiam onde ele estava, tal o reflexo que emitia, como um copo de cristal em festa de reis confundido com o brilho dos lustres.
Os arreios não lhe pesavam, fixos, firmes no seu pescoço de raça e tilintavam ao som da música, compasso binário de uma polca cantada, sempre a mesma toada.
As pessoas diziam, que bonito e os meninos gritavam, Brilhante eu só quero o Brilhante. Lutavam entre si para o montar e zangavam-se e choravam e as mães diziam, não chores, vem cá, vamos comer algodão doce e andar no comboio fantasma. Mas as crianças tinham medo dos fantasmas e do comboio, temiam as suas curvas perigosas, o escuro imenso dos seus túneis, os estranhos esqueletos vestidos de teias de aranha e os sopros sinistros que vinham do nada. Sentiam a magia daquele companheiro de viagens, ouviam o seu sussurrar, as histórias que lhes contava entre passos e trotes, galopes e voos, sempre a rodar.
E quando por fim pela madrugada os sons se calavam, as luzes esmoreciam e um vento ligeiro arrastava as folhas e os papéis pelo chão gelado, Brilhante fechava os olhos e sonhava partir à desfilada pelos caminhos pedregosos, o mais veloz, o mais temerário de todos os cavalos.
Todos os anos os meninos voltavam, mais crescidos uns, mais feios outros, mais brigões, mais chorões e voltavam os meninos desses meninos e um dia, Brilhante, já não sabia que dia era esse, sentiu um peso no peito e as patas traseiras tremeram no chão e alguém disse, está sem cor este cavalo e ele pensou aflito, serei eu? e a polca tocava e como era monótona a polca e o seu coração bateu mais forte, tão forte, galopava em vez dele, chamava-o não sabia porquê e ele parado, cansado e triste percebeu como era redonda a sua caminhada e como o primeiro a chegar era sempre ele, porque na roda redonda não há princípio nem fim. 
E nessa noite, no seu sonho de todas as noites, Brilhante libertou as patas traseiras ainda agora assentes no chão, agitou as patas dianteiras desafiando o vento, coxas firmes e musculadas, as narinas abertas sedentas de aventura, os olhos ternos e mansos buscando o infinito e soltando-se num galope doido, relinchou três vezes, o mais veloz, o maistemerário de todos os cavalos.
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sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Montana's Tom Miner Basin

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domingo, 11 de novembro de 2012

aos domingos




Era um coelho triste. Gostava de cenouras e de poemas satíricos. Morava no último andar de um prédio antigo de frente para o rio e do outro lado a banda de lá onde já não existem os estaleiros e a linguagem perdida dos guindastes é apenas a memória de um livro que se leu.

Ninguém entendia como é que sendo ele triste, não preferia os poemas de amor, profundos, impossíveis. Um coelho apaixonado pela filha de um rei daria um poema épico e ele poderia chorar desesperado e chorariam com ele as senhoras sós que saíam à rua sós, os lábios desenhados sós, as rugas a espreitar enganos sós. Ou os jovens fumadores cigarro após cigarro, os dedos amarelados, a tosse no sótão, o veneno engolido em desespero de causa, o passado sempre o passado. Não. O coelho era mordaz, sentia o riso difícil, labiríntico e em tempos de complexidade, melhor será sermos complexos do que simplistas, ter graça requer mais talento do que fazer chorar.

Na varanda plantava coentros, cenouras e couve-galega. Pelo meio cresciam papoilas. Não podia tocar em alface, fazia-lhe mal e no inverno agasalhava-se em si próprio e ia para o jardim das amoreiras roer a casca das árvores. Sempre aos saltos e isso aborrecia-o, o coelho desejava saber andar.
No primeiro direito morava um rapaz que tinha um aquário com um peixe-palhaço e eram amigos os dois, o rapaz e ele. À tardinha o rapaz batia-lhe à porta com o aquário debaixo do braço, o gato branco e preto sempre atrás deles, alucinado com o peixe, o peixe a fazer glu. Depois sentavam-se na beirinha do telhado, o rapaz com as pernas para fora, o aquário em equilíbrio e o gato agora distraído com o voo das andorinhas a fazerem raseiras na cabeça dos anjos. Tirava duas cenouras do bolso das calças, dava uma ao coelho e dizia, lê-me os poemas. E o coelho lia. O rapaz sorria e a seguir ria e dobrava o riso, mordaz e perdido. Às vezes ficavam com soluços os dois e as pessoas vinham à janela ao entardecer e o riso contagiava as varandas e os olhos dos velhos.

Aos domingos o coelho prendia uma papoila ao peito e dizia, vamos viajar.

                                Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

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