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domingo, 31 de dezembro de 2017

replicante

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

E então no último dia daquele ano, encontraram a fivela perdida, a que se escondera no fundo da gaveta, no bolso do casaco, na caixa antiga dos botões. Não lhe fizeram perguntas inúteis, não a criticaram pela longa ausência. Prenderam-lhe uma fita de seda e a fivela de jade dançou até ser amanhã. Ao longe as vozes, os altos, contraltos, sopranos e os tenores também. A afastar a escuridão.

...a replicar, "As fivelas de Jade" de Luís Alves da Costa

E então as árvores cobriram-se de vermelho, e o vale das ginko selvagens amareleceu. No Reino de Hongshan era o tempo breve das fivelas de Jade, e logo os cortesãos as cruzaram nas fitas de seda. Ao longe, só eram cítaras e brumas.



Nesta passagem 
e que seja luminosa a outra margem



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domingo, 7 de maio de 2017

domingo violeta

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Morava numa casa de pedra coberta de hera e antiga era a casa e velhos os avós e os bisavós e ela tão pequena ainda. Ouviam-na mal. Ela dizia, bom dia e eles respondiam, parou de chover minha filha. Esqueciam-se de tudo, das horas, da sopa no fogão, das idas ao dentista, de fechar as janelas, de chamar o cão. Perdiam-lhe as meias e os casacos de lã e trocavam-lhe o nome. Maria, Ana, Carlota, Luísa, Margarida. Raramente acertavam e quando o faziam, já ela ia longe.
Liam-lhe os livros das estantes, ensinavam-lhe provérbios, advérbios e as palavras esdrúxulas acentuadas e as outras esquisitas, estranhas como ela. Falavam-lhe da raridade das flores de pessegueiro numa terra prenhe de pedras e escassa em húmus e em vida.
Ela amava os avós e estes gostavam tanto dela.
Às vezes perguntava:
-Onde estão as outras crianças?
E os avós dormiam.
No espelho do quarto escondia-se uma rapariga como ela, mas feia, antipática, agressiva. Invejava-lhe a voz e o brilho dos olhos e se ela dizia, olá, a outra baixava a cabeça, cerrava os punhos como se quisesse bater-lhe e respondia-lhe o silêncio das superfícies desertas. Um dia fartou-se, tapou o espelho com um papel branco e desenhou uma árvore despida. Num impulso, desceu as escadas a correr e gritou aos avós:
- Vou buscar as flores de pessegueiro e encontrar as crianças perdidas.
- Parou de chover minha filha. 
Lá fora a hera dos muros crescia reptante e os pássaros debicavam-lhe os frutos ávidos de alimento e cantoria.
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domingo, 9 de outubro de 2016

os segundos dias

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Seguiram-na, as da lua e as outras, a abrirem caminho pelo oceano adentro. E nos recantos mais ocultos do universo, nenhum ser se sentiu sozinho no instante da travessia. Porque é mãe de água o mar, a embalar.
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domingo, 13 de março de 2016

Francisco

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Entre os dois existia um poço, fundo, escuro, onde o eco brincava e brincando assustava. Ela dizia, bom dia e ele saltava, ágil, feliz, os olhos brilhantes antecipando guloseimas e atenção. Uma pausa, em que se olhavam reconhecendo o cheiro um do outro, as nuvens que pairavam na voz, o calor sufocante da manhã de setembro, o trotar de uma velha carroça, desarticulada, barulhenta, arrastando o odor forte de estrume e mosto.
Depois sentavam-se, um de cada lado do poço. Ela metia a mão no bolso, devagarinho, para que o instante não fosse apenas um segundo mas tivesse a consistência de uma casca, de uma semente, de uma pele castanha avermelhada, de uma eternidade reencontrada.
Ele entrava no jogo, porque era de um jogo que se tratava, de sedução, de encantamento. Ambos sabiam como terminava, mas que importância tem o fim se existe tanto pelo meio. Ela chamava-o, Chiquinho e num golpe certeiro atirava-lhe um amendoim e ele apanhava-o sem mudar de posição, a mão aberta, a linha invisível que une o objeto ao seu apanhador, caçador de frutos quentes, trepador de ramos e de muros.
Chiquinho tinha um dono viajante, ladrão de animais raros, exibia-os como um troféu mas abandonava-os por aí ao sabor de casas de férias e outras, enjoado da vida, ansiando a próxima partida, desligado de quem capturava sem piedade. O macaquinho era pequenino como a rapariga dos bolsos e tinha saudades de ser pequenino e gritar livre atrás da mãe, morder os irmãos numa algazarra doida, ser aquilo que nunca mais lhe permitiram que fosse. Tinha frio no inverno naquela terra rural longe do mar e a rapariga sentia saudades da praia e não queria saber de uvas e de vindimas, nem de carroças chiadeiras, nem do sufoco de um dia de verão. Por isso eram tão amigos e os olhos tristes de Chiquinho apenas se incendiavam com a sua presença e a sua voz fininha de criança com tantos bolsos e em cada um qualquer coisa de espantar. E ela inventava-lhe uma história de fugas, em que sonhava enviá-lo de volta aos lugares onde ele retomaria a sua vida interrompida de trepador de ramos, de chuvas intensas e de eterno e húmido calor. Nunca se tocaram. Entre os dois existia um poço e aquela amendoeira que brilhava ao luar.
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domingo, 7 de fevereiro de 2016

domingo gordo

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Comeu duas lérias de Amarante e uma queijada de Murça ao pequeno-almoço. Uma alheira de Mirandela às treze horas e trinta minutos. Merendou Sericaia com ameixas de Elvas e para evitar azias, tomou pelas vinte e uma horas uma canja leve de galinha do campo com ovos, miúdos, arroz e uma gota de sumo de limão.
Só muito depois se lembrou das flores de pessegueiro lá fora
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domingo, 24 de janeiro de 2016

unicórnio

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E o unicórnio disse-lhe, desenha-me um campo de aveia virado para o mar, mas sem pressa porque temos o dia todo. Então o homem pintou-lhe ao pescoço um cordão dourado e esqueceram-se da aveia a crescer.
Imóveis na paisagem dunar, as morganheiras-das-praias e o feno-das-areias.
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domingo, 29 de novembro de 2015

. intemporal .

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domingo, 23 de agosto de 2015

alpendrar

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quando construo uma casa, é com alpendre

para que se abriguem as primeiras chuvas de agosto e os dentes-de-leão

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domingo, 12 de julho de 2015

no verão

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A casa era a mesma, mas também já não era. Talvez fossem as cortinas de cassa branca nas portadas abertas, ou as tábuas corridas do soalho a cheirar a cera, ou o reflexo do sol nas ameixas.
Numa tarde qualquer, escondíamos no sótão a rede de apanhar borboletas. E elas nunca se deixaram apanhar.
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domingo, 21 de junho de 2015

solstício

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Lançou-se à água como sempre fazia. Sacudiu as patas, alisou as penas, mergulhou no lodo o bico recurvado para cima. Saciou a fome como ontem saciara e amanhã quem sabe ou não sabe o que faria.
Entre o dia grande e a pequena noite respirou, ora num pé ora no outro a declinar o canto trissilábico que apenas ela conhecia.


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domingo, 17 de maio de 2015

outra vez mergulhão

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O céu está perfeitamente limpo, o vento sopra moderado do quadrante nordeste, as temperaturas máximas a subir até ao topo das montanhas e as mínimas a descer ao fundo dos açudes. Num copo alto deita-se o sumo de dois limões, água e dez cubos de gelo. Ao mergulhar é preciso apenas ter cuidado para não quebrar o bico.
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sábado, 2 de maio de 2015

. Luís Alves da Costa .

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domingo, 19 de abril de 2015

aprendizagem do voo

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Ficava ali tardes inteiras a vê-las voar. Às vezes até lhe doía o pescoço. Depois apanhava um ou dois insetos e prendia-os no bico e elas num voo picado roubavam-lhos a bicar.
A água arrefece sempre um pouco quando o sol se põe.
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domingo, 5 de abril de 2015

o coelho chega mais tarde no domingo de páscoa

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Assim que pôs uma pata no passeio foi abalroado por um grupo de turistas felizes que o apontaram a dedo. E antes que abrisse a caça ao coelho, deu meia volta e regressou a casa. Colheu cenouras, colocou um avental e a cantarolar fez uma torta doce ensopada de sumo de laranja. Ao entardecer, beberá dois cálices de Porto velho mesmo que chova.


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domingo, 8 de março de 2015

folha-do-mar

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Pegou na folha e foi espraiar. Enfrentaram as ondas, o vento de feição e elas no sentido oposto das marés a rivalizar veleiros e baleias. Dizem que os polvos e os peixes-lua nunca tinham visto nada assim.
O que me apetecia mesmo era saltar já para o verão.
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domingo, 26 de outubro de 2014

escala cromática

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domingo, 5 de outubro de 2014

outubro

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Por este tempo, os bolsos cheios de castanhas, os dedos dos pés a saírem das sandálias de grandes que o mar os fez, não tarda o arrepio do frio.
Pela mesa, as folhas de papel marmoreado nos tons das outras lá fora e forrávamos as capas dos livros e dos cadernos para que ficassem todos iguais e depois para os distinguir, colávamos uma etiqueta branca com um passe-partout azul. Um movimento uniformemente contraditório. 
Mas do que eu gostava, era do canto da escrevedeira-de-garganta-preta a escrevinhar letras nos ramos das árvores.
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domingo, 15 de junho de 2014

com muito gelo

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Gela-me, disse a rã. Queres um gin tónico ou uma limonada, perguntei. Ela respondeu, croac e mergulhou no Pisang Ambom.
A canícula afeta-nos.
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domingo, 9 de março de 2014

prunus persica

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Trocou a verticalidade por uma ligeira inclinação, nem ele sabia porquê. Um vento norte, um gato gordo ali na ponta de um ramo e ele vergou talvez.
Não se importaram os rebentos de flor, as folhas enroladas como papiros, um dia pêssegos de pele macia, peludos, sumarentos, doces. 
E nunca as aves voaram tão rente, quarenta e cinco graus sem respirar.
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domingo, 23 de fevereiro de 2014

tardio

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Foi um grito no céu, três pares de asas pretas, volteios e contravoltas, depois o silêncio.
Deu-me uma saudade de bandos, telhas de marselha e chá de hortelã-pimenta, eu sei lá se eram ou não as andorinhas.
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