Na verdade os peixes não têm de justificar coisa alguma,
nem mostram grande interesse nisso. Os homens estudam os peixes, estes
deixam-se observar.
Admirável é o peixe arqueiro. Vinte e cinco centímetros
de escamas, guelras, barbatanas dorsais, peitorais e uma fome devoradora.
Concentra-se, foca um inseto distraído, crocante e zás! uma enorme gota de água,
um jacto mortal em direção à presa que lhe cai inteira na boca. Tudo isto sem
grandes alterações internas, esforços, cálculos. Apenas a dinâmica da água e a
cuspidela certeira. Remorsos, também não. Nunca sentimos remorsos quando
comemos tiritas de milho, pois não.
No entanto, quando a fila é grande e a menina da caixa do
supermercado não cala a boca e a senhora da frente se esqueceu de trazer um
pacote de natas que está algures a dez corredores de distância, ou o
funcionário das finanças nos informa pela primeira vez, que já nos tinha
informado duas vezes e nós é que não entendemos e ele sim, ou o carro está
bloqueado porque não deixámos os piscas e a roda direita dianteira ocupou cinco
centímetros do passeio, ou os poderes por aí acima na hierarquia complexa dos
dias nos fazem perguntar, quem somos nós que aceitamos isto.
Então, sem grandes alterações biológicas internas,
esforços, cálculos, somente a dinâmica da nossa pele e zás! uma enorme e mortal
cuspidela.
E nós arqueiros a pelejar com arcos.
o peixe é o black durgon triggerfish de
Mark Laita reinventado por mim
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