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sexta-feira, 9 de novembro de 2018

O Alexandre Frota, o "kit-gay" de Bolsonaro, um produto francamente fora de prazo, "ator pornô viciado em cocaína" (como muitos dos membros das nossas bancadas parlamentares), foi eleito deputado federal de São Paulo, pela coligação neofascista PSL, e a primeira coisa com que quer acabar é com os Direitos Humanos, e faz muito bem, primeiro, por que, depois de mais de 200 anos, estão velhos e fora de moda, e depois, por que, por usucapião, há cada vez mais gentinha no Mundo a usar e abusar desse privilégio, o que é mau, num planeta onde a gentinha prolifera e os recursos se tornaram realmente escassos...



Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

A manter-se este nível de consumo, em 2030 já não haverá direitos humanos suficientes em toda a Terra, e ainda bem, por que precisamos muito mais dos direitos do Frota
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terça-feira, 4 de outubro de 2016

Diário do Saraiva - Pronto, já está, aí vem o João Dória: IURDs e trumps ganham o Rio e São Paulo

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terça-feira, 10 de maio de 2016

Diálogo entre um ateu e um religioso





- É verdade que você não acredita em Deus???
- É.
- Como você pode falar uma coisa destas???
- Você acredita em Deus?
- Claro que acredito, nem brinca com uma coisa destas!!!
- Então quem deve explicações é você, não eu.
- Meu Deus do céu, menino, como você pode falar uma coisa destas!!!
- Bem, eu estou ocupado no momento...
- Por que você não acredita em Deus??? Estou chocado!!!
- Por culpa dos assassinos de crianças. Um psicopata entra numa escola, mata vinte crianças e Deus está onde?
- Você já ouviu falar do livre arbítrio?
- Então Deus não serve para nada. Ou se ele existe, é um sádico, que não se importa com crianças sendo assassinadas ou mortas de câncer.
- Meu Deus do céu, você precisa rezar!!!
- Me deixa em paz!
- Então vou te fazer uma pergunta: quem criou o mundo?
- Ninguém.
- Como ninguém? Tudo que existe foi criado por alguém. O mundo é tão perfeito que ele só pode ter sido criado por alguém.
- Deus também criou o nazismo que matou seis milhões de pessoas?
- Os maiores cientistas do mundo acreditavam em Deus.
- Isso não prova que Deus existe.
- Você só é ateu até estar num avião caindo. Quando o avião começar a cair, vai gritar por Deus.
- Isso não prova que Deus existe.
- Tem que ir na igreja e ver cada milagre que Deus faz.
- Deus nunca fez milagre nenhum. Jesus curava cegos, fazia paralíticos voltarem a andar. Ninguém nunca viu qualquer destes milagres dentro de uma igreja. Para que um pastor de televisão precisa de um tradutor de linguagem de sinais? Ele não seria capaz de curar os surdos?
- Você não entende os mistérios da fé.
- A fé é a coisa mais idiota do mundo. Como pode existir um Deus que só ajuda alguém que acredita demais nele, mas não ajuda alguém que acredita muito, mas não acredita o suficiente? Que raio de Deus sádico e louco é este?
- Como pode pessoas sem religião serem boas?
- Como pode pessoas com religião serem más? Entre religiosos há toda sorte de assassinos, criminosos, pessoas maldosas, preconceituosas, egoístas, hipócritas, sem contar com os que são internados em manicômios.
- Só através da religião uma pessoa se cura de seus vícios.
- Eu conheci um cara religioso que foi internado 42 vezes.
- A fé dá a uma pessoa a força para seguir em frente.
- Talvez você me explique porque nos países ateus existem menos casos de suicídio e existam mais casos de suicídio no mundo nos países mais religiosos.
- Vai dizer que você também não acredita em alma e que não vamos para o paraíso depois  que morremos?
- Não existe alma. Ninguém nunca morreu e voltou para dizer o que tem depois da morte. A não ser que você acredite em textos psicografados. Só que ninguém nunca psicografou uma peça escrita por Shakespeare nem uma ópera escrita por Mozart.
- Qual é a graça da vida então se não existe mais nada além disso?
- Se você não acha graça na vida, eu só tenho a lamentar. Essa é a diferença entre um ateu e um religioso. Você espera morrer para ir a um paraíso, enquanto vive uma vida hedonista, tomado por prazeres terrenos inconseqüentes, enquanto os ateus gostariam que a Terra fosse um paraíso, porque não existe qualquer prova de que haja algo a mais além disto que nós chamamos de vida.
- É o Diabo colocando estas palavras na sua boca.
- Por que Deus não mata o Diabo?
- Por que a maldade dos homens não deixa.
- Por que Deus permite que os homens sejam maus?
- Porque existe livre arbítrio.
- De novo vem com essa conversa de livre arbítrio?
- Não vou falar mais com você, você é muito ignorante.

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sexta-feira, 29 de abril de 2016

Ricos são bonzinhos?




Além do fascismo, o que catorze anos de um governo de esquerda mergulhado em escândalos de corrupção e grave crise econômica gerou foi a reabilitação dos ricos.

        Vi pessoas pobres elogiando os ricos, considerando-os os responsáveis pelo desenvolvimento da sociedade. Ricos são aqueles que geram emprego e renda. Os países mais desenvolvidos do mundo são ricos e capitalistas, enquanto os países mais pobres da África são aqueles que foram governados por comunistas.
        Já vi ricos falando isto a vida inteira. Mas por que há pessoas pobres falando isto? Como eu disse, é uma reação natural ao governo de esquerda. Tudo que é de esquerda é o mal. Tudo que é de direita é o bem. Sempre é lembrada a frase de Tim Maia: “No Brasil, prostituta se apaixona, traficante é viciado e pobre é de direita”. Ser de direita também significa considerar que os ricos são bonzinhos.
        Mas será que os ricos são bonzinhos mesmo?
        Não sou economista, nem historiador, nem sociólogo, mas vou dar minha opinião pessoal.
        Quem foi o primeiro rico do mundo? Haviam reis, donos de terras e donos de escravos e os ricos geraram profunda divisão social até o século 20. Foram milhares de anos em que rico nenhum foi bonzinho.
        No século 19, a revolução industrial acentuou as desigualdades sociais. Nas fábricas, os operários começavam a trabalhar ainda crianças e permaneciam dezesseis horas no ambiente de trabalho, a troco de migalhas.
        Quando os primeiros trabalhadores e trabalhadoras começaram a se revoltar contra as condições de trabalho, foram recebidos com a morte.
        Só no século 20, a situação começou a melhorar em países do primeiro mundo. O trabalhador começou a receber melhores salários, obter uma jornada de trabalho menor, entre outros benefícios.
        No terceiro mundo, porém, as condições dos trabalhadores continuaram iguais.
        Uma empresa multinacional pode em seu país de origem como Estados Unidos, Alemanha, Espanha, Portugal, pagar salários excelentes, mas no terceiro mundo explora os trabalhadores como sempre foram explorados. Uma empresa pode pagar 12 euros por hora a um trabalhador na Europa, mas paga 1 euro por hora no Brasil, mesmo que o lucro no Brasil seja maior do que o lucro na Europa.
        Existe uma conspiração no terceiro mundo para que o salário mínimo não fique parecido com o do primeiro mundo. Conspiração que envolve empresários e governos. Um governante supostamente de esquerda se elege e não tem coragem de aumentar o salário mínimo. As populações do terceiro mundo não se organizam em prol de uma greve geral por tempo indeterminado, exigindo que o salário aumente. Pelo contrário, o grevista é considerado um vagabundo, baderneiro. O objetivo do pobre não é lutar para melhorar o seu salário, mas jogar na loteria para ficar rico. E quando ficar rico, vai pagar salário mínimo a seus funcionários domésticos.
        Os capitalistas gostam de dizer que o empresário gera riqueza. Gera trabalho e desenvolvimento. Por qual motivo uma cidade grande é tomada por favelas, pessoas miseráveis, poluição de córregos e rios, criminalidade? isso acontece porque além do desenvolvimento e riqueza, o capitalista também gera desigualdade social. Se os ricos fossem bonzinhos, construiriam casas para os trabalhadores e não poluiriam rios. Dariam escolas para os filhos dos trabalhadores. Mas eles dizem que o responsável por tudo isso é o governo, ao mesmo tempo em que não querem pagar impostos. Ou seja, esperam por milagres.
        A sociedade como um todo, em qualquer parte do mundo, considera que ficar rico é um merecimento ou uma sorte. Que a pobreza é um estágio natural da humanidade. Todo mundo já foi pobre, até miserável, e, graças a seu esforço pessoal, ficou rico. Ninguém gosta de dizer que isso não é verdade, que ficar rico é uma exceção e que a maioria das pessoas veio ao mundo para viver a vida normalmente, tranquilamente, ganhando o pão de cada dia.
        Todo mundo deveria ter o direito de ter sua casa, seu carro e um salário razoável para viver tranquilamente. Não é assim que funciona no primeiro mundo? Porque a população do primeiro mundo é mais especial que a do terceiro mundo? Por que somos inferiores?
        É interessante também lembrar da influência da religião sobre a pobreza. Houve um tempo em que se considerava que o reino de Deus era dos pobres. Então era bonito ser pobre. Hoje, mudou. Hoje é a teologia da prosperidade. O reino de Deus é dos ricos e ter dinheiro é uma questão de fé de merecimento religioso. Mas Deus não vai deixar ninguém rico. No entanto, acho muito mais interessante que uma pessoa acredite que não existe pecado em ser ter dinheiro. Chego a acreditar que muitos poderosos, no passado, utilizavam a desculpa de que o reino de Deus era dos pobres para poder ficar com todo dinheiro. De fato, isso já aconteceu com profetas que previram o fim do mundo e ficaram com todo o dinheiro dos crentes.

 
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segunda-feira, 25 de abril de 2016

Cabelos vermelhos

Não aguento seus cabelos vermelhos.
Como é possível não falar com você?
Como é possível não contemplar sua foto só de sutiã preto e calcinha vermelha
E ser coberto por minha própria porra,
Quando deito em minha cama, de madrugada,
Já tomado os meus remédios.
Antidepressivos e etc,
Pensando que já está quase amanhecendo
E durmo praticamente no chão,
Porque esse colchão tem a espessura de uma bolacha,
Mas nem ligo mais.
Gosto de saber que não tenho hora para acordar
Nem tenho nada para fazer,
Mesmo tendo.
Teria que procurar emprego em São Paulo,
Bater de restaurante em restaurante,
Até achar um que me pagasse o suficiente
Para viajar e ficar te vendo de longe,
Fumando cigarros e maconha
E sei que você depila sua vagina e ela não tem pelinho nenhum.
Sei que eu quis chupar uma vagina sem pelo nenhum,
Mas não pude porque era hora de trabalho
E eu não abuso de colega de trabalho.
Embora não me importe em ser abusado por elas.
Já fui abusado por pessoa da minha família,
Muito tempo atrás
E esta pessoa quis desenvolver um relacionamento comigo
E eu sempre fui muito ético, não ganhando nada com isto.
E as pessoas falam em Deus.
Que não existe.
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domingo, 10 de abril de 2016

Brasil a caminho do fascismo

Não sei como as notícias estão chegando aí em Portugal. O Brasil parece estar a um passo de se tornar um país fascista. Como uma rejeição a 14 anos de um governo de esquerda mergulhado em escândalos de corrupção e crise econômica. Exatamente como estava a Alemanha, à época da ascensão do nazismo. Muita gente bacana está voltada à direita. Muita gente (incluindo leitores brasileiros deste blog) também defendem o impeachmant da presidente Dilma e a prisão do Lula, mesmo não havendo provas de que Dilma ou Lula cometeram crime. Lula sequer é réu em qualquer processo. É réu apenas nos meios de comunicação. Mas não tenho pena de Dilma e Lula. Acredito que eles fizeram por merecer. Quando se vende a alma ao Diabo, uma hora o Diabo vem cobrar sua alma. Para chegar a presidência da república, Lula aliou-se à direita, aliou-se a políticos corruptos. Deu no que deu. O mais triste, no entanto, é ver a manifestação de extrema direita que faz barulho como reação ao governo de esquerda mergulhado na corrupção (sem falar na crise econômica). Não basta dizer que é preciso derrubar o governo e prender o Lula. É preciso falar mal de nordestinos, negros, pobres, homossexuais. E não são é só gente da elite branca que faz esse tipo de manifestação. São intelectuais, gente do teatro, da música (como no nazismo...). Muitos pedem um golpe militar ao passo que um dos candidatos mais populares é o militar de extrema direita Bolsonaro, que têm milhões de fãs. Um tipo destes pode se eleger presidente nos próximos anos. É notório também o grande crescimento das igrejas evangélicas no Brasil, que elegem muitos políticos. Por algum motivo, as igrejas evangélicas são representadas por elementos reacionários e corruptos, como o presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha, que ninguém consegue tirar de lá. Vocês devem ter ouvido falar do juiz que tentou prender o Lula e divulgou grampos telefônicos realizados entre ele e seus advogados ou entre ele e a presidente. Este é um sinal do que está acontecendo no Brasil. A democracia está frágil. Acompanhem o noticiário, porque muita coisa ainda vai acontecer. Acredito que Dilma será deposta.
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segunda-feira, 6 de abril de 2015

O Nada - VI

Quando 1988 começou, eu estava decidido a voltar a fazer um curso técnico. Achava-me velho para terminar o segundo grau sem profissão, porque até terminar a faculdade, iria levar uma eternidade. Nem arrisquei a procurar emprego, porque aos 17 anos, os empregadores temeriam que eu pudesse ser convocado para o serviço militar. E a ideia de servir ao exército me apavorava a ponto de não me deixar dormir. Imaginei uma estratégia: dizer que eu tinha os joelhos estourados. De fato, durante a maior parte da minha juventude, senti fortes dores nos joelhos provocadas por torções em aulas de educação física e também por um motorista de ônibus ignorante que bateu a marcha no meu joelho, pois eu tinha dormido no primeiro banco e meu joelho acabou servindo de obstáculo para o cidadão trocar as marchas. Ao invés de simplesmente me acordar, ele preferiu bater com o câmbio no meu joelho e eu quase morri de dor. Como resultado, passei anos freqüentando ortopedistas e fisioterapeutas. Não seria motivo para deixar de servir ao exército, muito pelo contrário, mas eu seria capaz de aparecer no quartel até mancando. Quem sabe até com uma bengala. Tentei estudar violão. Entrei no Conservatório Tucuruvi, num dia de mau humor. A recepcionista perguntou do que eu era descendente e eu falei “Sei lá”, de tanto que eu odiava – e odeio – que me façam essa pergunta. O professor prático passou a aula inteirinha afinando meu violão e falando coisas que eu não consegui entender, enquanto o professor teórico não me deu a menor atenção. Só fui na escola um dia. Depois, arrependi-me de tentar aprender violão e não guitarra. Mas iria sair daquela merda de escola do mesmo jeito. Fui estudar na puta que pariu de novo. Entrei no Colégio Comercial Álvares Penteado, que ficava no mesmo prédio que a FECAP. Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado. Bairro da Liberdade. Dei uma olhada no folheto de cursos e verifiquei que se fizesse curso técnico de publicidade, poderia trabalhar em cinema. Assim estava escrito no folheto. Difícil era acordar às 5h da manhã. Justo eu que às 5h da manhã estava indo dormir. Mas fui. Não gostei dos alunos logo de cara. Nem dos professores. Achei os alunos um bando de playboyzinhos metidos. Nunca vi tanta gente blasé junta na mesma escola. Achei que não iria fazer nenhum amigo nunca. E os professores me pareciam aquele tipo de profissionais que não conseguem arranjar emprego em nada, então vão dar aulas. Para piorar a situação, eu estava vivendo um grande período oscilante entre anarquismo e comunismo e comecei a achar que a ideia de fazer propaganda para filhos da puta capitalistas não era lá muito interessante. Mas o que me desagradou mais na publicidade foi o fato de não ser uma arte. Havia uma tal quantidade de regras a ser seguidas que eu me perguntava por que raios uma pessoa resolvia se tornar publicitária. Então apareceu um demente em minha vida. Um cara metido a diretor de cinema, que também estava fazendo publicidade pelo mesmo motivo que eu. O cara grudou no meu pé e me convidou para fazer um filme com ele. Cheguei a ir à casa dele para começar a escrever o roteiro, mas ele queria fazer uma imitação de college movie americano, inclusive criando uma cena que era um jogo de basquete em que haveria cheerleaders. Um babaca completo. Ele detestou o roteiro que escrevi. Disse que era uma bobagem. Porque só ele era gênio, mais ninguém. Ele também fez questão de dizer que não tinha gostado do filme que aluguei para assistirmos no dia em que fui à casa dele para tentar escrever o roteiro de seu college movie, “Uma Noite Alucinante”, de Sam Raimi. Achou o filme “parado”. Como é que um cara que quer ser diretor de cinema fala que “Uma Noite Alucinante” seja um filme ruim? Mas senti que ele não estava querendo dar o braço a torcer em admitir que o filme era bom, tanto que assistiu de novo. É que o filme era muito chocante para seus padrões, afinal ele gostava de college movies. Quando falei para ele que estávamos deixando a zona norte para morar na zona leste, ele protestou, porque detestava ambas as zonas, considerando que era habitável apenas a zona sul. Isso aconteceu em meados de abril. Meu tio Nelson e família foram morar conosco, no Jaçanã, mas como a casa era muito pequena, cogitou-se mudarmo-nos todos juntos para uma casa maior. Eu sugeri o Tatuapé, influenciado pelo fato de que costumava ir lá visitar meu amigo Álvaro. No dia da mudança, pedi ajuda a meus primos para destruirmos a casa toda. Quebrei vidros e telhas, porque não poderia demolir aquela pocilga de baratas. Só não poderia imaginar que aquela casa iria viver nos meus pesadelos para o resto da vida, tendo até sido a personagem principal de minha sessão de hipnose, aos 39 anos. Já minha avó entrou em franca decadência, babando, cuspindo, urinando e cagando pela casa. Iniciaria-se um triste momento em nossa vida, que iria durar vários anos. Também não gostei do Tatuapé. Achei os moradores muito metidos. Tipo gente que comia ovo frito e arrotava caviar. Largamos as baratas do Jaçanã e achamos os ratos do Tatuapé. A casa da Rua Guaraciaba era infestada de ratos. Um milhão de ratos. Eu ficava totalmente desgostoso quando ia pegar uma roupa no guarda-roupa e tinha um rato lá dentro. Minha vizinha de 12 anos se interessou por mim. Parecia ter uns 15. O nome dela era Glória. No primeiro dia em que conversamos, eu usando um chapéu e óculos escuros por culpa da timidez, sob protestos dos adultos, ela me contou que um primo dela “a tinha agarrado por trás e não teve jeito”. O que ela queria dizer com aquilo? Que tinha dado o cu? Começou uma torcida dos adultos para que eu comesse Glória, o que me deixava enlouquecido de vergonha. Mas antes que acontecesse qualquer coisa, recebi uma carta. Antes de falar da carta, vou falar de outra coisa. Nosso aparelho de som estava quebrado, sem perspectivas de ser consertado. Eu estava desesperado de vontade de comprar o disco do Morrissey, que tinha a sensacional música “Suedehead”. Decidi juntar dinheiro para comprar uma fita cassete. Toda vez que os adultos me davam dinheiro para comprar alguma coisa na padaria, ou algo assim, eu guardava uma parte do troco. Logo, eu tinha dinheiro suficiente para comprar a fita. E fiquei feliz porque não apenas a “Suedehead” era sensacional, como todo o álbum. Resolvi novamente juntar dinheiro para comprar outro álbum. “Music for the masses”, do Depeche Mode. Fiquei puto que, por culpa da inflação, o valor da fita estivesse mais alto que a do Morrissey. O funcionário da loja nem sabia que tinha esse álbum na loja. O dono da loja me disse que antigamente não chegavam “essas bandas” em lojas de discos e eu não entendi o que ele quis dizer com aquilo. Também achei o álbum do Depeche Mode sensacional. Lembro-me bem que minha mãe achou um absurdo eu ficar tão feliz em juntar moedas para comprar um álbum, assim como um mendigo fica feliz em juntar moedas para comprar uma pinga. Minha mãe queria que, aos 17 anos, eu fosse um pouco mais ambicioso. Por falar em ambição, fui, feliz da vida, contar a meu pai que eu estava estudando publicidade. Meu pai me disse que eu não teria capacidade para ser publicitário e pediu para eu abandonar o curso e arranjar emprego numa loja de sapatos. Com relação à carta, foi uma carta enviada por Andréia, a menina por quem eu havia sido apaixonado. Dizia que enfim havia descoberto que me amava e queria voltar a São Paulo para ficar comigo. Terminava a carta com um poema. Foi o único poema que uma garota escreveu para mim em minha vida. Se bobear, foi a única carta de amor também. Passei um mês sem saber o que responder. Estava com medo de dizer “Pode vir” e sofrer de novo por ela. Por outro lado, não queria dizer “Não venha”. Então mandei uma carta dizendo que não a amava mais, mas deixando subentendido que queria continuar conversando. Ingenuamente, esperei uma réplica, que nunca veio. Nem sei se ela recebeu minha carta, tamanha a mania dela de ficar mudando de casa o tempo todo. Na ocasião, ela estava morando em Uberlândia. Durante minha vida inteira, fantasiei estar mandando para ela uma carta dizendo “Pode vir” e ela viria e nós iríamos viver juntos e ter filhos. O tal diretor de cinema gostava tanto de mim e era tão desprovido de amigos que quando teve que sair de uma locadora de vídeo em que estava trabalhando, me indicou para ficar em seu lugar. Quando recebi o recado, telefonei para ele, que atendeu fazendo voz de locutor de trailers de cinema. Eu tinha vontade de matar aquele cara. A locadora ficava na Praça da Árvore, longe pra cacete. Teve um dia em que eu esqueci de pegar dinheiro para ir embora para casa e tive que pedir para o funcionário do metrô liberar minha passagem. Achei que iria ficar perdido durante a noite ali naquele local desolado. Aos 17 anos, eu ainda não sabia o que era isso. Cheguei a desconfiar que o amor que o diretor de cinema tinha por mim ia além da amizade, especialmente depois de um dia em que ele ficou desfilando de cueca na minha frente, em seu quarto, o que me deixou tremendamente constrangido. Mas a verdade é que o cara era carente demais por não ter nenhum amigo. Um dia ele me levou ao teatro. Disse que queria ter idéias para seu filme que ainda teimava em fazer. Fomos assistir ao Grupo Ornitorrinco do Cacá Rosset, que havia montado a sensacional peça “Teledeum”. Não tiro essa peça da cabeça até hoje. Quando saímos da peça, o diretor de cinema me disse que uma das cenas ele iria utilizar em seu filme. Tive vontade de jogá-lo em baixo de um caminhão. Quando começou o segundo semestre, não agüentei mais o diretor de cinema ficar falando que iria ser comparado ao Steven Spielberg, entre outras barbaridades que ele falava, e também pelo fato de que por ele viver colado a mim, todo o resto da escola não se aproximou de mim ao longo do ano, e pedi para estudar à noite. Senti-me aliviado por ficar longe do diretor de cinema, mas tomei um pau feio. O clima de desolação no curso noturno de publicidade era completo. Eu só pensava em sexo. Não sabia que dia iria conseguir ter alguma coisa com a Glória. A oportunidade surgiu num dia em que ela apareceu em casa procurando os outros moradores. Eu estava sozinho e menti que eles já estavam chegando. Já contei essa história em “As gatas”. Não comi a Glória por pura incompetência, puro medo. Eu tinha um verdadeiro bloqueio. Chegaríamos a estar pelados na cama, eu com o pau encostado na boceta dela e mesmo assim não iria fazer nada. Eu poderia ter perdido a virgindade aos 17 anos e não perdi. Sofri um choque poético nesse ano. Ou no ano seguinte? Não me lembro ao certo. Mostrei meus poemas a um poeta independente amigo de minha mãe e ele disse, cautelosamente, que meus poemas eram bons, mas eu deveria “apurá-los ainda mais”. Na minha cabeça aquilo soou como “Seus poemas são uma merda”. Fiquei um tempão sem escrever e, quando voltei a escrever, vagarosamente, estava bem mudado. Os poemas pareciam mais profundos, brincando muito com as palavras. Lembro-me de um gigantesco poema chamado “Estupidez” que eu escrevi num dia em que acordei ouvindo vozes de adolescentes felizes conversando na rua. Aquilo me soava como a morte. Eu sempre fui infeliz no meio de adolescentes felizes. Por isso, eu escrevia poesia. Lá fui eu escrever um poema de cinco páginas. Mas, infelizmente, não incluí no meu livro. Falo do livro já já. Meus tios se mudaram para a Penha e ficamos sozinhos na casa da Rua Guaraciaba. Mas era preciso fugir dos ratos. Mudamos para um apartamento na rua de trás. Rua Diamante Preto. Fui reprovado na escola. Tomei pau completo em publicidade, português, direito e contabilidade. Normalmente, poderia fazer as aulas em que havia sido reprovado juntamente com o ano seguinte, no que eles chamavam de “dependência”. Mas o professor de matemática, que também era secretário da escola, e era chato pra caramba, havia dito que não iria mais permitir nenhuma dependência. Fora isso, havia um problema maior: meus pais deviam seis meses de mensalidade. Eu terminei 1988 já sabendo que não iria estudar em 1989. Minha vida escolar indo para o brejo. No exército, fiz exatamente o planejado. Falei para o médico que meu joelho estava em frangalhos e ele acreditou. Encontrei esse diretor de cinema várias décadas depois. Ele havia estudado um pouco nos Estados Unidos, mas continuava um babaca. É difícil para uma pessoa babaca de natureza deixar de ser babaca. Era um cara realmente determinado, capaz de realizar um antigo sonho de ir para os Estados Unidos estudar cinema, o que para mim soava como utopia, mas lhe faltavam duas coisas: talento e humildade. Mais duas coisas aconteceram: minha mãe, sempre ela, me arranjou o telefone de um publicitário que conhecia uma agência que estava precisando de estagiário. Minha mãe conhecia esse povo todo na loja de roupas em que trabalhava, A Bruxa. Telefonei para o cara e antes que ele falasse qualquer coisa, perguntei se ele não achava melhor eu ir até lá e pegar os telefones das agências. Uma falha de comunicação entre nós, naturalmente. Ele respondeu que iria me emprestar a agenda para eu copiar os telefones. Mas isso nunca aconteceu e eu não arranjei estágio nenhum, nem estava interessado em arranjar. E outra do diretor de cinema. Me disse que um amigo seu iria ser candidato a vereador pelo PL e precisava de gente para fazer seu jornal. Sem qualquer empolgação em trabalhar para um candidato do PL, fui lá conhecer o cara e achei que era o maior pilantra do mundo. Recusei o convite. Imagine minha decepção quando o Lula aliou-se ao PL para ser candidato a presidente em 2002.
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quinta-feira, 19 de março de 2015

O Nada - 4


            1986 foi um ano complicado.
            Começou com um dos maiores porres de minha vida, no dia do meu aniversário, cuja festa costumava coincidir com o ano-novo. A quantidade de bebidas que havia em casa era imensa. Eu me tranquei no banheiro depois que meus tios tentaram quebrar ovos na minha cabeça e só saí depois de umas três horas. Quando todo mundo foi dormir, comecei minha festa particular e tomei todas as cervejas, vinhos e champanhes. Após soltar o arame farpado que separava nosso quintal do quintal vizinho e ficar completamente enrolado nele, tentei bater punheta no quintal, mas desmaiei. Acordei com minha mãe tentando me dar banho. Depois ela me jogou num lençol sobre o chão, porque não havia mais onde ninguém dormir, já que a casa estava lotada de tios, e fiquei gemendo até dormir de novo. Passei o dia seguinte vomitando.
            Não havia mais curso de mecânica à tarde. Ainda fui um dia à tarde, na esperança que houvesse e vi Eliane, que ao se deparar comigo, fez uma careta. Foi a última vez que a vi.
            Tive que me mudar para o curso noturno, onde havia uns 50 alunos, todos homens velhos. Não havia nenhum adolescente. O pessoal fumava pra caralho, o que me deixava bem angustiado. Fui muito mal nas aulas de desenho técnico e desenho mecânico. Eu não levava o menor jeito.
            Comecei a ter uma obsessão por literatura em janeiro, quando passamos férias em Peruíbe. Na casa havia alguns livros e como choveu muito, fiquei deitado numa rede, lendo. Eu pensava: “Eu também quero escrever um livro”.
            Escrevi enfim três letras trágicas para o Alvaro, que odiou, naturalmente, porque não eram letras de música, mas notícias de jornal, de tão grandes e mal-escritas. Peguei minha máquina de escrever e tentei escrever a história da minha vida, apesar de não ter acontecido nada até então. A grande revolução no meu jeito de escrever veio após ler uma matéria no Estadão sobre uma poetisa “mendiga, drogada, prostituta” que vivia em baixo dos bancos da Praça da Sé. Nunca consegui me lembrar ou descobrir o nome dela, muito embora tenha lido um livro de uma poeta chamada Lena de Jesus Ponte que escrevia como ela. Talvez fosse ela mesma. Até então eu achava que poesia era o que eu tinha aprendido na escola. Mas já que dava para escrever poesia de qualquer jeito esculhambado, comecei a escrever um poema atrás do outro. Que na época eu chamava de “letras de música”. Não tirava da minha cabeça a ideia de ter uma banda. Falei para o Álvaro que eu tinha planos de começar como vocalista mesmo, já que eu não sabia tocar nenhum instrumento. Ele pediu para eu fazer um teste na sua banda cover. Foi uma verdadeira tragédia. Tivesse eu feito um teste numa banda punk, talvez tivessem gostado de minhas letras politizadas, em que eu mandava policiais e políticos se foderem e descrevia as mazelas de hospitais públicos. O engraçado é que eu tinha um violão em casa, da minha mãe, cuja corda eu quebrei no mesmo dia em que ela comprou. Não sei por que não tentei aprender a tocar o violão sozinho. Talvez eu tivesse achado que a única maneira seria através de uma escola. E olha que ainda havia a possibilidade de aprender a tocar violão de graça com o Heraldo Dummont! Porque ele tinha um certo parentesco com a minha tia Marta, esposa de meu tio Ronaldo. Nem assim eu fui. Cheguei a ir na casa dele uma vez.
            Simplesmente parei de ir à escola. Como na época eu estava fazendo musculação, este meu mesmo tio Ronaldo, me vendo dormir o dia inteiro (durante toda minha vida dormi de dia e fiquei acordado à noite), me disse que eu seria carregador de sacos de batatas, em referência aos diversos depósitos de batatas que haviam no bairro.
            A musculação também abandonei. Igualmente não me interessei em começar a lutar kung fu ou boxe, apesar da paixão que eu tinha e tenho pelo esporte, nem fui jogar futebol ou nada mais, mesmo freqüentando dois clubes, a Associação Desportiva da Polícia Militar e o Corinthians, do qual meu pai era sócio mas não me levava nunca.
            Minha mãe resolveu me matricular no Albino César, um famosíssimo colégio estadual que há no Tucuruvi, onde estudavam diversos alunos do Educandário Nossa Senhora do Carmo. O Albino César tinha fama de ser um colégio acima da média. Alunos ricos estudavam lá. O governo do Estado diz que todos os colégios estaduais são iguais. Mas a fama do Albino César durou muito tempo. Eu não posso dizer se o Albino era melhor do que outros colégios estaduais porque não estudei em nenhum outro. Mas levei um fumo tremendo. É impossível sair de um curso técnico e ir para um curso regular. Eu era um dos piores alunos da classe. Também foi a primeira vez na vida em que estudei com gente bem pobre. Era estranho estar comendo e ter que dividir o lanche com gente faminta que não tinha dinheiro nem para pegar ônibus para ir à escola. Não sei como os alunos burgueses resolviam isso. Apesar da fama do Albino César, não davam merenda.

            Uma tragédia aconteceu no meio do ano. Um trombadinha tentou roubar meu relógio e assisti um programa na televisão que mostrava um álbum fotográfico com as piores vítimas de crimes. Fui abatido por uma terrível síndrome de pânico e não saí mais de casa durante seis meses. Pior, eu não tinha coragem de ir ao portão de casa. Queria mesmo era ficar embaixo da cama, sentindo terríveis dores no estômago, como se tivesse sido baleado e tendo sonhos terríveis em que enfrentava bandidos em estações do metrô. De vez em quando os adultos me obrigavam a sair à rua, como para levar minha avó ao médico ou fazer uma entrevista de emprego em outro banco. Mas muitas vezes, eu me apavorava e começava a correr, deixando os outros pedestres assustados, achando que eu estava fugindo de algum assaltante, ou eu era o próprio assaltante. Em meus poemas, eu dizia que não tinha vontade de me matar, porque o céu deveria ser uma bosta igual à Terra. Não acreditava em Deus. 
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domingo, 15 de março de 2015

O Nada - 3

            Eu passei a oitava série sozinho. Para começar, já me achava absolutamente estranho. Eu cresci muito rápido e fiquei gigante, aos 13 anos. Minhas roupas ficaram curtas e ridículas, para o riso dos colegas. Sem ter nenhum adulto por perto, tive que aprender a fazer a barba sozinho. Até hoje não sei fazer a barba direito nem gosto de fazer a barba. Também não gosto de ficar barbudo. Fiquei corcunda. Meus cabelos eram gigantes e horríveis. Tinha espinhas no rosto e os colegas me diziam que espinhas eram provocadas por excesso de masturbação.
            Eu não falava com ninguém. Sofria bullings violentos dos colegas, até mesmo agressões físicas ou banhos de refrigerantes que me davam vontade de morrer. Aos 13 anos, pensei em suicídio pela primeira vez por culpa disto. Foi uma vingança do mundo contra o fato de eu mesmo ter praticado bulling contra um garoto negro, quando eu tinha uns 10 anos. O garoto gostava de mim, me tratava como amigo, e eu praticava bulling racial nele do mesmo jeito. Eu e a escola inteira. Era o único garoto negro da escola.
            Mas, na oitava série, eu tinha uma certa admiração por um garoto mais velho chamado João (que também catou a Helena, como todo mundo). Eu queria ser igual ao João. Ele era maluco, comportava-se como imbecil, e a escola inteira gostava dele. Ele tirava sarro até da diretora. Imagine tirar sarro da diretora da escola e ela dar risada. João era uma espécie de Deus. Ele desenhava caminhões. Comecei a desenhar caminhões, caminhonetes, carros. Achei que mexer com automóveis era algo mais suburbano e possível e não ser artista. Eletrônica também me interessava. Comprei todo o curso de eletrônica do Instituto Universal Brasileiro e esta poderia ter sido minha primeira profissão. Mas não li mais do que um ou dois livros, por pura preguiça. Eu sempre fui um caso perdido.
            Chegou o pior dia da minha vida, que me transformou neste monstro que sou até hoje e serei para sempre.
            Dona Arionor, a diretora e dona da escola, entra com seus 3 metros de altura (para nós, crianças, Dona Arionor parecia uma gigante) e diz: “O Brasil precisa de técnicos. Façam cursos técnicos”. Ela tinha visto na tv reportagens em que os militares diziam que o Brasil precisava de técnicos. E como eram os militares que estavam dizendo, Dona Arionor repetia para a classe. O Educandário Nossa Senhora do Carmo era plenamente a favor da ditadura militar no Brasil. Aliás, o marido de Dona Arionor, seu Gilberto, era militar. Acho que ele era policial militar. Lula assustava Dona Arionor. Sem motivo nenhum, houve um dia em que ela entrou na classe, e sabe-se lá por qual propósito, começou a xingar o Lula, dizendo que ele era “um bicho”. Eu fiquei fã do Lula no mesmo instante.
            Jesus Cristo, eu quis muito ter faltado aquela aula em que Dona Arionor nos mandou fazer cursos técnicos. Uma criança de 13 anos não sabe o que quer da vida. Ela não tem como escolher qual curso técnico quer fazer na vida, porque não sabe qual profissão vai seguir.
            Mas todos nós da classe decidimos prestar o exame para a Escola Técnica Federal de São Paulo e eu iria tentar ser técnico em mecânica. De automóveis, de preferência.
            No dia do exame, ganhei uma régua da Escola Técnica São Francisco de Bórgia. Guardei-a. O exame pareceu ser em outra língua. Não acertei uma questão sequer. Senti-me como se tivesse perdido oito anos de minha vida estudando no Educandário Nossa Senhora do Carmo. E não adiantava dizer que os alunos é que eram dementes porque ao saber que seus alunos não haviam acertado uma questão sequer do exame da Escola Técnica Federal de São Paulo, Dona Arionor decidiu reformular o currículo inteirinho.
            Chegou 1985 e me lembro que os adultos me mandaram fazer um corte de cabelo ridículo que estava na moda. Com este corte de cabelo, matriculei-me num outro lixo de escola, a São Francisco de Bórgia.
            Não sei como é que me deixaram estudar naquele lugar. A escola, que ficava no Paraíso e portanto eu tinha que pegar ônibus e metrô para chegar até lá, no maior tédio, não tinha nem sede, ocupando salas alugadas de um colégio burguês chamado Benjamim Constant, com cujos alunos não trocamos uma palavra sequer durante um ano. Para mim, aqueles alunos pareciam tão burgueses que não eram nem humanos.
            Tomei outra decisão importantíssima para meu futuro profissional: entrei no curso de datilografia do SENAC. Só um imbecil como eu para resolver fazer curso de datilografia e não de informática. Ou música. Sei lá por qual motivo eu quis aprender a bater à máquina. Talvez porque tivesse já feito uma experiência com alguma máquina de escrever e tivesse gostado muito. Quem sabe não começasse a escrever assim? Por sinal, foi em 1985 que minha mãe comprou uma pequena máquina de escrever. Acho que só fui a duas aulas de datilografia e, naturalmente, abandonei.
            Um fator iria colocar à prova minha decisão de fazer curso técnico em mecânica na escola deprimente do Paraíso: meu pai estava trabalhando como gerente de cinema no circuito CIC e bem naquela época estava gerenciando o cine Gemini, na Avenida Paulista, pertinho da escola. Já conto como foi o primeiro dia trágico em que tentei visitar meu pai.
            Antes vou contar sobre outra loira em minha vida: Eliane.
            No primeiro dia de aula, estou no pátio deprimente da escola deprimente, esperando começar a aula de educação física, que seria a primeira aula da escola. Estou, como sempre tímido, isolado do resto da humanidade. A minha frente senta-se Eliane, que não desgruda os olhos de mim e até sorri.
            No dia seguinte, ela está andando ao lado de um dos colegas. Dois dias depois, está andando ao lado de outro. No terceiro dia, me pede para sentar ao seu lado. Caramba, no primeiro grau ninguém ficava com ninguém e no segundo grau, já na primeira semana Eliane queria catar três caras?
            Sentei ao lado dela e não soube o que fazer. Pior, em certo momento fui retirar uma página do meu caderno e dei um soco na cabeça dela. Idiota, ao invés de pedir desculpas, fiquei dando risada. Eliane perdeu o interesse em mim imediatamente.
            Mas passei o ano inteirinho sofrendo de amor por ela e cheguei a lhe escrever umas cartinhas, que ela gostava muito. Mesmo assim, só me considerava amiguinho.
            Fui um aluno médio, como no primeiro grau.
            Nas aulas de português, descobri a poesia. Por algum motivo, a professora, que era chata pra caramba, nos ensinou a poesia brasileira inteirinha no primeiro ano. Não porque fosse uma ordem curricular da escola. Mas porque ela só se interessava por literatura brasileira mesmo e não podia ouvir falar em estrangeiros que dava chilique.  Porém, não adotou nenhum livro e achei isto bem estranho. Eu estava doido para ler alguma coisa, mas a escola não pediu para lermos nada, só para provar mais uma vez que era uma merda de escola.
            O primeiro ano foi genérico e super entediante. Descobri uma coisa que não pratiquei no primeiro grau: cabular aulas. No primeiro grau, eu não faltava à aula alguma. No segundo grau, virou bagunça. Eu não perdia oportunidade alguma de não ir à escola e sair para passear com os colegas. Mas eram todos caretas. Ninguém usava drogas, nem fumavam nem bebiam. Muito pelo contrário. Havia um certo culto ao corpo, com alunos fazendo musculação e artes marciais. No lugar de drogas, cigarro e bebidas, enchíamos a cara de esfihas do Jaber e café espresso. Mas eu sempre gostei de beber. Naquele ano de 1985, não cheguei a beber, mas havia bebido desde os 10 anos de idade, havia bebido em festas juninas, havia bebido em casa às escondidas. Aproveitava todas as oportunidades.
            Que mais de interessante aconteceu em 1985? Além de ter me masturbado numa sala de aula vazia?
            Quando chegou o fim do ano, fizemos uma festinha. Eu estava determinado a tentar beijar Eliane, naquele último dia de aula, aproveitando o fato de que ela me disse que não estava namorando com ninguém. Eu estava até escrevendo sobre isto, na minha máquina de escrever, imaginando que iria terminar o ano relacionando-me com ela. Foi meu primeiro de muitos textos autobiográficos, sendo que este ainda era meio fictício. Portanto, era minha primeira auto-ficção.
            Logo que ela chegou, já chamei-a de canto e disse: “Se eu pedir algo, você me dá?”. “Dou”. Ela sabia o que eu queria. Mas não tive coragem de falar. Ela ficou a tarde inteira implorando para que eu dissesse, mas não consegui dizer. Eu era um caso psiquiátrico.
            Minha mãe, naquele ano, me obrigou a fazer minha primeira entrevista de emprego, no banco Noroeste (que hoje é o Santander). Fiquei tão tímido que quase não entrei. Telefonei para minha mãe, no caminho, dizendo que eu não conseguia ir e ela insistiu para que eu fosse. Tomei coragem e fui.
            Sentei-me junto com outros adolescentes e por sorte eu fui um dos últimos questionados pela entrevistadora, porque ela perguntou qual era a função para qual estávamos nos candidatando. Se ela tivesse me perguntado primeiro, eu teria dito que não sabia. Mas como vi os outros adolescentes dizendo que estavam se candidatando às vagas de contínuo, falei isto também. Eu nem sabia o que era um contínuo. Nunca fui chamado para trabalhar no Noroeste, o que prejudicou muito minha auto-estima. Eu não era capaz de arranjar uma bosta de emprego de contínuo por qual motivo?
            Minha diversão predileta era ir ao cinema.

            Porém, na primeira vez em que fui, o interplanetário meu pai não me reconheceu. Fiquei parado na frente do cinema, esperando ele resolver falar comigo e embora ele tenha passado por mim várias vezes, não me dirigiu a palavra. Segundo ele, por não ter me reconhecido. Como é que um pai não reconhece o próprio filho? Mas depois, virei freguês. Assisti a um milhão de filmes, no Gemini, Metro e Comodoro. E foi assistindo a um dos filmes, “2010 – O ano em que faremos contato”, de Peter Hyams, que decidi ser diretor de cinema. E mais do que isto: decidi que embora o mundo da mecânica me parecesse fascinante, não era aquilo que eu queria para minha vida.
Mas a música ainda era uma possibilidade. Meu amigo Álvaro Sobral me disse que estava estudando violão e me mandou aprender guitarra para montarmos uma banda. Ele iria começar a estudar baixo. Menti para ele que estava fazendo umas letras. Ele começou a cobrar minhas letras, colocando-me numa situação difícil. O máximo que tinha escrito aos 14 anos foi um soneto pornográfico chamado “Sonhos de um punheteiro”, que escrevi após um amigo da classe me emprestar a Playboy com a Sônia Braga, que me enlouqueceu completamente. Mas minha mãe achou meu soneto, fiquei morrendo de vergonha e joguei fora.

(continua)

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sábado, 14 de março de 2015

O Nada - 2

Não tenho como me lembrar de todos os livros que li na vida porque eu não sou o André Barcinski. Mas me lembro mais ou menos dos livros que li quando criança.
            Meu primeiro contato com a literatura foi trágico. Eu tive uma professora idiota de história que conseguiu me fazer ter ódio inicial por história. Só descobri que história era minha matéria favorita depois de grande. Foi a pior professora que tive no primeiro grau. Uma maluca direitista que afirmava ter poderes paranormais. Uma retardada completa. Quando eu tinha 10 anos e estava na quinta-série, ela adotou o livro “A Escrava Isaura”, de Bernardo Guimarães. Me diz em que universo este é o livro que se adota numa quinta série? Eu não passei da primeira página e não creio que ninguém na sala tenha lido o livro. Mas a tortura não acabou aí. No ano seguinte, a louca adota “O Guarani”, de José de Alencar, e apesar de ser um bom livro, não é um livro para crianças. Também ninguém leu. A tortura não acabou. O penúltimo livro estúpido que ela adotou foi “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, cujo autor não me lembro agora nem pretendo lembrar. Lembrei: Joaquim Manuel de Macedo.
            Mas a maluquice acabou quando a escola adotou a série Vagalume, da Editora Ática. Agora sim dava para ler bons livros e eu li vários. O que mais gostei foi o primeiro, “A Ilha Perdida”, de Maria José Dupré, e me coloquei na pele daqueles dois garotos “perdidos” numa ilha no meio de um rio, como se fosse possível alguém se perder numa ilha no meio de um rio. Descobri que eu gostava de ler.
            Outro livro que pirei foi “O Gênio do Crime”, de José Carlos Marinho. Não tive contato com histórias em quadrinhos, infelizmente, à exceção da Turma da Mônica, que eu sempre colecionei. Mas não me pergunte nada sobre universos de super-heróis, porque não entendo nada disto. Não sei dizer por que nunca comprei hqs de super-heróis. Talvez porque eu só tivesse dinheiro suficiente para comprar um gibi. Então eu escolhia algum da Turma da Mônica. Mas essa tese não é satisfatória. Tanto é que eu assistia desenhos animados de super-heróis tranquilamente. Quando criança, assistia aos chamados “desenhos desanimados”, aqueles desenhos da Marvel parados que apareciam na tv e eram praticamente histórias em quadrinhos escaneadas para tv. Também adorava a série clássica do Batman, mas fui comprar meu primeiro Batman (“A Piada Mortal”) depois de adulto.
            Também é interessante lembrar de um livro adulto que tive em mãos: “O Mestre e Margarida”, de Mikail Bulgakhov. Minha mãe estava lendo este livro. Embora não tenha lido o livro todo, os trechos que li me deixaram muito impressionado.
            Minha primeira tentativa de escrever ocorreu lá pelos 12 ou 13 anos. Na época, eu era fã de uma série de tv chamada “Buck Rogers” e comecei a escrever minha própria aventura, sendo eu o Buck Rogers, mas eu tinha outro nome: Aplas Yamel, um nome inventado. Mas não cheguei a concluir qualquer tentativa de escrever esta história, a não ser uma spin off, que concluí aos 19 anos e depois outra parte aos 26. Por sinal, algumas pessoas me dizem que este meu conto dos 26 anos, chamado “Energia”, é meu melhor conto. Eu acho uma maluquice sem pé nem cabeça.
            Outra coisa que eu adorava era música. Quando criança, eu estava bem no meio da febre da discoteca e havia dezenas de discos com este gênero em casa. Havia um pouco de rock também. Da discoteca, passei para música eletrônica. Sem abandonar o rock. Apesar de o primeiro disco que eu ter comprado foi o “Ghost in the machine”, do The Police, eu pirei com o videoclipe da música “Another brick in the wall”, do Pink Floyd, que passava na tv o tempo todo. Mas só vim assistir ao filme “The Wall” anos depois, como também descobri que o álbum não era o Pink Floyd verdadeiro, mas uma espécie de viagem solo do Roger Waters.
            Eu tinha vontade de fazer música. Cheguei a sugerir que os adultos me matriculasse num curso de “órgão” (na verdade, eu queria aprender a tocar sintetizadores), mas eles não se interessaram. Aprender música era uma frescura inadmissível na periferia paulistana de 1980, onde o sonho dos rapazes era aprender a se tornar pedreiros e construir suas próprias casas.

(continua)

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sexta-feira, 13 de março de 2015

O Nada - 1

Eu nasci em São Paulo, no dia 30 de dezembro de 1970, filho de Pedro Papoy  e Rosilda de Moura Montarroios.
            Os Papoy tinham origem húngara. Na verdade, eram Papay. Mas meu avô, apesar de se chamar Miguel Papoy, teria nascido na Áustria, em Viena. Ou teria nascido em São Paulo mesmo, ninguém sabe ao certo. Meu pai nasceu em 1930 e já tinha um filho, Marcos Aurélio, que por algum motivo, escondeu de nós até quando eu estava com uns 12 anos. Meu pai sempre foi meio maluco. Aliás, quando eu era criança, ele dizia se chamar Maurício e não Pedro.
            Minha mãe nasceu em Recife, em 29 de setembro de 1950, e tinha vindo para São Paulo com uns 2 anos de idade.
            Meu pai tinha um irmão e seis irmãs. Minha mãe teve cinco irmãos. Quando eu nasci, eles eram ainda adolescentes. Como meus pais não viveram juntos, cresci com eles.
            Morávamos na Vila Antonieta, que, por algum motivo, chamavam de Vila Rica e há quem a chame assim até hoje. Zona leste de São Paulo.
            Quando eu estava com uns três anos, mudamos para o bairro da Vila Nilo, na zona norte de São Paulo, numa rua que era travessa da Rodovia Fernão Dias. Não tinha água nem asfalto. Era uma casa particular, paga a prestações.
            Minha mãe trabalhava primeiramente num supermercado, como caixa, depois foi trabalhar como vendedora numa loja de roupas.
            Quando eu tinha seis anos, entrei na escola. Educandário Nossa Senhora do Carmo, uma escola particular. Não que éramos bem de vida, mas a escola não era tão cara, minha mãe não ganhava tão mal e havia a ideia de que escolas públicas não eram boas. Até uma perua vinha nos buscar em casa, conduzida pelo mal humorado Senhor João, que também trabalhava na secretaria da escola.
            Não fiz o jardim da infância, comecei no pré-primário. Assim, só aprendi a ler no ano seguinte. E aprendi a ler instantaneamente.
            O que importante aconteceu naqueles primeiros anos de escola e eu gostaria de contar hoje, aos 44 anos? Já contei esta história muitas vezes e só estou contando de novo porque joguei todas as minhas memórias no lixo.
            Lá para 1980, quando eu estava com nove anos, minha avó perdeu a casa da Vila Nilo e nos mudamos para o Jardim Modelo, mas dizíamos que morávamos no Jaçanã. Deixamos uma bela casa com um quintal gostoso e mudamos para um casebre podre com um quintal tenebroso cheio de capim, a frente de uma favela. E ainda havia outra favela na mesma rua, que também era travessa da Rodovia Fernão Dias. Por sinal, tínhamos medo de ir até lá no fim da rua, onde havia a favela e, em todos os anos em que morei ali, devo ter passado ali, cagando de medo, umas duas vezes. E a favela na frente de casa pegou fogo duas vezes. A primeira vez foi logo que nos mudamos e nem tínhamos montados os móveis ainda. Ou não havia móveis para montar. Sei que estávamos dormindo no chão, um hábito que não abandonei, infelizmente, até hoje.
            Dos irmãos de minha mãe, só dois estavam casados. Havia mais três solteiros. No total, éramos oito pessoas dividindo o mesmo quarto. Obviamente, alguns dormiam na sala. Não sei por que foi que os adultos perderam a casa da Vila Nilo nem porque alugaram aquela porcaria de casa, que viveu nos meus pesadelos durante décadas.
            Meu pai aparecia de vez em quando. Eu até gostava, porque as crianças gostam das coisas com mais facilidade do que os adultos. Meu pai gostava de ter Mavericks e me dizia que quando eu completasse 18 anos, iria me dar um. Eu acreditei.
            Minha avó arrumou um namorado. O nome dele era Severino e era sargento da polícia militar. Minha avó conhecia muitos militares porque trabalhava na Caixa Beneficente da Polícia Militar, emprego que conseguiu através de seu marido, meu avô, que também havia sido sargento da PM e tinha morrido bem cedo, com 30 e poucos anos.
            Severino ficou comovido com o fato de que oito pessoas estavam aglomeradas no mesmo canto e tomou uma decisão. Alugou a casa dos fundos, fez um buraco na parede para juntar as duas casas e comprou móveis. Eu gostava do Severino. Jogávamos baralho e dominó o tempo todo, como se a vida fosse apenas isto.
            Mas meus tios se casaram e foram embora. Severino também foi embora. Fiquei sozinho com três mulheres. Senti-me completamente abandonado e descobri o quintal de casa e o quintal dos vizinhos como universos a ser explorados.
            Eu cavava grandes buracos, removia pedras do tamanho de tanques e jogava em esgotos, levantando dez metros de merda, plantava milho, tentava criar galinhas, fazia fogueiras apocalípticas que enlouqueciam os adultos. Quase descobri a sexualidade com uma garotinha que morava na casa ao lado e se chamava Elisângela. Às vezes, brincávamos de marido e mulher. Deitávamos juntos, em cabaninhas, e eu lhe dava uns selinhos, sem que os adultos vissem. Mas infelizmente, ela também foi embora. Uma pena, porque recebemos a visita dela e da mãe, quando ela já estava grande, e estava um mulherão. Tivesse continuado morando ali, talvez eu tivesse descoberto mais coisas.
            Fui me apaixonar loucamente com 11 anos, quando estava na sexta-série.
            Entrou uma garota na escola, chamada Helena, que foi a primeira garota evangélica que conheci na vida. Naquela época, eram raros os evangélicos e só havia uma garoto na minha classe. Helena era uma loirinha de 13 anos linda de morrer e super gostosa, com uma bunda fenomenal, que enlouquecia a escola inteira e gerava ciúmes nas outras garotas da classe. Alguns dias depois que Helena havia chegado, pediu para se sentar ao meu lado e disse que queria namorar comigo. Fiquei absolutamente apavorado, como uma criança indefesa andando no parque e atacada por uma maníaca. Sem saber o que dizer, falei a ela que iria pensar. Pensar no que? Fui incapaz de responder qualquer coisa e parecia que a escola inteira estava esperando minha resposta. Outras meninas da classe e da escola ficaram desesperadas com a ousadia de Helena e passaram a me mandar bilhetinhos, dizendo que gostavam de mim. E eu fiquei completamente atordoado. Outros colegas também esperavam minha resposta porque estavam interessados na Helena. Um deles me disse: “A Helena quer saber se você é gostoso”. “Como assim?”, falei, para a gargalhada geral. Eu era um cabaço completo. Mas Helena me pressionou e eu disse que não gostava dela. Era uma mentira terrível, porque eu estava loucamente apaixonado e ficava até nas nuvens, pensando nela. Os adultos em casa me perguntavam se eu estava doente.
            Helena, infelizmente, não fez a sétima série no Educandário. Uma pena porque eu iria ficar encantado com aquela bunda, já que aos 12 anos eu já estava me masturbando desesperadamente. Batia umas dez punhetas por dia. Não havia nada que me interessasse mais além de punhetas.
            Ela voltou na oitava série e desta vez, a escola inteira tinha desenvolvido uma cruzada para catar Helena. Ela provocava. Usava shortinhos enfiados no cu e ainda dizia que eram discretos quando usava para ir à escola, porque na rua e em casa usava shorts piores. Mesmo quando usava o uniforme da escola, quando ela andava de um lado para o outro, a única coisa que víamos era sua bunda. Vários caras tiveram o primeiro beijo com ela. Eu ficava bem enciumado, mas falei para ela que a achava uma galinha. Ela dizia que eu não tinha o direito de dizer aquilo porque nunca havia acontecido nada entre nós, além de umas bolinadas que lhe dei. Não foi por falta de iniciativa dela, porque ela quis muito que acontecesse, mas eu sempre saí correndo, por puro medo de que os adultos em casa ficassem sabendo e dissessem: “Olha aí, tá namorando!”, o que me daria vontade de enfiar a cabeça dentro da terra.
            O primeiro grau acabou e só vi Helena mais uma vez. Cruzei rapidamente com ela no metrô. Ela parou para conversar, mas eu passei direto. Depois, me arrependi. Passei o resto da vida sonhando em encontrar Helena, mas nunca a achei nem nas redes sociais.

(continua)

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