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sábado, 23 de dezembro de 2017

o sonho da raposa

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

Habitava uma caixa de madeira antiga, juntamente com um soldado, um anjo, um boneco de neve, um tambor, dez bolas douradas e uma estrela. Embrulhada em papel de seda, apenas saía uns dias pelo Natal. Sacudiam-lhe o pelo, ajeitavam-lhe as orelhas, rodeavam-lhe o pescoço com um fio de nylon e penduravam-na numa agulha de pinheiro. A casa cheirava a sonhos e a rabanadas e ela nauseada, a baloiçar, a andar à roda cada vez que alguém passava e fazia estremecer o chão, o pinheiro, a agulha. Uma noite o fio quebrou-se e ela caiu. Desequilibrou-se um pouco mas logo esticou as patas, abanou a cauda e levantando o focinho sentiu a liberdade lá fora. 
Fugiu pela porta da cozinha, um sonho no céu-da-boca, a neve, o gelo e as estrelas a galopar-lhe na cabeça. 




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domingo, 17 de dezembro de 2017

um casaco com asas e muitos bolsos

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

Era uma vez um rapaz que gostava de bolsos. Grandes, pequenos, médios e assim-assim. Nos primeiros arrumava os cadernos da escola, nos segundos, as pedras redondas e as moedas, nos médios, os pacotes de leite com chocolate e nos assim-assim, tudo o que sendo invisível para os olhos da maioria das pessoas era importante para ele. Os pensamentos e os projetos por exemplo. Não se veem, mas são reais e o rapaz guardava-os para nunca se esquecer deles. Também era um rapaz com sorte. A mãe sabia costurar e ele acreditava que os seus dedos eram mágicos e que, se ela desejasse, poderia fazer-lhe um casaco com asas que lhe permitisse voar.
À noite o rapaz sentava-se num banco baixo junto dela e as agulhas iam e vinham e as linhas de cor e lá fora na rua gelada o ruído dos elétricos sobressaltava-os sempre um pouco, apesar de ali habitarem há uma eternidade. Para ele a eternidade tinha dez anos, exatamente a sua idade acrescida dos três anos que o separavam do irmão mais velho.
Se tivesse um casaco com asas e muitos bolsos, dizia o rapaz, levaria comigo tudo o que preciso e poderia voar até ao cimo das árvores mais altas ou dos cumes das serras ou dos mastros dos navios. Ou chegar às estrelas.
E o peso dos bolsos? Prendia-te ao chão, respondia-lhe a mãe.
O rapaz mordia o lábio inferior, hesitava um segundo mas não desistia.
E todas as noites, quando cansado, finalmente adormecia, a mãe costurava-lhe um casaco com asas e escondia-lhe nos bolsos assim-assim, estrelas, pingentes e cogumelos encarnados que recortava em feltro tosco, para que ele se surpreendesse nesse natal e fincasse um pé na terra, porque o outro, precisa de ar.
Nas traseiras do prédio onde moravam, protegida do barulho e da agitação da cidade, existia uma árvore grande despida de folhas que quase tocava nas varandas antigas de ferro forjado. Na primavera surgiriam os rebentos e encher-se-ia de pássaros e folhas, mas por ora, não.
Uma madrugada, uma luz estranha acordou-o. Aos pés da cama o casaco novo que a mãe lhe fizera e o rapaz pegou-lhe, contemplou-o, revirou-o, confirmou a existência das asas e por fim vestiu-o. Era tão lindo e sentia-se tão excitado que abriu a portada e saiu para varanda. Colocou um pé em cada grade, abriu os braços e gritou. À sua frente a árvore grande e despida e junto ao tronco caída na terra estava uma estrela e nunca tal facto fora antes visto e o coração do rapaz saltou-lhe no peito e um arrepio fê-lo tremer. Num impulso desceu as escadas a correr, saiu para a rua, pegou na estrela e ela brilhava na palma da sua mão.
Ninguém poderia afirmar se ele voara, se trepara um a um os ramos nus, ou se apenas sonhara. Mas leve, tão leve era o rapaz, que colocou a estrela no cimo da árvore e o seu brilho redobrou. Depois imobilizou-se um segundo a ganhar forças para a descida e porque era glacial a madrugada, meteu as mãos nos bolsos assim-assim para se aquecer e sorriu. A cada ramo prendeu um pingente ou um cogumelo encarnado ou uma estrela de feltro tosco. E porque dormiam, ninguém poderia afirmar se ele voara, saltara ou simplesmente sonhara.


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domingo, 10 de dezembro de 2017

advento

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Pode ser uma romãzeira. Decoramo-la com bolas vermelhas, fitas amarelas, cavalos de pau e tambores. Depois numa desordem organizada, descascamos as romãs e ficamos ali a trincá-las e a conversar até de madrugada.
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sábado, 9 de dezembro de 2017

"Passos Coelho ama-te!..."

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sábado, 19 de dezembro de 2015

The Braganza Mothers entra em estado de Luzes de Natal

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domingo, 13 de dezembro de 2015

a memória é um retrato de senhora enquanto peixe

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The beacon de Maggie Taylor


Os meus pés não chegavam ao chão e ficavam ali a baloiçar para a frente e para trás, outras vezes batiam naquela espécie de caixote de madeira e o homem dizia-me, está quieta, ou, não consegues estar quieta e eu respondia, não. No entanto fazia um esforço e de tanta força que fazia, deixava cair um sapato e assustava-me, o homem ria-se e eu dizia, Paco? E conversávamos os dois, sem pressa de ter a franja no lugar, a cara ligeiramente de lado, os joelhos unidos, os olhos a rir e a boca a sorrir.
Paco era espanhol, mas eu entendia tudo o que ele falava e ele ensinava-me como é que as lentes funcionavam e o flash e a aura que ficava depois do disparo, o arco-íris de cores a piscar na parede branca e mostrava-me os álbuns de fotografias, imensos, com tantos meninos sempre a sorrir e senhoras quietas, o olhar perdido quem sabe onde, senhoras antigas do tempo em que os cabelos não se despenteavam, em que os sorrisos eram discretos, calados, aquietados como as senhoras quietas. Paco sabia as histórias dessas senhoras, às vezes tristes outras tão breves como as suas breves vidas e inventava-me outras histórias de quando ele andava na guerra e lutava para que os homens fossem iguais e eu sabia o estranho que seria, ser igual àqueles meninos sempre a sorrir, de sapatinhos de laço, pés juntos e a mão pousada sobre o joelho direito.
E para estar assim quieta e não tremer, eu imaginava que era um peixe no fundo do mar, dos que ficam imóveis durante muito tempo e não piscam os olhos porque não têm pestanas e apenas movem um milímetro das barbatanas, apesar das correntes, apesar das anémonas e das lulas gigantes, dos tubarões e das baleias brancas.
Depois teimava, o meu pai tinha uma máquina Kodak e não precisávamos de estar assim sentadas num banco. Paco fingia que não ouvia, enfiava a cabeça numa enorme manga preta e disparava. O arco-íris era da cor dos peixes do mar e eu sabia que nos álbuns antigos os meninos tinham baloiçado os pés de riso.

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quinta-feira, 12 de novembro de 2015
quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Uma celebração da Luz

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sábado, 21 de dezembro de 2013

Le Crabe-Soleil du Solstice d'Hiver

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sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

. quase natal .

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É nesse instante o natal.
 
 
 
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domingo, 15 de dezembro de 2013

gabriel

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Depois chegou um anjo estranho no desequilíbrio das asas com uma promessa que nem ele entendia, não fora ela tão humilde no seu vestido de linho e a noite um imenso céu estrelado.
Falou-lhe de uma terra para lá da sua em que o trabalho dos homens é bem aventurado, doces os frutos todos permitidos no que a negação das coisas tem sempre de errado.
Que deus é esse, perguntou num fio de voz límpido como as gotas de orvalho na manhã fria. Gabriel disse, não sei, se acaso fora eu soubesse, não estaria aqui junto de ti na dúvida de quem serei eu e tu também.
Seja o que for, respondeu ela, e na incerteza das perguntas que fazemos, falar de amor é simplesmente inútil como saber do vento porque sopra ou das baleias no seu canto de morte na areia das praias.
E como se tardassem a neve e os dias, ela disse vamos e eles foram. Pelo caminho acenderam luzes nas esquinas e compraram um aviãozinho de lata para que não se sentisse só, o menino.
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quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

"Mãe" de Passos Coelho declara que o seu "filho" vai passar o Natal na cozinha. Antes aí do que andar a correr risco de vida, nas ruas...

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terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Algumas luzes pela noite

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segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Viajantes infantis das estrelas

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sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Solstício de Inverno, a Norte, Solstício de Verão, no Sul

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sábado, 15 de dezembro de 2012

Seres Celestes

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quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Infinitos fragmentos de estrelas, para Maria Amélia Ganho de Mello (Breyner)

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O Mundo está repleto de sombras, que nunca ascenderão à forma humana. De entre poucos, Maria Amélia tinha todos os predicados daquela sombra de uma sombra, nome dado por Píndaro aos parcos humanos, dos jogos imortais.

Durante os anos seletos de um Portugal perdido, muitos, de entre poucos, se faziam à estrada, deixando Lisboa pelas costas, e rumando a Montemor, onde, no seu monte discreto, Maria Amélia assegurava um reinado do Absoluto. Como todas as coisas importantes da vida, nem o lugar, nem ela, estavam imediatamente à vista, e eram um segredo guardado, precisado de afastar com as mãos, para, por detrás dos ramos, enfim, entrever o santuário, que Maria Amélia construíra no "Chaparral".

Uma lei da pobreza diz que a arte maior da culinária se deveria reger pelas economias do esforço final. Como todas as figuras grandes, Maria Amélia vivia exatamente ao contrário, colocando um esforço enorme, muito acima de quaisquer economias, já que uma das formas mais elevadas do amor do próximo é saber despertar-lhe um sorriso, pelas formas subtis.

Todas as Artes, que se sufocam em perfumes, odores e paladares, também conhecem os seus maiores mestres, cuja generosidade é empenhar o talento extremo no esvair do efémero. Há os que criam as sombras dos perfumes, e os que sonham com a volatilidade do tato. Maria Amélia, pelo seu lado, conhecia todas as subtilezas da arte do paladar.

Na cozinha portuguesa, onde reina aquela perigosa elipse da falta da tradição palatina, que nos atira para os extremos da tradição popular, ou as doçuras sublimadas dos conventos, há uma dificuldade circular, que envolve o público, a História, e a miséria do presente. Na realidade, sempre que a moda, hoje, nos invade com figuras patéticas, que, com décadas de atraso, epigonizam o que, "lá fora" já está profundamente obsoleto, a colherzinha de arroz, com um quarto de alcachofra, encimada de meia folha de hortelã e um pauzinho de canela, ao lado, o rasto de um líquido colorido e coleante, com uma enorme cifra de euros ao lado, só me desperta aquela eterna vontade do pontapé, e de atirar a coisa pela janela, mas tudo isto não são, senão, sinais de que o tempo passa, e a miséria grassa. Em Barcelona, também o "El Bulli" fechou as portas, para se estilhaçar em vinte pizzas hut e alguns mac donalds, que é quanto deveria valer o melhor restaurante do Mundo.

A sentença disto é que são sinais de que as grandes coisas estão a ficar fora de moda.

As massas detestam a sofisticação, e clamam pelo patamar mais baixo. Maria Amélia, obviamente, estava completamente fora de moda, e essa era uma das suas maiores grandezas. Tinha a arte de tornar as coisas populares em palacianas, e as palacianas em sumamente artísticas. E é verdade que ninguém montaria um restaurante ditado pelo prejuízo, para que o lucro fosse apenas o prazer dos seus felizes frequentadores. Se lhe deu medalhas e dezenas de prémios, nunca conseguiu fazer dela uma mulher de fortuna, exceto daquela fortuna sublime, que era ela própria, e a subtileza dos seus afetos.

Esta era a primeira Maria Amélia. A segunda, acreditava que viajar também era uma forma de eternidade, e é. Atravessava, agarrada aos apoios dos braços, aquelas sempre incómodas turbulências da convergência intertropical, a 32 000 pés de altura, quando se passa de hemisfério, e se vai procurar o verão nas terras de Santa Cruz.

Lembro-me do jacuzzi do "Ocean Palace". A Maria Amélia -- e esse era o seu pior defeito/qualidade -- adorava provar todas as maravilhas gastronómicas que criava, e isso ia, demasiado direito, para a sua massa corporal... Nunca esquecerei aquele misto de olhar desejoso e angustiado, de quem sonhava entrar na piscina azul, circular, cheia de jatos, mas não sabia como. Só a Maria Amélia me faria rir, e bastou estender uma mão, para a ajudar a entrar, embora eu não tivesse percebido o verdadeiro temor que a atravessava, o medo de... depois... não conseguir sair: "Luís, e, depois, como é que eu depois faço para sair?...", e eu, da mesma maneira que lhe dei a mão para entrar, disse, depois sairemos juntos, de mão dada.

Estava inaugurado o Paraíso. O tempo era de Plotino, com todos os seus níveis de ascensão para a Gnose. Também o jacuzzi continha minuciosas subtilezas nos seus vários jatos, sendo a primeira, a necessidade de o esvaziar de criancinhas horrorosas, arte na qual sou especialista, que é votá-las ao desprezo, até que se evaporarem. A partir de aí, o jacuzzi era nosso, e podíamos passar horas, entre as bolhas mais fracas, as inclinadas para a direita, as horizontais, o jato forte, a massagem total, e o prazer, realmente, absoluto. No meu limitado zénite, era bom poder ter dado à Maria Amélia, que tanto tinha oferecido a tantos, alguma coisa nova, simples, como são todas as maravilhas da vida.

Os dias sucederam-se aos dias, naquele corte do Equador, de 12 horas de luz e noite. Durante o dia, lentamente, transformámos o Jacuzzi no Belvedere, com Schönbrunn ao fundo, que não era mais do que o espantoso Morro do Careca, omnipotente, omnipresente, e magnético, desde a manhã, das varandas dos quartos até à derradeira luz do crepúsculo veloz, mas isso importávamo-nos pouco, porque a Cultura, como a sensibilidade, é uma coisa interior, e qualquer areia se pode converter num palácio, e uma piscina num pavilhão palatino. À noite, já sozinho, não dispensava uma passagem pelo jacuzzi, progressivamente batizado "Jacuzzi Maria Amélia", onde a Maria Amélia não estava, porque já dormia, mas o jogo de luzes percorria todo o espetro musical, através dos jatos de água desertos. Essa era a sombra noturna de Maria Amélia, que, para sempre, ali ficará.

A terceira Maria Amélia era mais perigosa, porque nos fazia colidir a dieta de sumos tropicais com as célebres lulinhas fritas, para comer, com a nossa Nicha, à beira da piscina. "Uma coisinha leve...", como ela dizia, e, realmente, era, comparada com as doses do "Chaparral", e a crise só se instalou quando as lulas, já então, também "Lulas Maria Amélia", se tornaram indispensáveis no nosso permanente vaivém de travessias do Equador, e muitas, e muitas vezes depois, ao longo dos anos, como um ritual, às vezes, até debaixo de brutais chuvas tropicais, se teve de render homenagem ao Jacuzzi e às Lulas Maria Amélia...

Voltadas as brumas da Europa, havia aquelas visitas de cozinha, onde o prato demorava uma eternidade até estar perfeito, e estava, depois de a Maria Amélia o ter provado dez vezes, para confirmar se estava no nível mais elevado de Plotino. Estranho é que se possa dizer que se pode ascender à Gnose, pelo Paladar, mas podia-se, tal como o Paladar era uma imperiosa forma do seu afeto, disparada em mil direções. Cá fora, entre os azevinhos, passavam os cães pela sombra, e procurávamos o célebre javali, que era a divindade ctónica daqueles espaços. Algumas vezes, ao mergulhar os olhos nos dedos de neblina que a noite trazia por entre as árvores, eu lembrava-me de que aquilo era solitário, e perigoso, como foi, mas até aí, ou sobretudo aí, Maria Amélia ainda se soube erguer mais alto do que o mais alto, numa história que não poderei grafar aqui.

Todos os sonhos acabam. Uma sociedade regida pela banalidade, sobretudo a pior banalidade, a banalidade dos sentidos, não se compadece com 100 quilómetros para ir conhecer maravilhas do paladar. Assim, o prazer implodiu, na forma dos números, e a Maria Amélia deixou o Alentejo pelas costas agrestes da Ericeira, onde o velho Portugal, um dia, se despedira, no mar, das suas velhas formas reais.

Com Maria Amélia partiu uma parte importante de mim, como deverão sentir, do mesmo modo, todos os que a conheceram. Os grandes mestres são filhos da sombra e só a luz os banha, depois do irremediável, mas isso é completamente desinteressante, porque as pessoas radiosas apenas aguardam a sua arrumação celeste, e poucos lamentos esperam, da transitoriedade terrestre. Apenas a nota de que a Natureza é injusta, ao conceder, como última visão de um ser profundamente humano, e ligado aos sentidos, às águas, às florestas e aos seres vivos dos arbustos rasteiros, o retângulo melancólico de uma janela de hospital, e é por isso que temos de ir, imediatamente, mais alto.

Maria Amélia partiu com o verão, onde o nosso hemisfério quente é pobre de estrelas: só Altair cintila, na Águia, enquanto Algol, fulminante, nos atrai o olhar. As estrelas errantes conjugam-se, nos nomes de Júpiter, Úrano e Marte, assombrosamente perto de nós, para todas as invejas de Rigel. A Lua impera. Ao contrário de Penélope, todas as noites, Maria Amélia repunha, no seu tear da divina gastronomia, o que os seus apaixonados volatilizavam, como uma infinita chuva de Leónidas. Como em Monteverdi, "torna il tranquilìo al mare, torna il zeffiro al prato, l'aurora mentre al sol fa dolce invito a un ritorno del dì ch'è pria partito. Tornan le brine in terra, tornano al centro i sassi, e con lubrici passi, torna all'oceano il rivo. L'huomo quaggiù ch'è vivo lunge da' suoi principi porta un'alma celeste e un corpo frale; tosto more il mortale, e torna l'alma in cielo, e torna il corpo in polve, dopo breve soggiorno".

E, assim, ascenderemos agora ao zénite, aos patamares de Maria Amélia, onde Deneb, pontificando no Cisne, assiste aos deuses que fletem o arco, e, como numa estonteante estrela ascendente, a corda é brutalmente solta, numa harmonia de Esferas, lançando-a até um inconcebível horizonte, para integrar esse oceano estelado, onde todos os que muito a amámos, num dia, nos voltaremos a sentar, para com ela cear, com o mesmo sorriso cúmplice, e aquela afetividade sublime.

Até sempre, Maria Amélia.
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