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sexta-feira, 9 de março de 2018

Vídeo completo do Kléber, do Estoril, a contar o dinheiro sujo do ordenado (as notas verdes são as que vieram do Pinto da Costa)

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domingo, 3 de abril de 2016

ilustração

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

Pelos meus olhos,
                                  
o forte da Cruz em noite estrelada



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domingo, 4 de outubro de 2015

não sei porque é que acordaram cedo e bateram com a porta

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Tenho quase a certeza que não é domingo. O despertador tocou, as torradas queimaram-se, não me encheram a tigela de água, pisaram-me a cauda, saíram e bateram com a porta.
Não me importei, este é o meu território. Com uma patada derrubo o frasco das bolachas, enrolo os tapetes em grandes corridas e antes de me enroscar, afio as unhas no sofá da sala.
Pensaram que hoje ia ser um dia diferente? E eu é que sou gato.


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domingo, 31 de maio de 2015

pé verde coração encarnado

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domingo, 22 de fevereiro de 2015

cosmos

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cosmos é uma flor viajante


Dá-me confiança saber que tenho um cosmos a crescer ali numa floreira pintada de amarelo sol. Dizem que é uma flor composta e eu esforço-me para não a descompor com esquecimento de regas e de conversas em surdina para a fazer espigar. Já confessei uma vez que não sou dedicada às plantas, esqueço-me delas, habituo-me ao seu silêncio de pétalas e não o quebro. Desejo que se multipliquem mas não gosto de as cortar e colocar numa jarra. Não existe pássaro, nem abelha, nem borboleta, que reconheça um objeto de vidro ou de cerâmica como um ser atraente.
Mas possuir o universo com um pé na terra tem-me posto a cabeça a girar e deu-me ganas de comprar um casaco com lapela e levá-la a passear com vaso e tudo. 
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domingo, 1 de fevereiro de 2015

o homem que se faz passar por coelho

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Man Pretending to be a Rabbit de Maggie Taylor

Criámos dois coelhos brancos e pretos. Seguiam-nos pela casa, esperavam por nós à entrada da porta, roíam-nos as meias e os sapatos, eram mansos e felizes num mundo de cenouras e livros espalhados pelo chão. Um dia veio a cozinheira, matou-os. Ao jantar, serviu-os à caçadora com batatas fritas aos palitos. Nós não sabíamos identificar coelhos no prato e quando percebemos, era tarde demais. Vomitamos até hoje, por esta e muitas outras razões. Este conto existe, é cínico, maldoso e intolerável.


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domingo, 14 de setembro de 2014

domingo catorze

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Na confusão do aguaceiro perdeu-se do outro, do direito ou talvez fosse do esquerdo. Com estes sapatos sempre troquei os pés, resmungou desconsolado. E agora descalço-me, é única maneira de não parecer ridículo e tirando o sapato, meteu-o no bolso.
Chegou a casa com três espinhos no tarso, sentou-se, abriu o computador e digitou: perdeu-se sapato às riscas com saudades do Verão. Não sei a quem agradecer se o encontrar.
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domingo, 13 de julho de 2014

praia-mar

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Num momento qualquer, sentiu saudades de casa. Pegou na concha, encostou-a ao ouvido e disse, quem fala? A maré encheu-se de riso.
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quinta-feira, 10 de julho de 2014

Pretas em fúria mostram que o Tamariz já não é a praia de banhos da elite, mas das subcaves do Cavaquistão

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domingo, 6 de julho de 2014

a viragem

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Apagou a memória, a sua e a do computador. Deitou no lixo duas ou três substâncias desconhecidas que lhe morriam nas caixas do frigorífico, um pacote de leite fora de prazo, uma cenoura. Inundou os vasos de água, lavou a loiça e deixou-a a escorrer. Pegou no saco e na gaiola do pássaro e saiu a assobiar.
Parou no segundo esquerdo, largou o pássaro e a gaiola, deu-lhe um abraço, muito obrigada, pode ficar com ele se eu não voltar. Ela riu-se. Adeus, não se esqueça de virar para o lado do sol.
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domingo, 29 de junho de 2014

conto de um entardecer antigo

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Nas árvores do pátio cantavam pássaros mas aquele não. A mulher juntava as linhas e as agulhas, desdobrava linhos e a ave por ali a saltitar e ela estendeu um pano branco e ele ficou, a cabeça de lado, o bico entreaberto e ela imaginou-o em ponto a cheio com linha de seda ou pé de flor.
Nessa madrugada cozinhou um pão de sementes de sésamo com umas gramas de outras, de papoila, para cativar o pássaro. Foram muitos os que sonharam com manteiga derretida tal o cheiro bom que o vento fez entrar pelas frestas das portas e das janelas. O pássaro não se cativou. Esvoaçou duas ou três vezes sobre o pano branco e as migalhas de pão e foi catar insetos nos ramos do castanheiro.
Ela não desistiu e enquanto enfiava as agulhas e cortava as linhas assobiava-lhe notas do fá ao si e terminava em sol. Respondia-lhe o silêncio do pássaro e este não se deixava cativar.
Então ela pegou no pano branco de linho fino e sem desenho nem papel foi bordando o pássaro. Separava e juntava as cores e as linhas de seda macia ganhavam movimento e quando terminou, parecia tão vivo aquele ser alinhado que alguns o cobiçaram e quiseram comprar. Ela recusou.
Ao entardecer, desdobrava o pano onde voava o pássaro de seda e estendia-o no pátio. O pássaro silencioso chegava, volteava, saltitava à sua volta.
Uma noite voaram os dois. 
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domingo, 2 de fevereiro de 2014

o tigre e o rapaz

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Iam à pesca aos domingos. O tigre sentava-se na margem do rio, cruzava as patas dianteiras e esperava. O rapaz dizia-lhe, chiu, não faças barulho e o tigre não dizia nada porque já estava calado. A cana de pesca era tosca e a linha prendia-se nas pedras e nas plantas aquáticas e seguia o curso do rio, autonomizava-se, esquecia-se do seu destino alinhado aos peixes e aos camarões. A cana ficava só. Então o rapaz saltava para o dorso do tigre, enrolava os braços no seu pescoço e partiam os dois à pesca sem linha. Silenciosos, vagarosos, quase invisíveis e de repente uma patada certeira atordoava as presas e o tigre e o rapaz riam como doidos e não capturavam nenhum. 
Quando se cansavam, regressavam à margem, faziam uma fogueira e assavam pedaços de coco e de batata-doce. Afinal nenhum deles gostava de peixe.  
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domingo, 1 de dezembro de 2013

parecem-me doces as laranjas não fossem os melros bicar-lhes a cor

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Peça em um só ato, acto, para que se me desate o nó de recontar. A época é distante, ou seja, esta que vivemos ou uma outra qualquer, tanto faz. O que existe de melhor e de mais horrendo em cada um de nós permanece imutável. Eu sou eu neste momento aqui e teria sido eu no século XVII e serei eu no ano 2055. Sobre um palco tudo isto é real, os paradoxos desfazem-se, as ilusões refazem-se.
Três personagens caminham por uma estrada. Um rapaz, o pai, António, ainda muito jovem e o senhor Teodoro, um velho viajante. O sol acaba de nascer. O rapaz, descalço, corre à frente do pai com uma gaiola na mão. O viajante, mais atrás, carrega um saco de veludo azul.
Rapaz: Mais depressa pai, assim nunca mais chegamos.
António: Tem calma, não agites tanto a gaiola. Vais mareá-lo.
O senhor Teodoro: O seu rapaz tem cá uma energia. Perdoe a intromissão, mas é tão triste viajar sozinho. O meu nome é Teodoro.
António: Eu sou António e esse aí é o meu filho. Está ansioso por chegar e soltá-lo.
Teodoro: Onde?
António: Não sabemos bem. Tanto pode ser um monte, uma praia, uma floresta, um sentimento. Tem apenas de ser o mais longe possível da cidade dos homens-lâmina que nos laminam também.
Teodoro: ohh.
António: Já os encontrou?
Teodoro: Há muito tempo. Por isso carrego este saco.
O rapaz pára de repente e coloca a gaiola no chão: Tenho sede, pai.
António: Então vamos descansar junto daquela laranjeira e depois continuamos.
O senhor Teodoro: Parecem-me doces as laranjas, um pouco pálidas talvez.
O rapaz, o pai e o senhor Teodoro sentam-se no chão. O velho viajante percebe que a gaiola está vazia e o rapaz diz-lhe, é o meu sonho, vou soltá-lo.
E fecha os olhos, sentado ao colo do pai.
As luzes diminuem de intensidade até focarem apenas o saco de veludo azul.
O senhor Teodoro abre-o, tira uma agulha, as linhas de cor. Entoa uma ária velha como ele e vai pousando sobre os joelhos o guarda-roupa das cenas ainda sem falas, os vestidos brancos, os calções de príncipe, os chapéus de caçador.
contos de palco, o segundo
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domingo, 13 de outubro de 2013

peço-te desculpa Rembrandt mas encheste-me a cabeça de traços

Damos-lhe um golpe certeiro sobre a mesa de pedra, uma a uma. Não pode ser demasiado fundo, nem superficial. Já dentro de uma taça grande, entontecemo-las de sal grosso.
A arte está na fogueira. Pedaços de madeira secos, pinhas e caruma. Algumas horas depois quando tudo for cinza a escaldar, é que as assamos neste quase pó. Pelo meio fica a noite de outono e aquele falar de amigos de tudo e nada.
Nem está vento, mas chegou-me o estalar da casca das castanhas.
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domingo, 29 de setembro de 2013

falemos de coisa nenhuma

De nuvens de gafanhotos por exemplo. Estamos no café, o senhor da mesa ao lado pede um abatanado e só esta palavra, abatanado, irrita-nos sobremaneira. Parece um café com dores de cabeça, pior que pingado, que abananado, que é uma banana saturada de café.
E aí atiramos, o senhor já reparou nas nuvens de gafanhotos que se formaram sobre o rio? O homem suspende o gesto de segurar na chávena dupla onde navega um grama de cafeína e nós continuamos corajosamente, às tantas devoram-nos as folhas dos citrinos e depois… Acentuamos este e depois, mas deixamo-lo em suspenso, como os ditos gafanhotos. Como uma ameaça velada de um perigo que nos roubará os limões, as tangerinas, as laranjas da baía e quem sabe, as do algarve.
Ele balbucia, não percebi, e nós respondemos, claro que não, é um absurdo.
Quem nos dera outro verde no ar.
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domingo, 2 de junho de 2013

29º hemisfério norte

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O café deve ser forte, arábica para aguentar, o açúcar mascavado e o limão acabado de apanhar. Debaixo de um jacto de água da torneira, lava-se bem para tirar a caca dos pássaros e as teias de aranha, pega-se numa faca afiada e na tábua da cozinha cortam-se rodelas finas e milimetricamente semelhantes. O gelo laminado. Não interessa como. Pode sair de um frigorífico moderno que nos entrega a água já gelada, capaz de catalogar as caixas de congelação, de as identificar sem misturar a base da sopa de cenoura com a carne à bolonhesa. Alguns também são ecológicos, poupam energia e possuem várias memórias de conversação consoante sejam invadidos pelas crianças em busca de sumos ou pelo avô que guarda a garrafa do whisky de malte escondida na gaveta dos legumes. Os mais educados são caros, mas agradecem sempre que fechamos a porta com o pé e esta bate sem que o consigamos controlar. Na falta deste modelo, serve um martelo e um saco de plástico resistente. Neste caso o gelo não sairá laminado, mas lascado, que é aquela forma como às vezes nos sentimos ainda o verão mal começou.
O movimento de bater no gelo não é isento de perigos e os dedos mais frágeis são o anelar e o mindinho seu vizinho, com quem gostamos de partilhar o limoeiro, mais propriamente aquele que nos rouba os limões.
O segredo está na proporção talentosa dos elementos, o café, a água gelada, o açúcar, o gelo, as rodelas de limão. Mistura-se com uma vareta num jarro de vidro azulado translúcido para brigar com o amarelo branco preto limão.
Bebe-se pausadamente ou só de um trago e o sabor será igual.
Entre o factual e o imaginado a luz refrata-se no jarro de vidro azulado e o pássaro da tarde já cantou.
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domingo, 10 de fevereiro de 2013

do tejo

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seria a flor da laranjeira que cobria a noite daquele odor adocicado o desejo ingénuo de bater com força uma porta qualquer da vida
um vaso quebrado na janela do primeiro andar o Tejo ao fundo é este rio manso as gaivotas não sei onde dormem talvez na areia das praias dos pescadores
sargaço

Não sei porque escrevo assim, disse. E abriu as portadas da varanda. Na gaiola vazia a memória do canário que não cantava de tristeza e um dia voou e agora dá-lhe uma paz sabê-lo esvoaçar de pássaro.
O senhor do segundo direito, tosse, espalha folhas de jornal sobre as telhas para que os gatos vadios saibam que aquele território é o seu. Dele, homem. Mais tarde irão com o vento que se levanta nos telhados de Lisboa, as letras das palavras escritas misturadas com as más notícias e cai o tê maiúsculo num banco da avenida, o zê escorrega pelo focinho de um cão. Os jornais são companheiros dos velhos e bronquites crónicas como o medo.
Os cacilheiros cheiravam a alcatrão e a outra banda era do outro lado, esse é um sentimento de segurança que não sentirão mais graças a deus.
As margens fixas fazem estalar as têmporas, é apenas um conceito, nem tem que ser demonstrado, basta acreditar nele e os olhos mudam.

espalham-se pelas ruas latas de cerveja urina e vomitado o grito escuro quem disse que é preciso ir longe para agarrar duas mãos
desdobra-se um nó na garganta antes do sol nascer cegos os anjos da guarda
minha companhia

Não sei porque é branca e azul a luz da minha cidade, disse. E viu no rio os golfinhos do Tejo outra vez, enquanto um barco se afastava do cais. 
No vaso quebrado cresceram bem-me-queres de olhos de sol e bicos de lacre e agora dá-lhe uma paz saber-se escrever assim
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domingo, 13 de janeiro de 2013

o pássaro do coração

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Hoshi abriu a túnica, retirou do peito o tecido dobrado em quatro, pegou em duas pontas e soltou-o. O pássaro pintado era tão real e tão belo que o velho Haru deu um grito de espanto. Nunca tal vira e sabia de antemão que não seria capaz de reproduzir uma ave assim e se isso viesse a acontecer correria o risco de replicar o irreplicável, de tocar o intocável, de agitar o que jamais deveria ser agitado.
Mas os olhos de Hoshi brilhavam de alegria e tão simplesmente lhe contava dos trezentos e vinte cinco panos guardados no cesto de vime e das moedas que juntara para os comprar e de como seria bom se todos os habitantes da sua aldeia tivessem um pássaro raro a ondear nas janelas, que Haru, o pintor a quem os deuses bafejaram as mãos com um dom inigualável, calava-se e calando consentia num sonho mais alto que as montanhas geladas a norte da sua casa.
Hoshi era jovem, impulsivo, corajoso e generoso. Haru era velho, bondoso e talentoso e no pátio brotou um segundo rebento de cerejeira e ele ousou dizer sentindo o coração descompassado: temos sete dias para transformar os teus panos e outras tantas noites para soltar os teus pássaros. Aprenderás tu a pintá-los, porque se as tuas mãos calejadas fazem crescer os arrozais e penetrar na terra o arado, também se transformam em veludo quando acaricias a cabeça do teu cão.
No primeiro dia madrugaram e atravessaram as florestas de tílias, a ponte sobre o rio gelado. Colhiam pedaços pequenos dos ramos mais frágeis e com um canivete afiado faziam os cabos dos pincéis, as cerdas de marta. Pediram conselho aos monges que conheciam os segredos dos corantes naturais e da textura das sedas e aprenderam a esticar os panos em esquadrias de madeira. Ao entardecer eram quatro as crianças que os seguiam e quando o sol se escondeu no horizonte, entraram no pátio doze rapazes e dez raparigas ansiosos por aprender a arte dos tecidos.
Nessa noite ficaram mais leves os sacos de arroz na despensa de Haru na proporção inversa ao ânimo que sentia.
Ao segundo dos dias o galo cantou e nas cozinhas as avós fritaram bolinhas de carne e de arroz e prepararam taças de chá verde e sopa de Miso.
O açafrão, a terra, o barro, as ervas esmagadas, a gema dos ovos. E os tecidos resplandeciam.
No terceiro, quarto, quinto e sexto dia eram tantas as crianças sentadas em silêncio junto ao pátio de Haru que este se assustava perguntando como é que eu aqui cheguei e eles comigo?
Todas as noites Tsuru o pássaro, largava o tecido que habitava e voava sobre as cabeças adormecidas. Fazia rir as crianças nos seus sonhos, desinquietava os jovens, soprava telas e tintas nos cabelos brancos de Haru e transportava Hoshi nas suas asas até ao reino dos peixes e das baleias brancas onde ele nadava nu como só ele sabia.
Na tarde do sétimo dia caiu a flor da cerejeira e todos os panos de seda secavam ao sol, mas em nenhum deles se via um pássaro de longo bico como Tsuru. Uma criança reconhecendo o tecido que pintara, gritou, essa é a minha mãe! e todas as outras, a casa do meu avô, a escola, o rio, a ponte, o céu, o cume da montanha.
Não se desiludiram nem entristeceram os dois homens e Hoshi disse, é tempo de eu partir. Esperam-me os arrozais, o búfalo, o arado, a minha casa, a minha aldeia e os meus amigos e a cada um darei um tecido de seda pura.
É tempo de eu ficar, disse Haru, retomar a ciência das minhas mãos e manter aberta a porta da minha casa. Não me esqueças.
Não te esquecerei, respondeu Hoshi e dobrou os tecidos magnificamente pintados e tingidos e voltou a guardá-los no cesto de vime. Depois chamou o cão, abraçou Haru e colocou junto do coração o pássaro de seda.
Gélida era a noite mas nos olhos do homem liam-se as estrelas.
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