Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas
Diário íntimo de uma primavera
"Tinha concluído. Recuou três passos e apropriou-se do universo fantástico que criara. O cometa, a constelação maior, os cervos, o escaravelho gigante, a floresta, os trilhos. Logo de seguida preparou o gesso e trabalhou as partes laterais das telas e lá fora a primavera instalava-se e inundou-lhe as janelas abertas, as tintas, os pincéis, as paredes, os cabelos e os olhos e foi nesse instante que ela entrou. Esvoaçou fixada nas cores, à volta do gesso e se pousasse colava-se, moldava-se em estátua para sempre.
Ele tentou recordar-se da morfologia inquieta das abelhas. A ferroada, o espigão, a moeda de cinquenta cêntimos para fazer passar a dor, não passava, não. Cinco olhos, três simples e dois compostos, a visão aumentada dos objetos, a alucinação da luz e do movimento e não sabia, apenas imaginava o que ela via.
Depois num voltear mais amplo ela saiu e ele fechou a janela. Do outro lado do vidro a abelha batia e ali ficou muito tempo a bater e quem sabe talvez amanhã a polinização mágica dos cometas, da floresta, dos trilhos, da luz."









