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quarta-feira, 6 de julho de 2016

Diário do Marcelo - Silvo da sonda Juno, ao atravessar a atmosfera de Júpiter

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sábado, 9 de janeiro de 2016

Ecce Homo

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sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Ison

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domingo, 22 de setembro de 2013

equinócio


No último dia de praia são sete as ondas altas e depois um sossegar. Contam-se pelos dedos para não confundirmos areia e sal.
Guardamos então o peixe miúdo num lugar escondido quem sabe num livro ou na caneca do café que acordará connosco nas manhãs sem pássaros, quando chover.
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sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Voyager: a caminho do Infinito, pela estrada da Eternidade

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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Orion

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domingo, 3 de fevereiro de 2013

raiar

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas



Marcamos uma linha, um traço. De um lado terra do outro mar. Fronteira é o risco.
O horizonte também é uma linha e pode ser perspetivado ou racional.
Construiu o mais simples, uma estrutura de canas em forma de losango, papel de seda amarelo torrado, círculos azul cobalto. Foi cuidadoso com a corda e o carreto e acrescentou uma cauda para estabilizar.
Disseram-lhe, não voa, vai cair, enrolar. Ele não ouviu. As pessoas falam sempre demais.
Encontrado o equilíbrio entre a força do vento e a da corda aguentou-se no ar, subiu, desceu, volteou, raiou as cabeças das crianças na beira das ondas, estalou ao mudar de direção.
Foi assim o tempo que ele quis, o papagaio estrela, a corda e a perícia dos dedos. Uma eternidade. Depois num impulso, largou-o, soltou-o e antes do mergulho brilhou sobre o mar.
Os peixes-serra e os ratões olharam desconfiados aquele ser nem pássaro nem peixe tal qual os que disseram, não sabe nadar, afoga-se. Na ignorância do que falavam, estabilizou as cartilagens, consolidou a cabeça e as barbatanas, chicoteou a cauda, serenou uma curva em corrente descendente e deixou-se ir na amplitude da água.
Lá no fundo dois ou três grãos de areia trocaram de lugar.
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domingo, 20 de janeiro de 2013

um pouco mais claro apenas

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas



Do outro lado da cidade morava um rapaz sozinho. Como a cidade era redonda ninguém sabia exatamente onde morava o rapaz.
Todos os dias atravessava a ponte, a estrada, o jardim, a rua ensolarada. Abria as portas do café onde trabalhava, enfiava pela cabeça um avental preto com um arranha-céus ao peito e sentia as pernas leves e a cabeça no lugar e na cozinha batia farinha, ovos, açúcar e chocolate, uma noz de manteiga. Depois a massa do bolo crescia em grandes tabuleiros e do forno fugia um cheiro bom que acordava nas pessoas uma vontade de beber três chávenas de café e entrelaçar cinco dedos de conversa. Apressava-se de mesa em mesa e os guardanapos de papel eram verdes alface que ia bem com o castanho chocolate e as chávenas pretas café e de cada cliente sabia o nome próprio, que é aquele nome que umas vezes vai bem connosco e a maior parte das outras, não.
Às oito horas em ponto ela atravessava a praça e a calçada ziguezagueava, as pedras assentes irregularmente sabiam da regularidade do andamento acelerado, uniforme era a cor do céu e os pássaros cantavam. O coração do rapaz batia mais forte e o equilíbrio entre o tabuleiro e as chávenas, perigosamente instável. Ela, não via nada. A saia esvoaçava, o cabelo de fogo a arder ao sol da manhã, as leggings pretas e pretos os sapatos e o casaco tal e qual o café. A rapariga da bicicleta azul atravessava a praça e o tempo parava.
No peitilho do avental o arranha-céus inclinava-se para a direita e na curva apertada virava à esquerda e metia água. As pessoas perguntavam, o que foi?
O rapaz entrelaçava cinco dedos de esperança e respondia, não foi nada.
Mas numa manhã azul ela travou, encostou a bicicleta a uma cadeira da esplanada e pediu, por favor quero um pão de sementes de sésamo com geleia e um sumo de maçã.
O rapaz sentiu a cabeça fora do lugar, respondeu, faça o favor de se sentar e correu para a cozinha, tremeu, chorou, deitou chocolate pelos olhos, pesou o fermento e a farinha, um pouco de água e sal, amassou, gritou, abre-te sésamo! e no forno o pão cresceu e estalou.
Na praça não existia mais ninguém, apenas o rapaz, a rapariga a trincar pão fresco e reineta era a maçã. Ele disse, com licença, tenho vinte anos e sentou-se ao pé dela. O arranha-céus aguentou firme. Eu também não tenho tempo para pessoas cinzentas, respondeu a rapariga e deram uma gargalhada. Os guardanapos verdes levantaram voo, abriram-se, fecharam-se, pousaram feitos folha nos ramos das árvores e pela calçada.
A rapariga da bicicleta azul morava no centro da cidade e tudo ia bem com ela.
  
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domingo, 13 de janeiro de 2013

o pássaro do coração

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas




Hoshi abriu a túnica, retirou do peito o tecido dobrado em quatro, pegou em duas pontas e soltou-o. O pássaro pintado era tão real e tão belo que o velho Haru deu um grito de espanto. Nunca tal vira e sabia de antemão que não seria capaz de reproduzir uma ave assim e se isso viesse a acontecer correria o risco de replicar o irreplicável, de tocar o intocável, de agitar o que jamais deveria ser agitado.
Mas os olhos de Hoshi brilhavam de alegria e tão simplesmente lhe contava dos trezentos e vinte cinco panos guardados no cesto de vime e das moedas que juntara para os comprar e de como seria bom se todos os habitantes da sua aldeia tivessem um pássaro raro a ondear nas janelas, que Haru, o pintor a quem os deuses bafejaram as mãos com um dom inigualável, calava-se e calando consentia num sonho mais alto que as montanhas geladas a norte da sua casa.
Hoshi era jovem, impulsivo, corajoso e generoso. Haru era velho, bondoso e talentoso e no pátio brotou um segundo rebento de cerejeira e ele ousou dizer sentindo o coração descompassado: temos sete dias para transformar os teus panos e outras tantas noites para soltar os teus pássaros. Aprenderás tu a pintá-los, porque se as tuas mãos calejadas fazem crescer os arrozais e penetrar na terra o arado, também se transformam em veludo quando acaricias a cabeça do teu cão.
No primeiro dia madrugaram e atravessaram as florestas de tílias, a ponte sobre o rio gelado. Colhiam pedaços pequenos dos ramos mais frágeis e com um canivete afiado faziam os cabos dos pincéis, as cerdas de marta. Pediram conselho aos monges que conheciam os segredos dos corantes naturais e da textura das sedas e aprenderam a esticar os panos em esquadrias de madeira. Ao entardecer eram quatro as crianças que os seguiam e quando o sol se escondeu no horizonte, entraram no pátio doze rapazes e dez raparigas ansiosos por aprender a arte dos tecidos.
Nessa noite ficaram mais leves os sacos de arroz na despensa de Haru na proporção inversa ao ânimo que sentia.
Ao segundo dos dias o galo cantou e nas cozinhas as avós fritaram bolinhas de carne e de arroz e prepararam taças de chá verde e sopa de Miso.
O açafrão, a terra, o barro, as ervas esmagadas, a gema dos ovos. E os tecidos resplandeciam.
No terceiro, quarto, quinto e sexto dia eram tantas as crianças sentadas em silêncio junto ao pátio de Haru que este se assustava perguntando como é que eu aqui cheguei e eles comigo?
Todas as noites Tsuru o pássaro, largava o tecido que habitava e voava sobre as cabeças adormecidas. Fazia rir as crianças nos seus sonhos, desinquietava os jovens, soprava telas e tintas nos cabelos brancos de Haru e transportava Hoshi nas suas asas até ao reino dos peixes e das baleias brancas onde ele nadava nu como só ele sabia.
Na tarde do sétimo dia caiu a flor da cerejeira e todos os panos de seda secavam ao sol, mas em nenhum deles se via um pássaro de longo bico como Tsuru. Uma criança reconhecendo o tecido que pintara, gritou, essa é a minha mãe! e todas as outras, a casa do meu avô, a escola, o rio, a ponte, o céu, o cume da montanha.
Não se desiludiram nem entristeceram os dois homens e Hoshi disse, é tempo de eu partir. Esperam-me os arrozais, o búfalo, o arado, a minha casa, a minha aldeia e os meus amigos e a cada um darei um tecido de seda pura.
É tempo de eu ficar, disse Haru, retomar a ciência das minhas mãos e manter aberta a porta da minha casa. Não me esqueças.
Não te esquecerei, respondeu Hoshi e dobrou os tecidos magnificamente pintados e tingidos e voltou a guardá-los no cesto de vime. Depois chamou o cão, abraçou Haru e colocou junto do coração o pássaro de seda.
Gélida era a noite mas nos olhos do homem liam-se as estrelas.
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