Era um coelho triste. Gostava de cenouras e de poemas
satíricos. Morava no último andar de um prédio antigo de frente para o rio e do
outro lado a banda de lá onde já não existem os estaleiros e a linguagem
perdida dos guindastes é apenas a memória de um livro que se leu.
Ninguém entendia como é que sendo ele triste, não
preferia os poemas de amor, profundos, impossíveis. Um coelho apaixonado pela
filha de um rei daria um poema épico e ele poderia chorar desesperado e
chorariam com ele as senhoras sós que saíam à rua sós, os lábios desenhados
sós, as rugas a espreitar enganos sós. Ou os jovens fumadores cigarro após
cigarro, os dedos amarelados, a tosse no sótão, o veneno engolido em desespero
de causa, o passado sempre o passado. Não. O coelho era mordaz, sentia o riso
difícil, labiríntico e em tempos de complexidade, melhor será sermos complexos
do que simplistas, ter graça requer mais talento do que fazer chorar.
Na varanda plantava coentros, cenouras e couve-galega.
Pelo meio cresciam papoilas. Não podia tocar em alface, fazia-lhe mal e no
inverno agasalhava-se em si próprio e ia para o jardim das amoreiras roer a
casca das árvores. Sempre aos saltos e isso aborrecia-o, o coelho desejava
saber andar.
No primeiro direito morava um rapaz que tinha um aquário
com um peixe-palhaço e eram amigos os dois, o rapaz e ele. À tardinha o rapaz
batia-lhe à porta com o aquário debaixo do braço, o gato branco e preto sempre
atrás deles, alucinado com o peixe, o peixe a fazer glu. Depois sentavam-se na
beirinha do telhado, o rapaz com as pernas para fora, o aquário em equilíbrio e
o gato agora distraído com o voo das andorinhas a fazerem raseiras na cabeça
dos anjos. Tirava duas cenouras do bolso das calças, dava uma ao coelho e
dizia, lê-me os poemas. E o coelho lia. O rapaz sorria e a seguir ria e dobrava
o riso, mordaz e perdido. Às vezes ficavam com soluços os dois e as pessoas
vinham à janela ao entardecer e o riso contagiava as varandas e os olhos dos
velhos.
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